

O Sorriso das Estrelas
Nicholas Sparks





Trs anos antes, numa manh quente de Novembro de 1999, Adrienne Willis tinha voltado  estalagem e percebera que, pelo menos  primeira vista, o lugar se tinha
mantido sem alterao, como se aquela pequena construo fosse imune aos efeitos do sol, das areias e da humidade salina. O alpendre estava pintado de fresco e as
janelas de ambos os pisos, com as suas cortinas brancas, eram emolduradas por caixilhos pintados de preto brilhante, pelo que o conjunto parecia imitar o teclado
de um piano. As paredes laterais eram da cor da neve suja. De ambos os lados da construo abundava a aveia silvestre, cujos caules pareciam dobrar-se em saudaes
constantes, e a areia formava uma duna que ia mudando imperceptivelmente de forma graas aos gros que o vento fazia deslocar de uns pontos para os outros em cada 
dia que passava.
     Com os raios de sol a penetrarem por entre as nuvens, o ar apresentava um aspecto luminoso, como se, por momentos, as partculas de luz tivessem ficado suspensas 
na neblina, fazendo Adrienne sentir-se regressada a uma poca anterior da sua vida. Porm, olhando mais de perto, verificou que os trabalhos de manuteno no conseguiam 
esconder totalmente as alteraes: as zonas apodrecidas nos cantos das janelas, as marcas de ferrugem ao longo do telhado, as manchas de humidade junto dos algerozes. 
Parecera-lhe que a estalagem estava a encolher e, embora reconhecendo no poder fazer nada para o evitar, Adrienne lembrara-se de fechar os olhos, como se por um 
qualquer passe de mgica ela conseguisse que o edifcio voltasse a ser como fora antes.
     7
     
     Agora, poucos meses depois de ter entrado na sexta dcada da vida, encontrava-se de p na cozinha da sua prpria casa, a pousar o auscultador do telefone, depois 
de ter falado com a filha. Sentou-se  mesa da cozinha, a reflectir na ltima visita que fizera  estalagem, a recordar-se do longo fim-de-semana que uma vez l 
tinha passado. Apesar de tudo o que acontecera nos anos decorridos desde ento, Adrienne continuava agarrada  ideia de que o amor era a condio essencial de uma 
vida cheia e maravilhosa.
     Estava a chover. Ficou a ouvir o bater agradvel dos pingos de encontro  'vidraa, satisfeita por experimentar aquela ideia perene de intimidade. Recordar 
aqueles dias provocava-lhe sempre uma mistura de sentimentos, algo parecido, mas impossvel de descrever exactamente, com nostalgia. Muitas vezes, a nostalgia  
envolvida por uma aura de romantismo; mas, quanto a estas suas memrias, no via razo para as tornar mais romnticas do que j eram. Nem aquelas eram memrias que 
partilhasse com qualquer outra pessoa. Pertenciam-lhe por inteiro, e com a passagem dos anos, comeou a encar-las como uma espcie de peas de museu, de um museu 
de que ela era a conservadora e tambm a nica patrona. E, que coisa esquisita, Adrienne acabara por acreditar que tinha aprendido mais durante aqueles cinco dias 
do que em todos os anos decorridos, antes ou depois.
     Vivia sozinha naquela casa. Os filhos estavam criados, o pai morrera em 1996 e havia dezassete anos que se divorciara do Jack. Embora os filhos insistissem 
para que ela encontrasse algum para a acompanhar durante o resto da vida, Adrienne no sentia desejos de o fazer. No que estivesse de p atrs em relao aos homens; 
pelo contrrio, mesmo agora, muitas vezes sentia o olhar dirigir-se para homens mais jovens com quem se cruzava no supermercado. Como era frequente que fossem apenas 
uns anos mais velhos do que os seus prprios filhos, punha-se a imaginar o que eles pensariam se notassem que ela os estava a admirar. Nem se dignariam, talvez, 
notar a sua presena? Ou retribuiriam o sorriso, encantados com o interesse dela? No fazia ideia. Nem sabia se seria possvel que eles olhassem para alm do cabelo 
que estava a ficar branco e das rugas, para procurarem a mulher que ela j fora.
     No que lamentasse estar a ficar velha. As pessoas de agora talam sem cessar dos esplendores da juventude, mas Adrienne no sentia desejos de voltar a ser jovem. 
De meia-idade, talvez, mas no jovem.  certo que reconhecia algumas deficincias: j no pulava pelas escadas, no carregava mais de um saco de compras de cada 
vez, faltava-lhe a energia para acompanhar os folguedos dos netos, mas no se importava, porque de bom grado trocava tais coisas por certas experincias que tinha 
vivido e estas s acontecem com o evoluir da idade. Chegada a esta altura, o que a fazia adormecer e acordar com normalidade era a certeza de quer olhando a sua 
vida passada, no encontrava nela muita coisa que devesse ter sido feita de outro modo.
     Alm do mais, a juventude tem os seus problemas prprios. E recordava-os da sua prpria vida, alm de os observar nos filhos  medida que eles lutavam com as 
angstias da adolescncia e a incerteza e o caos dos primeiros anos da idade adulta. Embora dois deles j tivessem entrado na casa dos trinta e outro estivesse quase 
a atingi-la, Adrienne perguntava-se com frequncia se o ofcio de me alguma vez deixaria de ser um emprego a tempo inteiro.
     Matt tinha 32 anos, Amanda tinha 31 e Dan acabava de fazer 29. 0 facto de todos terem frequentado a universidade enchia-a de orgulho, pois houvera uma altura 
em que no tinha a certeza de que qualquer deles viesse alguma fez a formar-se. Os filhos eram honestos, amveis e auto-suficientes. Matt trabalhava como tcnico 
de contas, Dan era jornalista desportivo no noticirio da noite de Greenville; ambos eram casados e pais de filhos. Quando se tinham juntado no Dia de Aco de Graas, 
ficara a observar a forma como eles tratavam dos rebentos, sentindo uma imensa satisfao pela forma como os seus filhos tinham entrado na vida.
     Como sempre, as coisas eram um pouco mais complicadas quando se tratava da filha.
     Jack tinha sado de casa quando os midos se encontravam no incio da adolescncia e cada um dos filhos tinha encontrado a sua maneira pessoal de encarar o 
divrcio dos pais. Matt e Dan tinham descarregado a sua agressividade nas pistas de atletismo e, por vezes, como actores do teatro escolar, mas Amanda fora a mais 
afectada. Sendo a segunda filha, apertada entre os dois irmos, sempre se revelara a mais sensvel e, como adolescente, sentiu
     8
     9
     
     muito a salta do pai em casa, quando mais no fosse para a distrair da preocupao sentida nos olhares que a me lhe lanava. Comeou a usar roupas que Adrienne 
considerava trapos, a andar com um grupo que ficava fora de casa at tarde e num ou dois dos anos seguintes confessou-se profundamente apaixonada por uma dzia de 
rapazes, pelo menos. Regressada da escola, ficava horas fechada no quarto a ouvir msica que fazia vibrar as paredes, ignorando os chamamentos da me para que viesse 
jantar. Passou por perodos em que, durante dias seguidos, mal falava  me ou aos irmos.
     Foram precisos alguns anos, mas a Amanda acabou por encontrar o seu caminho, escolhendo uma maneira de estar estranhamente parecida com a que Adrienne vivera 
durante uma parte da vida. Conheceu o Brent na faculdade, casaram-se depois de formados e tiveram dois filhos nos primeiros anos do matrimnio. Como acontece com 
muitos casais jovens, passaram por dificuldades financeiras, mas Brent era acautelado, como Jack nunca conseguira ser. Por precauo, subscreveu uma aplice de seguro 
logo que lhes nasceu o primeiro filho, mesmo que nenhum deles pensasse que viria a precisar dela por muitos e muitos anos.
     Estavam enganados.
     Brent havia partido havia oito meses, vtima de um tipo especialmente virulento de cancro dos testculos. Adrienne viu a filha afundar-se numa violenta depresso 
e na tarde do dia anterior, quando foi levar os netos depois de os ter consigo durante algum tempo, verificou que as cortinas da casa da filha estavam corridas, 
que a luz do alpendre ficara acesa e que Amanda estava sentada na sala, de robe e com aquela expresso vazia que tinha mostrado no dia do funeral.
     Foi ento, ali na sala de estar de Amanda, que Adrienne sentiu chegada a altura de falar  filha do seu prprio passado.
     Tudo tinha acontecido catorze anos antes.
     Durante todos aqueles anos, Adrienne s contara a uma pessoa aquilo que tinha acontecido, mas o pai levara o segredo para a sepultura, incapaz de o contar fosse 
a quem fosse, mesmo que o tentasse.
     A sua me morrera quando Adrienne tinha 3 5 anos e, embora a me e a filha mantivessem um bom relacionamento, esta sempre se sentira mais chegada ao pai. Ele 
fora, continuava a pens-lo, um dos dois homens que a compreendera verdadeiramente e fazia-lhe muita falta, agora que tinha partido. A vida do pai pouco se distinguia 
da de muitos dos homens da sua gerao. Tinha aprendido um oficio, no pudera frequentar a universidade e passara quarenta anos a trabalhar numa fbrica de mobilirio, 
recebendo  semana um salrio que aumentava apenas uns patacos em cada ms de janeiro. Usava chapu de feltro mesmo noh meses quentes de Vero, levava o almoo numa 
lancheira com dobradias que chiavam e saa apressadamente de casa s 6h 45 de cada manh, para percorrer a p mais de dois quilmetros at  fbrica.
      noite, depois do jantar, vestia um casaco de malha e camisas de mangas compridas. As calas amarrotadas davam-lhe um certo ar de desalinho que se tornou mais 
pronunciado  medida que os anos foram passando, em especial depois da morte da mulher. Gostava de se instalar na cadeira de repouso, ao lado da lmpada de luz amarela, 
a ler romances do Oeste e livros acerca da Segunda Guerra Mundial. Nos ltimos anos de vida, antes dos derrames, os culos antiquados, as sobrancelhas espessas e 
o rosto com rugas profundas faziam-no parecer-se mais com um professor universitrio jubilado do que com o operrio que tinha sido.
     O ambiente  volta do pai revelava uma quietude que ela sempre desejou imitar. Muitas vezes, a filha pensava que ele poderia ter sido um bom padre, um pregador, 
e as pessoas que falavam com ele pela primeira vez ficavam quase sempre com a impresso de que aquele homem estava em paz consigo e com o resto do mundo. Era um 
ouvinte soberbo; com o queixo apoiado na mo, nunca tirava os olhos da pessoa que falava, sempre com uma expresso que revelava empatia e pacincia, humor e tristeza. 
Adrienne bem gostaria que ele estivesse ali de momento, pronto a ajudar a Amanda; ele tambm perdera a companheira e certamente Amanda estaria disposta a ouvi-lo, 
mesmo que fosse s por ter a conscincia de que o av sabia avaliar a verdadeira dimenso do seu pesar.
     Um ms antes, quando Adrienne tentara ser amvel e levar a filha a falar da situao em que se encontrava, Amanda tinha-se
     10
     11
     
     levantado da mesa e abanara a cabea para mostrar que no estava interessada na conversa.
     - Isto no tem nada a ver com o que se passou entre ti e o pai
     - afirmou. - Divorciaram-se por no terem conseguido resolver os vossos problemas. Mas eu amava o Brent. Nunca deixarei de o amar, mas perdi-o. No fazes ideia 
do que  viver uma situao como esta.
     Na altura, Adrienne no disse nada, mas depois de Amanda ter
     sado da sala, a me inclinou a cabea e sussurrou uma simples palavra.
     Rodanthe.
     Para alm da enorme simpatia que a situao da filha lhe despertava, Adrienne estava preocupada com os netos. Eram dois - Max de seis anos, Greg com quatro 
- e durante os ltimos oito meses Adrienne vinha a reparar nas mudanas notrias na personalidade de cada um. Ao contrrio do que lhes era habitual, tinham-se tornado 
retrados e sossegados. Nenhum jogara futebol durante o Outono e embora Max estivesse a sair-se bem na escola pr-primria, todas as manhs chorava por no querer 
ir. Greg recomeara a molhar a cama e tinha acessos de mau humor pelos motivos mais insignificantes. Adrienne sabia que algumas das mudanas eram consequncia da 
falta do pai, mas no deixavam tambm de reflectir a pessoa que Amanda se tinha tornado a partir da Primavera anterior.
     Graas ao seguro de vida, Amanda no tinha necessidade de trabalhar. Mesmo assim, nos primeiros meses a seguir  morte de Brent, Adrienne passou quase todo 
o seu tempo em casa da filha, a pr as contas em ordem e a preparar as refeies das crianas, enquanto Amanda se encerrava no quarto a chorar. Deu-lhe apoio sempre 
que ela precisou dele, ouviu-a quando quis falar e obrigou a filha a passar pelo menos duas horas dirias fora de casa, na esperana de que o ar livre pudesse fazer-lhe 
entender que tambm ela, Amanda, tinha direito a comear uma nova vida.
     Adrienne pensou que a filha estava a melhorar. No comeo do Vero, Amanda tinha recomeado a sorrir, raramente, a princpio,
     com mais frequncia, depois. Empreendeu algumas visitas  cidade, acompanhou os midos  patinagem, o que levou Adrienne a comear, pouco a pouco, a libertar-se 
das obrigaes que tinha assumido. Era importante, disso no tinha dvidas, que Amanda voltasse a responsabilizar-se pela sua prpria vida. Adrienne tinha aprendido 
que as tarefas rotineiras do dia-a-dia tambm servem de conforto; esperava que diminuindo a sua presena na vida da filha, Amanda se visse compelida a perceber essa 
mesma realidade.
     Contudo, em Agosto, no dia em que comemorariam o stimo aniversrio do casamento, Amanda abriu o guarda-fatos do quarto de casal, viu o p acumulado nos ombros 
dos casacos do Brent e, subitamente, as melhorias de comportamento acabaram. No que tivesse voltado atrs - continuou a ter momentos em que era igual a si mesma 
- mas, na maioria dos casos, parecia tolhida num mundo de indeciso. No se sentia deprimida nem alegre; nem excitada nem lnguida, nem interessada nem aborrecida 
acerca das coisas que a rodeavam. Para a me, era como se Amanda se tivesse convencido de que continuar a viver era de alguma maneira atraioar a memria do marido; 
decidiu que no deixaria que tal acontecesse.
     Era uma situao injusta para as crianas. Os filhos precisavam que ela os guiasse, careciam do amor e da ateno da me. Precisavam de lhe dizer que estava 
tudo bem com eles. J tinham perdido um dos pais, o que era suficiente no captulo das desgraas. Porm, Adrienne no conseguia deixar de pensar que os netos enfrentavam 
um risco ainda mais srio: o de perderem igualmente a me.
     De p, no ambiente agradvel da sua cozinha fracamente iluminada, Adrienne verificou as horas. A seu pedido, Dan tinha levado o Max e o Greg ao cinema, de modo 
a permitir que Adrienne passasse a tarde com a Amanda. Tal como ela, os dois filhos estavam preocupados com os midos de Amanda. No se limitavam a envidar todos 
os esforos para terem um papel activo na vida dos rapazes, pois, para alm disso, desde h muito que todas as suas conversas com Adrienne comeavam e terminavam 
com a mesma
     pergunta: 0 que  que devemos fazer?
     12
     13
     
     Naquele mesmo dia, quando Dan voltara a fazer a mesma pergunta, a me tinha-lhe assegurado que iria falar com Amanda. Embora Dan se mostrasse cptico - quantas 
vezes  que j tinham tentado faz-lo? - ela sabia que naquela noite tudo iria ser diferente.
     Adrienne alimentava poucas iluses acerca do que os filhos pensavam dela. Era bvio que a amavam e respeitavam como me, mas tambm 'sabia que eles nunca chegariam 
a conhec-la perfeitamente. Aos olhos dos filhos, era uma pessoa simptica mas previsvel, amorosa e estvel, uma boa alma vinda de outra era, que conseguira abrir 
caminho na vida com as suas ideias ingnuas acerca da integridade das pessoas.  certo que mostrava os sinais da idade - os ns dos dedos das mos comeavam a destacar-se, 
a sua figura assemelhava-se mais a um quadrado do que a uma ampulheta, as lentes tinham ficado mais espessas com o passar dos anos - mas, por vezes, mal conseguia 
conter o riso, quando os via a olhar para ela com expresses destinadas a levantar-lhe o moral.
     O erro dos filhos derivava, em parte, do desejo de a verem de certa maneira, de a adaptarem a uma imagem que tinham construdo e que consideravam aceitvel 
para uma mulher da idade da me. Era mais fcil - e francamente mais cmodo - pensarem que a me era mais calma do que audaciosa, uma pessoa laboriosa e no dotada 
de capacidades que os pudessem surpreender. E, para se manter fiel ao esteretipo, tinha-se tornado uma me previsvel, simptica e estvel, que nem sequer tentava 
que os filhos a vissem a uma luz diferente.
     Sabendo que Amanda podia chegar a qualquer momento, foi ao frigorfico o tirou uma garrafa de Pinot Grigio, que colocou em cima da mesa da cozinha. A casa tinha 
arrefecido com o aproximar da noite, pelo que, a caminho do quarto, ligou o termstato.
     Era o quarto que tinha partilhado com Jack, cuja decorao j fora modificada por duas vezes desde o divrcio. Encaminhou-se para a cama de dossel que fora 
o seu sonho desde menina. Encostada  parede, por debaixo da cama, havia uma pequena caixa, que Adrienne colocou ao seu lado, sobre a almofada.
     Continha uma srie de coisas que tinha guardado: o bilhete que lhe tinha deixado na estalagem, uma fotografia dele tirada na
     clnica e a carta que recebera umas semanas antes do Natal. Por debaixo, havia dois maos de cartas trocadas entre ambos, no meio dos quais ainda estava um 
bzio que tinham apanhado durante um passeio pela praia.
     Adrienne ps de lado o bilhete e tirou um sobrescrito de um dos maos, a recordar-se do que sentira quando o lera pela primeira vez, e retirou de l uma folha 
de carta. O papel parecia mais fino e quebradio, e embora a tinta tivesse desmaiado desde a altura em que a carta fora escrita, as palavras estavam ainda bem legveis:
     "Querida Adrienne,
     Como nunca fui bom a escrever cartas, espero que me perdoes se no conseguir exprimir-me com a clareza desejada.
     Acredites ou no, cheguei esta manh, montado num burro, e tomei contacto com o lugar onde vou passar uns tempos. Bem gostaria de poder dizer-te que o lugar 
 melhor do que eu tinha imaginado mas, muito honestamente, no posso. A clnica tem carncias, praticamente de tudo: _ de remdios, de equipamento e at de camas, 
mas falei com o director e julgo que terei possibilidades de resolver alguns dos problemas, no todos. Embora disponham de um gerador para produzir electricidade, 
no existem telefones, pelo que no poderei falar contigo at que me dirija para Esmeraldas. Fica a uns dias de viagem a cavalo e o prximo abastecimento s chegar 
aqui dentro de algumas semanas. Lamento, mas penso que ambos suspeitmos de que as coisas se passariam assim.
     Ainda no vi o Mark. Est numa clnica afastada, nas montanhas, e s estar de regresso logo  noite. Conto informar-te do que se passar mas, pelo menos de 
princpio, no alimento grandes esperanas. Como disseste, julgo que antes de resolvermos os problemas que existem entre mim e ele teremos de fazer um esforo para 
nos conhecermos melhor.
     Ainda nem me dei ao trabalho de verificar quantos doentes vi hoje. Quero crer que foram mais de uma centena. H muito que no observava doentes desta forma, 
com estes tipos de doenas, mas a enfermeira nunca deixou de me ajudar, mesmo nas alturas em que eu parecia perdido. Acho que se sentia grata s pelo facto de eu 
estar aqui.
     Desde a partida, nunca mais deixei de pensar em ti, tentando perceber a razo que fez que o meu caminho tivesse de se cruzar com o
     14
     15
     
     teu. Ser que a minha viagem ainda no acabou e que a vida uma via tormentosa, mas resta-me esperar que, de uma forma ou de outra, essa via me leve de regresso 
ao lugar onde perteno.
      assim que agora vejo a situao. Perteno-te. Enquanto conduzia a caminho do aeroporto, e tambm quando o avio j estava no ar, imaginava que quando chegasse 
a Quito estarias entre a multido,  minha espera. Sabia que tal no era possvel mas, por uma qualquer razo, esse pensamento tornou mais fcil a separao. Quase 
me parecia que uma parte de ti me acompanhava na viagem.
     Quero acreditar que isto seja verdade. No, no leias assim - sei que  verdade. Antes de nos conhecermos, eu estava completamente perdido como pessoa, mas, 
mesmo assim, viste em mim qualquer coisa que de certa forma me indicou de novo a direco certa. Ambos conhecemos a razo que me levou a Rodanthe, embora no consiga 
deixar de pensar que aquela viagem foi obra de uma fora superior. Fui at l para encerrar um captulo da minha vida, esperando que a viagem me ajudasse a encontrar 
o meu caminho. Penso, contudo, que apenas andava  tua procura. E que s tu quem neste momento est comigo.
     Ambos sabemos que terei de passar aqui algum tempo. No fao ideia de quando poderei regressar e, embora tenha passado muito pouco tempo, tenho a certeza de 
que nunca senti por ningum as saudades que estou a ter de ti. Uma parte do meu ser deseja saltar para o primeiro avio e voar ao teu encontro mas, se os nossos 
sentimentos forem to verdadeiros quanto eu penso que so, acho que poderemos tolerar a separao. E no deixarei de voltar. Prometo. No curto perodo de tempo que 
passmos juntos, vivemos situaes que muitas pessoas nem conseguem imaginar; e j estou a contar os dias que vo decorrer at que possa ver-te de novo. Nunca te 
esqueas de quanto te amo,
     Paul"
     dizer que estava a ouvir a msica do oceano. Paul rira-se ao ouvir aquilo, explicando que ela estava a ouvir o prprio oceano. Tinha-a rodeado com os braos 
e sussurrado: "Estamos na mar-cheia, ou ainda no te apercebeste disso?"
     Adrienne passou em revista o resto do contedo da caixa, retirando o que lhe interessava para a conversa com Amanda, lamentando no dispor de mais tempo para 
uma leitura mais sossegada. Talvez mais tarde, disse para si mesma. Atirou com as peas restantes para a gaveta do fundo, certa de que no havia necessidade de aquelas 
coisas serem do conhecimento da filha. +Agarrando na caixa, levantou-se da cama e alisou a saia.
     A filha no tardaria a chegar.
     Acabada a leitura, Adrienne ps a carta de lado e pegou no bzio em que tinham tropeado, numa tarde de domingo, havia muitos anos. Mesmo agora, exalava um 
odor a mar, a eternidade, o cheiro primordial da prpria vida. Era de tamanho mdio, perfeitamente formado e sem falhas, algo quase impossvel de encontrar no rebentar 
das ondas de Outer Banks depois de uma tempestade. Um sinal, pensara na altura, e recordava-se de -o encostar ao ouvido e de
     16
     17
     
     DOIS
     Adrienne encontrava-se na cozinha quando sentiu a porta da frente ser aberta e fechada logo de seguida; momentos depois, Amanda atravessou a sala.
     -Mam?
     A me pousou a caixa na bancada da cozinha. - Estou aqui - bradou.
     Quando Amanda empurrou a porta de vaivm e entrou na cozinha, viu a me sentada  mesa, tendo  sua frente uma garrafa de vinho, por abrir.
     - O que  que se passa? - perguntou Amanda.
     Adrienne sorriu, a pensar como a filha era bonita. Com cabelo castanho-claro e olhos cor de avel, que serviam de contraponto s mas do rosto salientes, sempre 
fora adorvel. Embora uns dois centmetros mais baixa do que a me, andava com a postura de uma bailarina e parecia mais alta. Tambm era magra, um pouco magra de 
mais, na opinio da me, que, contudo, se abstinha de comentrios sobre isso.
     - Achei que devia ter uma conversa contigo - disse Adrienne. - Sobre que assunto?
     Em vez de responder, a me apontou para a mesa. - Acho que devias sentar-te.
     Amanda sentou-se  mesa. Vista de mais perto parecia arrasada e Adrienne pegou-lhe na mo. Apertou-a, sem dizer nada, e depois largou-a com uma certa relutncia, 
voltando-se para a janela. Houve um silncio prolongado na cozinha.
     - Mam? - acabou Amanda por perguntar. - Sentes-te bem? Adrienne cerrou os olhos e aquiesceu.
     - Estou ptima. S estava a tentar descobrir por onde  que
     hei-de comear.
     Amanda retesou-se ligeiramente.
     -  sobre mim, uma vez mais?  que nesse caso... A me f-la calar com um aceno de cabea.
     - No,  acerca de mim - respondeu. - Vou falar-te de algo
     que me aconteceu faz agora catorze anos.
     Amanda inclinou a cabea para um lado e, naquele ambiente to
     familiar da sua cozinha, Adrienne comeou a contar a histria.
     18
     19
     
     TRES
     Rodanthe, 1988
     O cu matinal estava cinzento quando Paul Flanner deixou o escritrio do advogado.
     Correndo o fecho do bluso, caminhou atravs da neblina at onde tinha deixado o Toyota Camry alugado e deslizou para o assento do condutor, a pensar que a 
sua maneira de viver durante o ltimo quarto de sculo tinha terminado formalmente com a assinatura daquele contrato de venda.
     Corria o ms de janeiro de 1988; durante o ltimo ms tinha vendido os seus bens: os dois automveis, o consultrio e agora, nesta reunio final com o advogado, 
desfizera-se da casa.
     Nunca tinha pensado na forma como reagiria  venda da casa mas, ao fechar a porta pela ltima vez, apercebeu-se de que para alm de uma vaga sensao de chegar 
ao fim de uma viagem no sentia nada de especial. Ao princpio da manh tinha percorrido toda a casa uma vez mais, diviso por diviso, na tentativa de recordar 
diversas cenas da sua vida. Pensou na rvore de Natal e recordou a excitao com que o filho costumava arrastar-se pela escada abaixo, de pijama, para ver os presentes 
que o Pai Natal lhe tinha deixado. Tentara recordar os cheiros da cozinha no Dia de Aco de Graas ou nas tardes chuvosas de domingo em que Martha fazia um guisado, 
ou os sons de vozes que irradiavam da sala onde ele e a mulher tinham sido anfitries em dezenas de festas.
     Porm,  medida que passava de uma diviso para outra, parando por momentos de olhos fechados, no conseguiu que as recordaes voltassem  vida. Apercebeu-se 
de que a casa no passava de uma concha vazia e, uma vez mais, no conseguiu perceber as razes de ter ali vivido durante tanto tempo.
     Paul deixou o parque de estacionamento, entrou na fila de trnsito e dirigiu-se para a auto-estrada interestadual, evitando as multides suburbanas que se dirigiam 
para a cidade. Vinte minutos depois, entrou na Highway 70, uma estrada de duas vias que se dirigia para sudeste, em direco  costa da Ca oliva do Norte. No banco 
traseiro seguiam dois enormes sacos de viagem. Os bilhetes de avio e o passaporte estavam na bolsa de pele colocada no banco do passageiro. Na bagageira transportava 
um kit mdico e diversos medicamentos que lhe tinham pedido que levasse.
     L fora, o cu era uma tela pintada de branco e cinzento, no deixando dvidas de que o Inverno viera para ficar. De manh tinha chovido durante uma hora e 
o vento que soprava do norte fazia que a temperatura parecesse mais baixa. A estrada no tinha muito movimento, o piso j no estava molhado e Paul entrou em velocidade 
de cruzeiro, uns quilmetros acima do limite autorizado, deixando a mente recriar tudo aquilo que fizera durante a manh.
     Britt Blackerby, o seu advogado, tinha feito uma ltima tentativa para o dissuadir. Eram amigos de h muitos anos; seis meses antes, a primeira vez que Paul 
lhe falara do que pretendia fazer, Britt pensou que o amigo estava a brincar e tinha soltado uma gargalhada, ao mesmo tempo que dizia: "Esse ser um dia para recordar!" 
S se apercebeu de que o amigo falava a srio quando viu a forma como Paul o olhava do outro lado da mesa.
     No havia dvidas de que Paul estava preparado para aquele encontro. Era um hbito de que no conseguia libertar-se, pelo que se limitou a empurrar para o amigo 
trs folhas cuidadosamente dactilografadas, que continham o esboo dos preos que considerava justos e o que pensava sobre o clausulado dos contratos de venda. Britt 
ficou um bom bocado a analisar o documento, antes de olhar para o amigo.
     - Isto  por causa da Martha? - perguntou.
     20
     21
     
     - No - respondeu Paul. -  apenas uma coisa que preciso de fazer.
     No carro, Paul ligou o aquecimento e deixou ficar a mo em frente do difusor, a tentar aquecer as pontas dos dedos. Olhando pelo retrovisor, avistou de fugida 
os arranha-cus de Raleigh e ficou a pensar se voltaria a v-los.
     A casa tinha sido vendida a dois jovens profissionais - o marido era director na Glaxo Smith-Kline, a mulher era psicloga - que tinham visto a casa logo no 
primeiro dia em que tinha sido posta  venda. Voltaram no dia seguinte e fizeram uma oferta poucas horas depois dessa visita. Foram o primeiro casal, e o nico, 
que se passeou pela casa.
     Paul no ficou surpreendido. Estava l quando eles chegaram e viu que passaram uma hora a analisar as caractersticas da casa. Apesar das tentativas que faziam 
para disfarar o que sentiam, Paul sabia que tinham decidido comprar a casa logo  primeira vista. Mostrou-lhes os pormenores do sistema de alarme e a maneira de 
abrir o porto que separava o seu domnio do resto da comunidade, deu-lhes o nome e o carto de visita do jardineiro que tratava da propriedade, bem como da empresa 
que fazia a manuteno da piscina, com a qual ainda tinha um contrato vlido. Explicou que o mrmore do vestbulo fora importado de Itlia e que os vitrais das janelas 
tinham sido desenhados por um arteso de Genebra. A cozinha fora remodelada apenas dois anos antes; o congelador e o fogo Viking eram ainda do mais moderno que 
existia no mercado; tinha-lhes garantido que cozinhar para vinte pessoas, ou mais, no constituiria qualquer problema. Levou-os a ver o quarto e a casa de banho 
principais, depois os outros quartos, sem deixar de reparar como os olhares deles se demoravam na apreciao das molduras executadas  mo e nas paredes pintadas 
com esponja. No piso inferior chamou-lhes a ateno para a moblia de estilo e para o candelabro de cristal, deixou-os examinar o tapete persa que estava por debaixo 
da mesa das bebidas da sala de jantar. Na biblioteca viu o homem a apreciar o candeeiro Tiffany colocado a um canto da secretria e a passar os dedos pelos painis 
de madeira de cer.
     - E o preo - perguntou ele -, inclui todo o mobilirio?
     Paul assentiu. Ao sair da biblioteca, no deixou de ouvir os sussurros excitados que o casal trocava entre si.
     No final da hora que tinham passado a ver a casa, quando estavam junto da porta e preparados para sair, ambos fizeram a pergunta que Paul sempre considerara 
inevitvel.
     - Por que  que ps a casa  venda?
     Paul recordou-se de olhar para o homem, sabendo que a pergunta no era fruto de simples curiosidade. O que Paul estava a fazer parecia sugerir um qualquer escndalo, 
alm de que o preo, como ele bem sabia, era baixo mesmo se a cash fosse vendida sem moblia.
     Poderia ter respondido que, por viver sozinho, no necessitava de uma casa to grande. Ou que a casa podia ser melhor aproveitada por algum mais jovem, por 
pessoas que no se importassem de subir escadas. Ou que tinha planos para comprar ou para construir uma casa diferente, que lhe agradava outro gnero de decorao. 
Ou que tencionava reformar-se e que a propriedade exigia cuidados em demasia.
     Mas qualquer destas respostas seria enganadora. Em vez de responder, encarou o homem, olhos nos olhos.
     - Por que  que a quer comprar? - perguntou.
     A pergunta fora feita em tom amigvel e o homem ficou a olhar a esposa por momentos. Uma mulher bonita, pequena, morena e mais ou menos da idade do marido - 
cerca de 3 5 anos. O marido tambm era bem-parecido, direito como um fuso, um homem obviamente aplicado, que nunca se sentira inseguro. Por momentos, pareceram no 
perceber o sentido da pergunta de Paul.
     -  o gnero de casa que sempre sonhmos vir a ter - respondeu finalmente a mulher.
     Paul aquiesceu. Certo, pensou, a lembrar-se de tambm ter pensado o mesmo. Pelo menos at seis meses atrs.
     - Ento, espero que ela lhes traga felicidade - rematou.
     Momentos depois o casal voltou-se para a sada e Paul ficou a v-los dirigirem-se para o carro. Fez-lhes um aceno antes de fechar a porta mas, uma vez s, sentiu 
um n na garganta. Apercebera-se de que olhar para aquele homem o obrigara a lembrar-se do que em
     22
     23
     
     tempos sentia quando olhava para o espelho. E, subitamente, por uma razo que mal poderia explicar, Paul sentiu que tinha lgrimas nos olhos.
     A estrada passava por Smithfield, Goldsboro e Kinston, pequenas cidades separadas por cinquenta quilmetros de campos de algodo e de tabaco. Tinha crescido 
nesta parte do mundo, numa pequena herdade nos arredores de Williamston, e os lugares mais importantes ainda lhe eram familiares. Passou por celeiros de tabaco e 
casas de lavoura em equilbrio instvel; viu manchas de visco nos ramos altos e desfolhados dos carvalhos que ladeavam a estrada. Uma espcie de pinheiros, plantados 
em filas compridas e estreitas, separavam as propriedades umas das outras.
     Em New Bern, uma cidade estranha, situada na confluncia dos rios Neuse e Trent, parou para almoar. Comprou uma sanduche e uma chvena de caf numa loja do 
centro histrico e, apesar do frio, sentou-se num banco perto do Sheraton, de onde se via a marina. Amarrados nos ancoradouros, os iates e os barcos de vela balouavam 
suavemente com a brisa.
     A respirao de Paul formava pequenas nuvens. Comida a sanduche, removeu a tampa da chvena de caf. Ficou a observar o vapor de gua que subia e a ponderar 
a sequncia de acontecimentos que o tinham trazido at ali.
     Tinha sido uma longa caminhada, pensou. A me morrera quando o trouxe ao mundo e, sendo nico filho de um pai que tinha de trabalhar a terra para comer, a sua 
vida no fora fcil. Em vez de ir jogar basebol com os amigos ou de ir  pesca, passava os dias a mondar ervas daninhas e a tirar parasitas das folhas de tabaco, 
doze horas por dia, sob o calor inclemente do sol dos Veres sulistas que lhe mantinha as costas com um castanho-dourado permanente. Como todas as crianas, por 
vezes queixava-se; mas na maior parte dos dias conformava-se com o trabalho. Sabia que o pai precisava da sua ajuda e o pai era um bom homem. Era paciente e simptico 
mas, mantendo a tradio do
     seu prprio pai, raramente falava, a menos que tivesse alguma
     coisa importante para dizer. Na maioria dos dias, a casa oferecia aquele tipo de sossego que normalmente s se encontra nas igrejas. Para alm das perguntas 
superficiais acerca do que se passava na escola ou do que estava a acontecer nos campos, ao jantar apenas se ouvia o som ocasional dos talheres a bater nos pratos. 
Lavada a loua, o pai emigrava para a sala para folhear artigos e relatrios sobre agricultura, enquanto Paul mergulhava na leitura dos seus livros. No tinham televisor 
e o rdio quase s era ligado para ouvir o boletim meteorolgico.
     Eram pobres, no lhes faltav comida nenj uma cama quente para dormirem, mas era frequente que Paul se sentisse envergonhado com as roupas que tinha de usar 
ou pelo facto de nunca ter dinheiro suficiente para ir  pastelaria comprar um bolo ou uma cola, como faziam os seus amigos. Ouvia, uma vez por outra, alguns comentrios 
maldosos sobre o assunto, mas em vez de lhes responder dedicou-se ao estudo, como se tentasse provar que a pobreza no o preocupava. Obteve notas excelentes, ano 
aps ano; o pai, por muito que os resultados do Paul o enchessem de orgulho, mal escondia uma certa melancolia que o assaltava ao olhar os relatrios, como se no 
tivesse dvidas de que aquelas notas significavam que o filho um dia sairia da herdade, para no mais voltar.
     Os hbitos de trabalho que desenvolvera nos campos fizeram-se sentir noutras reas da vida de Paul. No s foi o melhor aluno do seu curso como tambm um excelente 
atleta. Quando caloiro, foi afastado da equipa de futebol, mas o treinador recomendou-lhe que tentasse a corrida de corta-mato. Quando percebeu que a diferena entre 
ganhadores e perdedores era quase sempre mais determinada pelo trabalho do que pelas qualidades inatas, comeou a saltar da cama s cinco horas da manh, de modo 
a poder fazer dois treinos dirios. O esquema resultou; frequentou a Duke University com uma bolsa de estudos destinada a atletas e foi o melhor corredor da escola 
durante quatro anos, alm de obter excelentes notas. S uma vez, em quatro anos, baixou a guarda e quase morreu em consequncia disso, mas no deixou que voltasse 
a acontecer. Dedicou-se  Qumica e  Biologia e formou-se com distino summa cum lande). Nesse ano
     24
     25
     
     tambm se tornou uma figura do desporto a nvel nacional, terminando em terceiro lugar no campeonato de corta-mato.
     Terminada a corrida, ofereceu a medalha ao pai e disse que tinha feito todo o esforo por ele.
     - No - respondeu o pai -, correste por ti. S espero que estejas a esforar-te para alcanares qualquer coisa, no para fugires de alguma coisa.
     Nessa noite, deitado na cama a contemplar o tecto, Paul tentou perceber aquilo que o pai quisera dizer-lhe. Por si, pensava estar a correr em direco a qualquer 
coisa, queria obter tudo. Uma vida melhor. Desafogo financeiro. Meios de ajudar o pai. Considerao. Ausncia de dificuldades. Felicidade.
     Em Fevereiro do ltimo ano, depois de saber que tinha sido aceite pela Faculdade de Medicina da Universidade Vanderbilt, foi visitar o pai para lhe dar a boa 
notcia. O pai mostrou-se feliz por Paul ter conseguido o que queria. Mais tarde, a horas a que o pai costumava estar a dormir profundamente, Paul foi  janela e 
viu-o l fora, junto ao poste da vedao, uma figura solitria com o olhar perdido nos campos.
     O pai morreu trs semanas depois. Foi vitimado por um ataque cardaco quando andava a lavrar, a preparar as terras para as culturas da Primavera.
     Paul sentiu-se devastado pela perda; mas em vez de passar o tempo a chorar a morte do pai, tentou no pensar nela e trabalhou ainda com mais afinco. Foi cedo 
para Vanderbilt, frequentou os Cursos de Vero e escolheu trs disciplinas que o fariam progredir nos estudos e depois, no Outono, acrescentou trs disciplinas de 
opo a um plano de estudos j muito sobrecarregado. Depois disso, todos os seus dias se tornaram iguais. Ia s aulas, fazia os trabalhos de laboratrio e estudava 
at s primeiras horas da manh. Corria oito quilmetros por dia, contra o cronmetro, a tentar melhorar os tempos a cada ano que passava. Evitava discotecas e bares; 
ignorava as restantes actividades das equipas de atletismo da universidade. Comprou um televisor devido a um impulso momentneo mas nem o tirou da embalagem; vendeu-o 
um ano depois. Embora tmido com as raparigas, foi apresentado  Martha, uma loura da Gergia, de
     temperamento calmo, que trabalhava na biblioteca da Faculdade de Medicina; como ele no se decidia a convid-la para sair, teve de ser ela a tomar a iniciativa. 
Embora a Martha se preocupasse com a cadncia infernal da vida dele, dez meses mais tarde percorreram o caminho para o altar. No houve tempo para a lua-de-mel, 
pois os exames finais estavam  porta, mas ele prometeu que iriam a um stio adequado, logo que o ano escolar terminasse. Nunca foram. O filho, Mark, nasceu um ano 
depois e durante os dois primeiros anos Paul nunca lhe 'mudou uma fralda, nem o embalou para adormecer. i,
     Tinha mais que fazer, trabalhava na mesa da cozinha, analisando diagramas de fisiologia humana ou estudando equaes qumicas, sempre a tomar notas e a ser 
bem sucedido em cada exame. Conseguiu licenciar-se em trs anos, foi o primeiro classificado do curso e levou a famlia para Baltimore, a fim de fazer o internato 
de cirurgia na Johns Hopkins.
     A cirurgia, soube-o a seu tempo, era o seu destino. Muitas das especialidades exigem uma grande dose de interaco e de palmadinhas nas mos dos doentes; Paul 
no era especialmente dotado para comportamentos desse tipo. A cirurgia era diferente; os pacientes estavam mais interessados na aptido tcnica do cirurgio do 
que na sua capacidade de comunicao e Paul possua no s a autoconfiana suficiente para os pr  vontade antes da operao como tambm dominava as tcnicas necessrias 
para fazer o que tinha de ser feito. Aquele ambiente f-lo prosperar. Nos ltimos dois anos de internato, Paul trabalhava semanas de noventa horas e dormia quatro 
horas por noite; por mais estranho que parecesse, no revelava sinais de fadiga.
     Depois do internato completou um curso de ps-graduao em cirurgia crnio-facial e mudou-se, juntamente com a famlia, para Raleigh, onde montou consultrio 
com outro cirurgio, na altura exacta em que a populao da cidade iniciou um aumento explosivo. Sendo os nicos dois especialistas daquele ramo na cidade, a sua 
clnica tinha de se expandir. Aos 34 anos completou o pagamento das dvidas contradas na Faculdade de Medicina. Aos 36 tinha protocolos com todos os hospitais importantes 
da zona, embora a parte principal do seu trabalho tivesse lugar no centro mdico da
     26
     27
     
     Universidade de Carolina do Norte. Foi ali que participou num estudo sobre neurofibromas, em colaborao com especialistas da Clnica Mayo. Um ano mais tarde, 
viu um seu artigo acerca da fenda palatina ser publicado no New England Journal of Medicine. Seguiu-se, quatro meses depois, um artigo sobre hemangiomas que ajudou 
a uma nova definio do mtodo de operar este tipo de tumores em crianas. A sua reputao aumentou e, depois de ter operado com xito a filha do senador Norton, 
que ficara desfigurada num acidente de viao, a sua fotografia foi capa do Wall Street Journal.
     Para alm de especialista de cirurgia reconstrutiva, foi dos primeiros mdicos do estado de Carolina do Norte a fazer cirurgia plstica e cavalgou a onda quando 
ela ainda estava a formar-se. A clientela teve um aumento fantstico, os seus rendimentos multiplicaram-se, comeou a acumular bens. Comprou um BMW, depois um Mercedes, 
a seguir foi um Porsche e ainda outro Mercedes. Ele e a Martha construram a casa com que ambos sonhavam. Comprou aces, obrigaes e participaes em pelo menos 
uma dzia de fundos. Quando percebeu que no podia estar a par de todas as particularidades do mercado, contratou um gestor financeiro. Depois disso, a sua fortuna 
comeou a duplicar em cada quatro anos. Ento, quando j tinha mais dinheiro do que o necessrio para se manter at ao fim da vida, a fortuna comeou a triplicar.
     Continuava, porm, a trabalhar. Marcava operaes para os dias teis e tambm para os sbados. Passava as tardes de domingo no escritrio. Quando atingiu os 
45 anos de idade, o ritmo de trabalho que impunha acabou por cansar o scio da clnica, que o deixou para ir exercer medicina com outro grupo de colegas.
     Nos primeiros anos aps o nascimento do Mark, a mulher ainda falava em terem outro filho. Com o tempo, deixou de tocar no assunto. Embora Martha o forasse 
a ter frias, ele fazia-o to a contragosto que, por fim, a mulher habituou-se a fazer longas visitas aos pais e a levar o Mark, deixando Paul sozinho em casa. Este 
conseguia arranjar tempo para assistir aos momentos mais importantes da vida do filho, queles eventos que acontecem uma ou duas vezes por ano, mas perdia quase 
todos os restantes.
     Convenceu-se a si mesmo de que trabalhava para bem da tam lia. Ou para a Martha, que partilhara com ele as lutas dos primeiros anos. Ou para honrar a memria 
do pai. Ou para prevenir o futuro do Mark. No entanto, bem l no fundo, sabia que o fazia por si prprio.
     Se tivesse de escolher o mais grave de entre os seus desgostos durante aqueles anos, teria de falar do filho que, apesar de criado sem ter o pai por perto, 
o surpreendera e quisera ser mdico. Depois de Mark ter sido admitido na Faculdade de Medicina, Paul espalhou a novidade por todos os corredores do hospital, encantado 
com a ideia de ter o filho como colega de profisso. Agora, pensou, poderiam passar mais tempo juntos e lembrou-se de convidar Mark para almoar, na esperana de 
que conseguiria convenc-lo a enveredar pela cirurgia. Mark limitou-se a abanar a cabea.
     - Essa  a tua vida - disse-lhe o filho -, e  uma vida que no me interessa minimamente. Para ser franco, direi que tenho pena de ti.
     Palavras duras. Tiveram uma discusso. Mark fez-lhe acusaes graves, Paul enfureceu-se e o filho acabou por se precipitar para fora do restaurante. Recusou-se 
a falar ao filho durante as semanas seguintes, mas Mark no fez qualquer tentativa para remediar a situao. As semanas transformaram-se em meses; correram os anos. 
Embora Mark mantivesse relaes afectuosas com a me, evitava visit-la em casa quando sabia que o pai l estava.
     Paul tratou a desavena com o filho da nica maneira que conhecia. Manteve o ritmo de trabalho, continuou a correr os seus oito quilmetros dirios, logo de 
manh consultava as pginas de informaes financeiras do jornal. No entanto, percebia a tristeza no olhar da Martha e havia momentos, especialmente a altas horas 
da noite, em que procurava descobrir maneiras de retomar o relacionamento com o filho. Bem gostaria de pegar no telefone e ligar-lhe, mas nunca conseguiu reunir 
o nimo para o fazer. Mark, pelo que sabia atravs da mulher, estava a sair-se muito bem sem a ajuda do pai. Em vez da especializao em cirurgia, tornou-se mdico 
de famlia e, aps vrios meses passados a reunir os conhecimentos exigidos, foi para o estrangeiro como voluntrio de uma organizao internacional de auxlio aos
     28
     29
     
     desprotegidos. Embora considerasse que se tratou de um gesto nobre, Paul no conseguiu deixar de pensar que Mark pretendera afastar-se dele o mais possvel.
     Duas semanas depois de o filho ter partido, Martha pediu o divrcio.
     Se as palavras de Mark o tinham feito zangar, as da Martha deixaram-no boquiaberto. Comeou a tentar dissuadi-la, mas a mulher no o deixou prosseguir.
     - Vais mesmo sentir a minha falta? - perguntou. - Ns j mal nos conhecemos.
     - Eu posso mudar - respondeu ele.
     Martha sorriu.
     - Sei que podes. E devias. Mas terias de o fazer por ser essa a tua vontade, no por pensares que  isso que eu quero.
     Paul passou as semanas seguintes numa espcie de torpor e, um ms depois daquela conversa, aps ter sido submetida a uma operao rotineira, Jill Torrelson, 
de 62 anos de idade, natural de Rodanthe, Carolina do Norte, morreu na sala de recuperao.
     Foi este golpe terrvel, vindo na sequncia dos outros, que, sabia-o agora, o tinha trazido at ali..
     Bebido o caf, Paul voltou ao carro e dirigiu-se de novo para a estrada. Chegou a Morehead City trs quartos de hora mais tarde. Atravessou a ponte para Beaufort, 
contornou as rotundas e dirigiu-se para leste, na direco de Cedar Point.
     Abrandou a velocidade para apreciar devidamente a beleza serena daquelas terras baixas da faixa costeira. Como pde verificar, por aquelas bandas a vida era 
diferente. Sentia-se encantado porque as pessoas que conduziam em sentido contrrio o cumprimentavam com acenos, maravilhou-se com o grupo de idosos sentados no 
banco do exterior de uma bomba de gasolina, que pareciam no ter mais nada que fazer do que observarem os automoveis que passavam.
     A meio da tarde apanhou o ferry para Ocracoke, uma vila no extremo sul dos Outer Banks. O barco s transportava mais quatro
     automveis, dando-lhe oportunidade, durante a viagem de duas horas, para confraternizar com alguns dos outros passageiros. Passou a noite num motel de Ocracoke, 
acordou quando a bola de luz brilhante se elevou acima da gua e tomou o pequeno-almoo, passando as horas seguintes a passear pela vila rstica, a observar as pessoas 
que estavam a preparar casas para resistirem  tempestade que se formava ao, largo da costa.
     Quando finalmente se sentiu pronto, atirou o saco de viagem para dentro do carro e comeou a dirigir-se para norte, para o lugar onde tinha de ir.        v
     Os Outer Banks, pensou, tinham tanto de estranho como de mstico. No havia outro lugar assim, com os tufos de erva a emergirem das dunas arredondadas e os 
carvalhos martimos dobrados pela brisa que nunca deixava de soprar do oceano. A ilha j estivera ligada ao continente, mas depois da ltima Idade Glaciar, o mar 
tinha inundado uma vasta rea, formando o Pamlico Sound, a oeste. Esta srie de ilhas teve a sua primeira estrada nos anos 50 do sculo XX; at ento, as pessoas 
tinham de seguir pela praia e atravessar as dunas para chegarem s suas casas. Mesmo agora, o sistema ainda fazia parte dos hbitos locais, pois, enquanto conduzia, 
observava que havia rastos de pneus perto da linha de gua.
     O cu tinha clareado aos bocados e, embora as nuvens corressem apressadamente em direco ao horizonte, o sol aparecia por entre elas, cobrindo a terra de um 
brilho branco e agreste. Ouvia a violncia do oceano, cujo bramido se sobrepunha ao barulho do motor.
     Como os Outer Banks eram pouco povoados nesta altura do ano, tinha aquele troo de estrada s para si. No meio da solido, voltou a pensar na Martha.
     O processo de divrcio terminara havia poucos meses, mas fora por comum acordo. Sabia que ela andava a sair com outro homem, suspeitando at que j o fizesse 
antes da separao, mas isso no tinha importncia. Nada lhe parecia importante naquela altura.
     Quando ela saiu de casa, Paul achou que devia passar a trabalhar menos, pensando que precisava de tempo para ordenar as coisas.
     30
     31
     
     Passados meses, em vez de ter voltado  rotina anterior, fez um novo corte nos seus compromissos. Continuou a correr com regularidade, mas em vez de ler as 
pginas financeiras logo pela manh, achou que tal leitura tinha perdido todo o interesse. At onde a sua memria alcanava, sempre necessitara apenas de seis horas 
de sono por noite; mas, por estranho que parecesse, quanto mais diminua o ritmo da vida que fazia anteriormente, mais horas parecia precisar para se sentir repousado.
     Tambm reparou em outras mudanas a nvel fsico. Pela primeira vez, em muitos anos, sentiu que os msculos dos ombros se descontraam. As rugas do rosto, aprofundadas 
com a passagem do tempo, eram ainda bem visveis, mas a intensidade que costumava notar na sua expresso tinha sido substituda por uma espcie de melancolia resignada. 
E parecia-lhe, devia estar a imaginar coisas, que as entradas do cabelo, j acinzentado, tinham deixado de aumentar.
     Pensara ter tudo, numa determinada altura da vida. Tinha corrido, seguindo sempre em frente, atingira o pinculo do xito; agora, contudo, percebia que nunca 
tinha seguido o conselho dado pelo pai. Tinha andado toda a sua vida a fugir de qualquer coisa, no  procura fosse do que quer que fosse e, no fundo do corao, 
sabia que todos os seus esforos tinham sido vos.
     Tinha 54 anos e estava sozinho no mundo; ao olhar a tira de asfalto  sua frente, tambm ela vazia, no conseguia deixar de perguntar a si mesmo a razo que 
o levara a passar a vida a correr.
     Sabendo que j estava perto, Paul preparou-se para a ltima etapa da viagem. Ia ficar numa pequena penso pouco afastada da estrada, com cama e pequeno-almoo, 
e quando chegou aos arredores de Rodanthe, reconheceu logo onde estava. No centro, se ainda se podia chamar assim, havia vrias lojas que pareciam vender praticamente 
de tudo. O supermercado tanto vendia mquinas como material de pesca e artigos de mercearia; a bomba de gasolina tambm tinha pneus e sobressalentes para automveis, 
alm de oferecer servios de mecnica.
     No viu necessidade de pedir orientaes e um minuto depois saiu da estrada, entrou numa vereda com gravilha, a pensar que a estalagem de Rodanthe era bem mais 
encantadora do que tinha imaginado. Tratava-se de uma construo vitoriana, que demonstrava idade, com venezianas pintadas de preto e um alpendre convidativo. Nos 
corrimes havia vasos com amores-perfeitos e a bandeira americana ondulava ao vento.
     Pegou nas suas coisas, pendurou os sacos no ombro, subiu os degraus e entrou. O cho era de pinho, estava desgastado pelas areias agarradas s muitas solas 
que o tinham pisado e no tinha o aspecto formal do pavimento da sua antiga casa.  esquerda havia uma sala de estar confortvel, bem iluminada por duas grandes 
janelas, uma de cada lado da lareira. Cheirou-lhe a caf acabado de fazer e viu que tinha um pequeno prato de bolachas  sua espera. Pensou que o proprietrio estaria 
do lado direito e seguiu nessa direco.
     Embora tivesse visto um pequeno balco, onde era suposto fazer a inscrio, no havia ali ningum. O armrio das chaves era no canto por detrs do balco, com 
porta-chaves que representavam miniaturas de faris. Tocou a campainha quando chegou junto do balco, a chamar a ateno de algum que o pudesse atender.
     Esperou, voltou a tocar e pareceu-lhe ouvir um som de choro abafado. Parecia vir de um ponto no fundo da casa. Ps os sacos no cho e, dando a volta ao balco, 
passou por um par de portas de vaivm que abriam para a cozinha. Havia artigos de mercearia, ainda dentro dos sacos, em cima da bancada.
     A porta das traseiras estava aberta, como a convid-lo a avanar, e quando saiu para o alpendre ouviu as tbuas a rangerem. Havia duas cadeiras de balouo do 
lado esquerdo, com uma pequena mesa entre ambas; do lado direito, encontrou a fonte do som.
     Ela estava de p, no canto de onde se avistava o oceano. Tal como ele, usava calas de ganga desbotadas, mas vestia uma espessa camisola de gola alta. O cabelo 
castanho-claro estava penteado para trs, com alguns cabelos soltos a esvoaarem com o vento. Viu-a voltar a cabea ao ouvir o som das botas nas tbuas do alpendre. 
Uma dezena de gaivotas revoluteavam no cu por detrs dela e uma
     32
     33
     
     chvena de caf fora abandonada em cima do corrimo.. Paul desviou os olhos, mas voltou a olhar para ela pouco depois. Embora estivesse a chorar, via-se que 
era bonita, mas, pelo ar de tristeza e pela agitao que demonstrava, Paul concluiu que a mulher nem tinha conscincia disso. E esse pormenor, que nunca deixaria 
de ressaltar sempre que ele recordava aquele momento, s servia para a tornar ainda mais atraente.
     QUATRO
     Sentada do outro lado da mesa, Amanda ficou a olhar para a
     me.
     Adrienne tinha-se calado e ficara a olhar o cu pela janela.
     Deixara de chover; visto atravs da vidraa, o cu parecia carregado
     de manchas escuras. No silncio que se seguiu, Amanda conseguia
     at ouvir o zumbido montono do frigorfico.
     - Mam, qual  o motivo de estares a falar-me disso? - Porque acho que deves saber o que se passou. - Mas porqu? Quer dizer, quem era ele?
     Em vez de responder, Adrienne pegou na garrafa de vinho.
     Abriu-a com movimentos deliberadamente lentos. Encheu o seu
     copo e depois o da filha.
     -  provvel que precises disto - disse. -Mam?
     Adrienne empurrou o copo na direco da filha.
     - Lembras-te da altura em que fui para Rodanthe? Quando a
     Jean me pediu para eu tomar conta da estalagem?
     Antes de responder, Amanda teve de pensar um bocado. - Quando eu andava no liceu,  isso? - Exacto.
     Quando a me recomeou a falar, Amanda deu consigo a pegar
     no copo de vinho, tentando adivinhar aonde  que a conversa as iria
     levar.
     34
     35
     
     CINCO
     Numa tarde cinzenta de quinta-feira, Adrienne encontrava-se de p no alpendre das traseiras da estalagem, tentando aquecer as mos que rodeavam uma chvena 
de caf bem quente, a olhar o oceano que estava agora mais agitado do que uma hora antes. A gua ficara da cor do ao, como o casco de um velho couraado e avistavam-se 
pequenas ondas de espuma branca at onde a vista alcanava.
     Em parte, gostaria de no ter vindo. Estava a velar pela estalagem para fazer um favor a uma amiga, parecera-lhe que a mudana de ares lhe poderia ser til, 
mas comeava a pensar que a sua vinda tinha sido um erro. Primeiro, o tempo no dava sinais de cooperar - a rdio passara todo o dia a transmitir avisos acerca da 
tempestade que se aproximava, vinda de nordeste - pelo que encarava a possibilidade de lhe faltar a energia elctrica ou de ter de fechar-se em casa durante uns 
dias. Contudo, pior do que isso, aquela praia trazia-lhe recordaes de muitas frias ali passadas com a famlia, nos dias abenoados em que se sentia feliz com 
a vida que tinha.
     Durante muito tempo, tinha pensado que era uma pessoa de sorte. Tinha conhecido o Jack quando ainda era estudante; ele estava no primeiro ano de Direito. Tinham 
sido considerados o par perfeito - ele alto e magro, com cabelo escuro ondulado; ela, uma morena de olhos azuis, que vestia roupas de tamanhos bastante inferiores 
aos que agora usava. A fotografia do casamento estivera sempre exposta num lugar bem visvel, logo por cima da lareira da
     sala. O primeiro filho nasceu quando ela tinha 28 anos e outros dois se seguiram nos trs anos sucessivos. Como acontece com tantas outras mulheres, uma vez 
que deixou o peso aumentar no lhe foi fcil faz-lo diminuir, mas, mesmo assim, nunca deixou de tentar e, sem nunca se ter aproximado da figura que tivera antes, 
quando estabelecia comparaes com muitas das mulheres da sua idade e com filhos, pensava que no estava a sair-se nada mal.
     E era feliz. Adorava a cozinha, mantinha a casa limpa, iam juntos  igreja como uma verdadeira famlia, fazia o possvel para manter uma vida social activa, 
para dia e para o Jack. Quando os filhos comearam a ir  escola, ofereceu-se como auxiliar voluntria dos estudos, assistia s reunies das associaes de pais, 
trabalhava na escola dominical e era a primeira a oferecer os seus prstimos quando havia deslocaes ao campo. Passava horas sentada ao piano: em recitais da escola, 
no teatro escolar, nos jogos de basebol e de futebol, dava lies individuais de natao aos filhos e acompanhou-os nas suas gargalhadas de satisfao quando atravessaram 
os portes do Disneyworld pela primeira vez. Quando do seu quadragsimo aniversrio, Jack fez-lhe uma festa de surpresa e encheu o clube de campo com mais de duzentos 
convidados. Foi uma tarde cheia de riso e de alegria mas, horas mais tarde, depois de voltarem para casa, reparou que Jack nem sequer olhou enquanto ela se despia, 
antes de se meter na cama. Em vez disso, desligou as luzes e, embora ela soubesse que o marido no conseguia adormecer to depressa, foi isso mesmo que ele fingiu.
     Visto em retrospectiva, o facto deveria ter sido um aviso de que as coisas no eram o que pareciam, mas com trs filhos e um marido que deixara a educao deles 
a cargo da mulher, Adrienne estava demasiado ocupada para ponderar a situao. Alm do mais, no esperava, nem julgava possvel, que a paixo que os unira no viesse 
a ter alguns perodos menos bons. J era casada h tempo suficiente para saber como as coisas se passavam. Partiu do princpio de que a vida voltaria  normalidade 
e no se preocupou. Mas no voltou. Aos 41, comeou a ficar preocupada acerca do matrimnio e passou a frequentar a seco da biblioteca local, a procurar obras 
que pudessem dar-lhe algumas ideias sobre a forma de me
     36
     37
     
     lhorar a vida em comum e por vezes deu consigo a- ~;Como seria o futuro, quando a vida comeasse a ter de ser vivida com maior lentido. Imaginava como se veria 
no papel de av, naquilo que ela e Jack poderiam fazer quando tivessem tempo para voltarem a desfrutar da companhia um do outro. Talvez ento, pensava, a vida voltasse 
a ser como j fora.
     Foi por essa altura que viu Jack a almoar com a Linda Gaston. Sabia que Linda trabalhava na firma do marido, na filial de Greensboro. Embora Linda fosse especialista 
em questes de propriedade imobiliria, enquanto Jack era um advogado generalista, Adrienne sabia que algumas causas requeriam o trabalho conjunto de ambos, pelo 
que no se surpreendeu quando os viu juntos no restaurante. At lhes sorrira atravs da janela. Mesmo sem ser uma amiga ntima, Linda estivera em sua casa por diversas 
vezes e as relaes entre as duas mulheres tinham sido sempre boas, apesar de Linda ser dez anos mais nova e estar solteira. S depois de entrar no restaurante  
que se apercebeu dos olhares ternos que os dois trocavam entre si. E teve a certeza de que estavam de mos dadas, por baixo da mesa.
     Parou por instantes, petrificada, mas, em vez de os confrontar, rodou sobre os calcanhares e saiu antes que eles tivessem oportunidade de a verem.
     Mentindo a si mesma, chegada a hora do jantar apresentou ao marido o prato de que ele mais gostava e no falou do que tinha presenciado. Fingiu que no acontecera 
coisa alguma, acabando por se convencer, com o tempo, de que estava enganada quanto ao que vira entre o marido e a colega. Talvez a Linda estivesse numa fase m 
e Jack estivesse a tentar confort-la. O seu Jack era assim mesmo. Tambm encarou a hiptese de se tratar de uma fantasia passageira que nenhum deles teria concretizado, 
de um romance platnico e nada mais.
     Mas no era. A vida do casal comeou a deteriorar-se rapidamente, pelo que, passados uns meses, Jack pediu o divrcio. Afirmou que estava apaixonado por Linda. 
No quisera que aquilo acontecesse e esperava que ela compreendesse. No compreendeu e disse-o. Mesmo assim, quando ela tinha 42 anos, Jack saiu de casa.
     Agora, passados trs anos, jack reconstitura a sua vida mas ela no estava a conseguir fazer o mesmo. A custdia dos filhos fora atribuda a ambos, mas a partilha 
no passava de mera formalidade. Jack vivia em Greensboro, sendo certo que as trs horas de viagem por estrada eram motivo suficiente para os filhos passarem quase 
todo o tempo com a me. Uma situao que na generalidade lhe agradava, embora os seus limites de resistncia fossem testados todos os dias pelas presses que a educao 
dos trs filhos lhe impunha. Chegada a noite, era frequente deixar-se cair na cama e no conseguir adormecer por na ser capaz de pr um travo nas perguntas que 
continuavam a girar-lhe dentro da cabea. E, embora no o confessasse a quem quer que fosse, punha-se muitas vezes a imaginar o que diria se Jack lhe aparecesse 
 porta e lhe pedisse que o aceitasse de volta, pois sabia que, bem l no fundo, estava disposta a dizer-lhe que sim.
     Odiava-se por pensar assim, mas o que  que poderia fazer?
     No quisera esta vida; no a pedira, no a esperava. Nem, pensava, a merecia. Tinha-se portado bem, agira sempre de acordo com as normas. Fora fiel durante 
dezoito anos. No levantara problemas nos perodos em que o marido bebia demasiado, levava-lhe caf quando ele tinha de trabalhar at tarde, nunca dissera uma palavra 
quando ele passava os fins-de-semana a jogar golfe, em vez de passar algum tempo com os filhos.
     Seria de sexo que ele andava  procura?  certo que Linda era mais jovem e mais bonita, mas isso seria assim to importante, a ponto de o levar a deitar fora 
tudo o que fora a sua vida at ento? Os filhos no tinham qualquer significado? E ela, tampouco? Nem os dezoito anos que tinham passado juntos? E, de qualquer modo, 
no se tratava de ela ter perdido o interesse - nos dois ltimos anos, sempre que fizeram amor, fora dela que partira a iniciativa. Se o desejo do marido era assim 
to forte, por que  que ele no fazia nada por isso?
     Ou aconteceria, pensava, que ele a considerava uma sensaborona? Depois de tantos anos de casados, era normal que no tivessem muitas histrias novas para contarem 
um ao outro. Com o passar dos anos, muitas delas tinham sido recicladas em verses ligeiramente diferentes e ambos tinham chegado ao ponto de, ditas as
     38
     39
     
     primeiras palavras, saberem com antecedncia como tudo acabaria. Em vez disso, faziam o que ela pensava que faz a maioria dos casais: perguntava-lhe como tinha 
corrido o trabalho, ele fazia perguntas sobre os midos, falavam das excentricidades mais recentes de um ou de outro membro da famlia, ou ainda do que ia acontecendo 
pela cidade. Houvera alturas em que desejaria dispor de assuntos mais interessantes para manter a conversa, mas seria possvel que ele no pensasse que, dentro de 
poucos anos, ia acontecer o mesmo nas suas relaes com a Linda?
     No era justo. At os amigos o tinham dito, levando-a a presumir que os tinha do seu lado. E talvez estivessem, mas viu-se forada a admitir que alguns tinham 
uma maneira muito esquisita de o demonstrarem. Um ms antes, tinha ido a uma festa de Natal dada por um casal que conhecia h muitos anos, onde teve a surpresa de 
encontrar o Jack e a Linda. A vida  assim numa pequena cidade do Sul - as pessoas tendem a perdoar este tipo de coisas - mas Adrienne no conseguiu deixar de sentir-se 
trada.
     Contudo, ainda mais do que magoada e trada, sentia-se s. No tinha sado com ningum desde que Jack a deixara. A cidade de Rocky Mount no era exactamente 
um viveiro de quarentes solteiros e, de qualquer modo, os poucos que no eram casados tambm no eram bem o tipo de homem em que estaria interessada. Na sua maioria, 
tinham problemas e ela no se julgava capaz de acrescentar mais dificuldades s que j lhe custava tanto suportar. De incio, decidiu que seria exigente; quando 
se julgou pronta para entrar de novo no mundo dos namoricos, esboou o conjunto de caractersticas que teria de procurar. Queria algum inteligente, simptico e 
de boa figura, mas, para alm disso, algum que aceitasse o facto de ela estar a educar trs adolescentes. Suspeitava de que eles seriam um problema mas, como os 
filhos eram bastante independentes, no pensava que viessem a constituir um tipo de obstculo capaz de desencorajar a maioria dos homens.
     Cus, estava sempre a enganar-se!
     Nos ltimos trs anos, nenhum homem a convidara para sair, levando-a a acreditar que um namoro nunca mais iria acontecer.
     O velho Jack bem podia divertir-se, o velho Jack podia ler o seu jornal matinal junto de uma mulher mais jovem, mas para ela o destino no reservara nada de 
semelhante.
     E existiam, como no podia deixar de ser, as preocupaes financeiras.
     Jack tinha-lhe deixado a casa e pagava a tempo e horas o montante determinado pelo tribunal, mas o dinheiro mal chegava para cobrir as despesas correntes. Apesar 
de Jack ter auferido bons rendimentos, durante os anos em que estiveram casados no pouparam tanto quanto podiam. Como acontecer com tantos casais, passaram anos 
sem conseguirem fugir ao ciclo interminvel de gastarem quase tudo o que ganhavam. Tiveram bons carros e passaram frias agradveis; quando os televisores de grandes 
ecrs apareceram no mercado, foram a primeira famlia da vizinhana a instalar um em casa. Como as contas eram com ele, sempre acreditara que Jack estava a acautelar 
o futuro. Aconteceu que no estava, obrigando-a a arranjar umas horas de trabalho na biblioteca local. Embora no tivesse preocupaes consigo ou com os filhos, 
temia o que pudesse acontecer ao seu pai.
     Um ano depois do divrcio, o pai sofreu um acidente vascular cerebral, a que se seguiu uma sucesso rpida de mais trs. Depois disso, passou a necessitar de 
assistncia constante. O lar onde o instalou era excelente mas, como era filha nica, a responsabilidade do pagamento recaa totalmente sobre ela. O dinheiro que 
restava do acordo de divrcio daria para cobrir mais um ano de despesas; depois, no sabia o que fazer. E para conseguir que a reserva durasse mais um ano, j estava 
a gastar todo o dinheiro que ganhava na biblioteca. Jean comeou por lhe pedir que tomasse conta da estalagem que possua nos arredores da cidade por julgar que 
Adrienne estava a passar por dificuldades financeiras, deixando-lhe bastante mais dinheiro do que o necessrio para os artigos de mercearia. No bilhete que deixou 
na altura de partir, Jean dizia que o excesso seria um pagamento pela ajuda prestada. Adrienne apreciou o gesto, mas a caridade vinda dos amigos no podia deixar 
de lhe ferir o orgulho.
     No entanto, o dinheiro era apenas uma das preocupaes que tinha em relao ao pai. Por vezes, especialmente agora, sentia que o pai era a nica pessoa que 
sempre estivera do seu lado. Passar
     40
     41
     
     tempo com ele era uma espcie de escape, temia a ideia de s suas horas de convvio acabassem devido a qualquer coisa que ela fizesse, ou no fizesse.
     O que seria dele? O que seria dela?
     Adrienne abanou a cabea, a tentar afastar aquele tipo de perguntas. No queria pensar em nenhuma daquelas questes, especialmente agora. Jean dissera que o 
trabalho seria calmo - s havia uma reserva registada - e esperava que a vinda para aqui lhe servisse para clarificar as ideias. Queria passear pela praia e ler 
uns romances que tinham passado os ltimos meses em cima da mesa de cabeceira; queria descansar os ps e observar as toninhas a brincarem com as ondas. Esperava 
encontrar alvio; contudo, ali de p, no alpendre de uma estalagem de Rodanthe batida pelos ventos do mar,  espera da tempestade anunciada, sentiu que o seu mundo 
estava a desmoronar-se rapidamente. Era uma mulher na meia-idade e sozinha; cansada de trabalhar e de cintura flcida. Os filhos faziam pela vida, o pai estava doente 
e ela nem sequer sabia se teria fora para continuar.
     Foi nesse estado que comeou a chorar e que, uns minutos depois, ao ouvir passos no alpendre, se voltou e viu Paul Flanner pela primeira vez.
     Paul j tinha visto pessoas a chorar, milhares de vezes segundo os seus clculos, mas isso acontecera quase sempre no interior assptico da sala de espera de 
um hospital, quando acabava de fazer uma operao e ainda envergava o vesturio esterilizado. Para ele, o vesturio esterilizado tinha servido como uma espcie de 
escudo com que se defendia dos aspectos pessoais e emocionais do seu trabalho. Jamais chorara juntamente com as pessoas com quem falara, no recordava qualquer rosto 
das pessoas que se lhe tinham dirigido  espera de resposta. No era um feito de que se orgulhasse mas, como pessoa, sempre fora assim.
     Neste momento, porm, ao ver os olhos orlados de vermelho da mulher que se encontrava no alpendre, sentiu-se um estranho a invadir um terreno que no era o 
seu. O primeiro impulso foi
     chamar o pelho escudo em sua defesa. No entanto, notou qualquer coisa no olhar dela que o impediu de recorrer a esse esquema. Talvez fosse do ambiente ou do 
facto de ela estar sozinha; de qualquer das maneiras, o impulso repentino de empatia foi uma sensao estranha, que o apanhou desprotegido.
     No esperando que o hspede chegasse to cedo, Adrienne tentou esconder o embarao de ser vista naquele estado. Forando-se a sorrir, limpou os olhos ao leno, 
tentando dar a entender que o vento lhe pusera os olhos a lacrimejar.
     Contudo, ao voltar-se para o ver de frente, tio pde deixar de o olhar intensamente.
     Por causa daqueles olhos, pensou. Eram de um azul-plido, to claros que quase pareciam translcidos, mas havia neles uma intensidade que nunca vira em qualquer 
outra pessoa.
     "Ele conhece-me", pensou de sbito. "Ou poderia conhecer-me desde que eu lhe desse oportunidade."
     Achou estas ideias ridculas e p-las de parte, mal elas lhe passaram pela mente. No, decidiu, no havia nada de especial acerca do homem que estava de p, 
ali na frente dela. Era apenas o hspede de que a Jean lhe falara; porque ela no estava por detrs do balco, tinha vindo  procura de algum. Nada mais do que 
isso. Em consequncia, viu-se na situao de o avaliar da maneira que habitualmente reservamos para as pessoas que no conhecemos.
     Embora no fosse to alto como o Jack, teria cerca de 1,80 m, era magro e tinha bom aspecto, como uma pessoa que se exercitava diariamente. A camisola que trazia 
vestida era cara e no condizia com as calas de ganga j desbotadas, mas, de certa forma, ele parecia fazer que as d"as peas combinassem bem. O rosto era magro, 
marcado pelas rugas da testa, que revelavam anos de esforo de concentrao. O cabelo acinzentado estava cortado curto e mostrava manchas brancas junto das orelhas; 
quanto  idade, julgou-o na casa dos cinquenta, mas no conseguiu ser mais exacta do que isso.
     Nesse preciso momento, Paul pareceu compreender que estava a ser avaliado e baixou os olhos.
     - Desculpe - murmurou -, no quis ser intrometido.
     Com um movimento de cabea apontou para a porta. - Posso esperar l fora. Leve o tempo que quiser.
     42
     43
     
     Adrienne abanou a cabea, a tentar p-lo  vontade.'
     - No tem importncia. De qualquer das maneiras, j estava a contar consigo.
     Quando olhou para ele, encontrou-lhe os olhos pela segunda vez. Pareceram-lhe mais doces, atravessados por uma qualquer recordao, como se ele estivesse a 
pensar em qualquer coisa triste e a tentar esconder esse facto. Pegou na chvena de caf e usou-a como uma desculpa para se virar.
     Paul segurou-lhe a porta e desviou-se para o lado, mas ela insistiu que ele entrasse primeiro. Com ele a seguir  sua frente em direco  cozinha, e depois 
para sala da recepo, Adrienne deu consigo a apreciar aquele porte atltico e corou ligeiramente, surpreendida com as reaces que estava a experimentar. A repreender-se 
a si mesma, passou para trs do balco. Viu o nome escrito no livro de registo e olhou para cima.
     -  o senhor Paul Flanner? Tem reserva para cinco noites, com sada na quinta-feira de manh.
     - Exacto. - O homem hesitou. - Ser possvel dar-me um quarto com vista para o mar?
     Adrienne ps o livro de registo de lado.
     - Com certeza. Efectivamente, pode ficar com qualquer dos quartos l de cima.  o nico hspede de que estamos  espera durante todo o fim-de-semana.
     - Qual  que me recomenda?
     - So todos muito agradveis, mas se fosse eu, escolhia o quarto azul.
     - O quarto azul?
     - Tem as cortinas mais escuras. Se dormir no quarto amarelo, ou no branco, acordar logo aos primeiros alvores da manh. As venezianas no ajudam muito e o 
sol aparece bastante cedo. As janelas desses quartos esto voltadas para leste. - Adrienne empurrou o formulrio na direco dele, ps uma caneta ao lado do papel 
e pediu: - Quer fazer o favor de assinar aqui?
     - Com certeza.
     Ficou a v-lo escrever o nome e a pensar que as mos dele condiziam com o rosto. Os ns dos dedos eram proeminentes, como os de um homem mais velho, mas os 
movimentos eram
     rpidos e -precisos. Reparou que no usava aliana de casamento. Como se isso tivesse importncia!
     Paul ps a caneta de lado e Adrienne conferiu o formulrio para ver se estava correctamente preenchido. Quanto a residncia, estava indicado o endereo do escritrio 
de um advogado de Raleigh. Tirou uma chave do armrio que havia ao lado do balco, hesitou e tirou mais duas.
     - Muito bem, no precisamos de mais nada daqui - disse ela. - Quer que v mostrar-lhe o seu quarto?
     - Se faz favor.        t
     Paul deu um passo atrs para permitir que ela passasse pela abertura do balco e se dirigisse para a escada. A mulher parou ao chegar junto da escada, para 
ficar  espera dele. Apontou para a sala.
     -Ali h caf e bolinhos. Fiz o caf ainda no h uma hora; portanto, ainda vai aguentar-se fresco durante algum tempo.
     - Eu vi, quando entrei. Obrigado.
     Adrienne parou no cimo da escada, com a mo ainda apoiada no corrimo. Havia quatro quartos no andar de cima; um perto da frente da casa, mais trs voltados 
para o oceano. Em vez de nmeros, Paul verificou que as portas ostentavam nomes: Bodie, Hatteras e Cape Lookout, reconhecendo neles os nomes dos faris existentes 
ao longo dos Outer Banks.
     - Pode escolher o que mais lhe agradar - informou Adrienne. - Trouxe as trs chaves para que possa decidir de acordo com o seu gosto.
     Paul olhou de um quarto para outro.
     - Qual  o quarto azul?
     - Ah, esse  o nome que eu lhe dou. A Jean deu-lhe o nome de Bodie Suite.
     - Quem  a Jean?
     -  a dona disto. S estou a tomar conta do lugar enquanto ela estiver fora.
     As correias dos sacos de viagem estavam a enterrar-se-lhe no pescoo e Paul mudou-os de posio enquanto Adrienne se encarregava de abrir a porta. Manteve a 
porta aberta para Paul passar e sentiu o saco roar por ela quando ele entrou.
     44
     45
     
     Paul olhou  volta. O quarto era exactamente como o tinha imaginado: simples e limpo, mas com mais carcter do' que o quarto tpico de um motel voltado para 
a praia. Havia uma cama de dossel colocada por debaixo da janela, com uma mesa de cabeceira ao lado. No tecto havia uma ventoinha cujas ps rodavam com lentido, 
apenas o suficiente para agitar o ar. No canto mais afastado, junto a um grande quadro representando o farol de Bodie, havia uma porta que Paul presumiu que levasse 
 casa de banho. Junto  parede mais prxima estava colocada uma cmoda, de aspecto gasto, que parecia estar neste quarto desde que a estalagem fora construda.
     Com excepo da moblia, poderia dizer-se que tudo o resto ostentava um tom diferente de azul: o tapete da entrada era azul-esverdeado, a manta e as cortinas 
eram azul-escuras, o candeeiro que estava na ponta da mesa ficava algures entre os dois azuis anteriores mas brilhava, como a pintura de um carro novo. Embora a 
cmoda e a mesa estivessem pintadas a casca de ovo, eram decoradas com cenas em que o oceano aparecia por debaixo de cus azuis de Vero. At o telefone era azul, 
o que lhe dava a aparncia de um brinquedo.
     - O que  que acha?
     - No h dvida de que  azul - respondeu Paul.
     - Quer ver os outros quartos? Trouxe as chaves de todos eles.
     Ele largou os sacos no cho e olhou para fora da janela.
     - No, este  ptimo. Mas no se importa de que abra a janela? O quarto est um pouco abafado.
     - Faa favor.
     Paul atravessou o quarto, desviou a patilha e levantou a meia janela. Como a casa tinha beneficiado de sucessivas pinturas ao longo dos anos, a janela s subiu 
uns dois ou trs centmetros. Ele bem lutou para a fazer subir um pouco mais e Adrienne ficou a apreciar os msculos poderosos dos braos que inchavam e se descontraam 
alternadamente.
     Adrienne pigarreou.
     -Julgo que tenho o dever de o informar que  a primeira vez que estou a cuidar da estalagem. J aqui estive inmeras vezes, mas
     46
     sempre com a Jean a dirigir o estabelecimento; por isso, se acuar que alguma coisa no est bem, no pense duas vezes antes de me dizer.
     Paul virou-se para ela. De costas para a janela, as feies ficavam-lhe na sombra.
     - No estou preocupado - afirmou. - Nos tempos que correm, no me considero muito exigente.
     Adrienne sorriu e tirou a chave da fechadura. - Muito bem, coisas que deve saber. Jean disse-me para lhe fazer o resumo. H um calorfero de parede por debaixo 
da janela k s tem de rodar o interruptor. S tem duas posies e, quando  ligado, ouvem-se uns estalidos, mas s durante os primeiros minutos. H toalhas lavadas 
na casa de banho; se precisar de mais, faa favor de me dizer. E embora d a impresso de que leva uma eternidade a chegar  boca da torneira, a gua quente acabar 
por aparecer. Prometo. - Ao continuar, viu de relance que Paul sorria. - E, a menos que chegue mais algum durante o fim-de-semana, e por causa da tempestade no 
penso que isso acontea, a menos que a pessoa tenha de procurar abrigo, podemos comer s horas que quiser. Normalmente, a Jean serve o pequeno almoo s oito e o 
jantar s dezanove mas, se estiver ocupado a essas horas, diga-me e poderemos comer noutra altura qualquer. Ou poderei fazer qualquer coisa que possa levar consigo.
     - Obrigado.
     Ela fez uma pausa, a dar voltas  cabea para se recordar do resto.
     - Ah, uma coisa mais. Quanto ao telefone, devo inform-lo de que s no est bloqueado para as chamadas locais. Se pretender fazer chamadas interurbanas, ter 
de usar um carto ou pedir a chamada a pagar no destino, tendo obrigatoriamente de passar pela operadora.
     - Muito bem.
     J junto da porta, Adrienne ainda hesitou.
     - H mais alguma coisa que precise de saber?
     - Acho que me informou de tudo o que interessa. Com excepo, devo dizer, do mais bvio.
     - E o que ?
     47
     
     - Ainda no me disse o seu nome?
     Pousou a chave em cima da cmoda, ao lado da porta e sorriu. - Chamo-me Adrienne. Adrienne Willis.
     Para surpresa dela, Paul atravessou o quarto e estendeu-lhe a
     mo.
     - Muito gosto em conhec-la, Adrienne.
     SEIS
     Paul tinha vindo a Rodanthe a pedido de Robert Torrelson; enquanto tirava umas coisas dos sacos para as guardar nas gavetas da cmoda, dava voltas  cabea 
a tentar descobrir o que Robert teria para lhe dizer, ou se estaria  espera de que Paul fizesse as despesas da conversa.
     Jill Torrelson tinha ido consult-lo por ter um meningioma. Um tumor benigno, no lhe punha a vida em perigo mas era feio, para no dizer pior. O meningioma 
estava do lado direito do rosto e cobria toda a zona desde a ponte do nariz e por cima do malar, formando uma massa bulbosa e arroxeada, pontilhada de cicatrizes 
nos stios onde, ao longo de anos, os tecidos ulceraram. Paul j havia operado dezenas de pacientes com meningiomas e recebera muitas cartas de pessoas que se tinham 
submetido  operao, nas quais expressavam a maior gratido pelo que o cirurgio fizera por elas.
     J tinha revisto o caso mais de um milhar de vezes, mas continuava sem saber a razo da morte da doente. Nem era possvel, segundo parecia, que a cincia pudesse 
fornecer uma resposta. A autpsia de Jill fora inconclusiva, sem se conseguir determinar a causa da morte. Tinham comeado por admitir que a doente fora vtima de 
uma espcie de embolia, mas no conseguiram reunir provas disso. Depois, concentraram-se na ideia de que sofrera uma reaco alrgica  anestesia ou  medicao 
ps-operatria, mas tambm essa hiptese acabou por ser posta de parte. Portanto, fora negligncia da parte de Paul; a cirurgia tinha decorrido sem con
     48
     49
     
     tratempos e o exame minucioso do mdico-legista no tinha apontado qualquer falha no procedimento normal naqueles casos, nem nada que pudesse, mesmo remotamente, 
ter sido responsvel pelo bito.
     O registo em vdeo confirmou isso mesmo. Por se tratar de um meningioma tpico, a operao tinha sido gravada pelo hospital para possvel utilizao nas aulas 
prticas da faculdade. Mais tarde, a gravao fora vista pelo conselho de cirurgies do hospital, a que se juntaram mais trs colegas de outros hospitais do Estado. 
Uma vez mais, no se descobriu nada de errado. E o relatrio mencionava vrios estados patolgicos. Jill Torrelson tinha excesso de peso e as artrias estavam endurecidas; 
com o tempo, teria de ser operada s coronrias. Era diabtica e, como fumadora de longa data, estava a comear a sofrer de enfisema pulmonar, embora, uma vez mais, 
nenhuma destas doenas parecesse pr-lhe a vida em perigo na altura da operao e nenhuma delas pudesse fornecer uma explicao adequada para o que aconteceu.
     Aparentemente, Jill Torrelson morreu sem qualquer motivo, como se, no momento, Deus tivesse decidido cham-la  Sua presena.
     Como muitas outras pessoas na mesma situao, Robert Torrelson tinha posto o caso em tribunal. Como rus, eram indicados Paul, o hospital e o anestesista. Paul, 
como a maioria do cirurgies, tinha um seguro para cobrir aquele tipo de situaes. Como era de rotina, foi aconselhado a no falar com Robert Torrelson sem que 
o seu advogado estivesse presente e, mesmo ento, s se estivesse a ser interrogado e se desse a circunstncia de Robert tambm se encontrar na sala.
     O caso arrastou-se durante um ano, sem soluo. Logo que o advogado de Robert Torrelson recebeu o relatrio da autpsia, encarregou outro cirurgio de rever 
a gravao de vdeo; os advogados da companhia de seguros e do hospital comearam a colocar obstculos processuais para arrastarem o caso e fazerem subir os custos, 
pois o advogado de Torrelson tinha pintado um quadro negro das exigncias do seu cliente. Embora sem o dizerem directamente, os advogados da companhia de seguros 
esperavam que Robert Torrelson acabasse por desistir do processo.
     Tinha acontecido o mesmo nos outros processos postos a correr contra Paul Flanner, se pusermos de lado o facto de, dois meses antes, Paul ter recebido um bilhete 
pessoal de Robert Torrelson.
     No precisava de o trazer consigo para recordar o que l tinha sido escrito.
     "Caro Dr. Flanner,
     Gostaria de falar consigo em pessoa. Isto  muito importante para
     mim.
     Por favor,
     Robert Torrelson"
     Escrevera o endereo no final da carta.
     Recebida a carta, Paul mostrou-a aos advogados, que o aconselharam a no responder. Os seus antigos colegas do hospital disseram o mesmo. Que deixasse andar, 
opinaram; que quando o caso estivesse terminado poderia sempre aceitar o encontro, se o outro ainda quisesse conversar.
     Mas aquele pedido simples de Robert Torrelson, por cima de uma assinatura cuidadosamente desenhada, tinha mexido com Paul e ele decidiu no ligar s recomendaes.
     Segundo a sua maneira actual de pensar, tinha ignorado demasiadas coisas.
     Paul vestiu o casaco, desceu a escada e saiu pela porta da frente, dirigindo-se para o carro. Pegou na bolsa de pele que estava no banco da frente, que continha 
os bilhetes e o passaporte mas, em vez de voltar para dentro, deu a volta pela parte lateral da casa.
     O vento era mais forte do lado da praia e Paul teve de parar uns momentos para fechar o casaco. Apertando a bolsa debaixo do brao, agarrou o casaco com ambas 
as mos e baixou a cabea, sentindo que a brisa parecia morder-lhe as mas do rosto.
     O cu recordou-o de outros cus que vira em Baltimore antes das tempestades que tingiam todo o mundo com manchas de cinzento desmaiado. L longe, avistou um 
pelicano a deslizar por
     50
     51
     
     cima da gua, de asas paradas, limitando-se- a flutuar contra o vento. Bem gostava de saber para onde a ave iria quando a tempestade atingisse a mxima fora.
     Paul parou perto da gua. As ondas rolavam para a praia vindas de duas direces diferentes, fazendo saltar espuma quando colidiam. O ar estava hmido e frio. 
Olhando por cima do ombro, avistou o brilho amarelado da lmpada da cozinha da estalagem. Como se fosse um fantasma, a silhueta de Adrienne passou pelo vo da janela 
e desapareceu da vista.
     Pensou que na manh seguinte tentaria falar com Robert Torrelson. A tempestade era esperada durante a tarde e era provvel que se mantivesse durante boa parte 
do fim-de-semana, mas poderia fazer a visita se o tempo permitisse. No queria protelar a visita para segunda-feira, pois o seu voo tinha a partida marcada para 
a tarde de tera-feira, o que obrigava a sair de Rodanthe s nove da manh, no mximo. No desejava correr o risco de no falar com o homem, mas por causa da tempestade, 
o tempo estava a ficar curto. Segunda-feira era provvel que as linhas de transporte de energia tivessem sido derrubadas, podia haver inundaes e, passada a tormenta, 
Robert Torrelson poderia ter de tomar conta sabe-se l de quem.
     Paul nunca tinha estado em Rodanthe, mas calculava que perderia apenas uns minutos para encontrar a casa. Na sua avaliao, a cidade no devia ter mais do que 
umas dezenas de ruas e poderia ser percorrida de ponta a ponta em menos meia hora.
     Depois de passar alguns momentos no areal, Paul virou-se e iniciou o percurso de regresso  estalagem. No caminho, tornou a ver Adrienne de relance, quando 
ela passou pelo vo de uma janela.
     O sorriso, pensou para consigo. Gostava do sorriso dela.
     Adrienne deu consigo a olhar atravs da janela, a v-lo regressar da praia.
     Estava a desempacotar os artigos de mercearia, fazendo o seu melhor para os colocar nos armrios que lhes estavam destinados. No princpio da tarde comprara 
tudo o que a Jean tinha determinado, mas agora perguntava-se se no deveria ter espe
     rado a chegada de Paul, para lhe perguntar se tinha preferncia por alguma comida especial.
     Esta visita intrigava-a. Soube, atravs da Jean, que ele tinha telefonado seis semanas antes, que o informara de que ia fechar depois do Ano Novo e que no 
voltaria a abrir antes de Abril, mas ele oferecera-se para pagar o dobro do preo normal, desde que ela mantivesse a estalagem aberta durante mais uma semana.
     Este homem no estava de frias, disso tinha a certeza. No s por Rodanthe no ser um destino popular durante os meses de Inverno, mas tambm por ele na se 
enquadrar ano turista normal. Alm disso, quando chegou, no mostrou ser uma pessoa que veio para um stio daqueles  procura de descanso.
     Tambm no dissera que estava a visita a familiares, o que talvez quisesse dizer que estava aqui por motivos profissionais. Contudo, nem isso fazia muito sentido. 
Para alm da pesca e do turismo, poucas mais actividades havia em Rodanthe; com excepo das lojas que satisfaziam as necessidades dos habitantes da terra, a maioria 
dos negociantes fechava as portas durante o Inverno.
     Continuava  procura de uma explicao quando lhe sentiu os passos na escada das traseiras. Ficou a ouvi-lo bater os ps para deixar a areia fora de casa.
     A porta das traseiras foi aberta momentos depois e Paul entrou na cozinha. Enquanto ficou a v-lo libertar-se do casaco, notou que ele tinha a ponta do nariz 
vermelha.
     -Acho que a tempestade j est prxima - informou. - Desde esta manh a' temperatura desceu pelo menos dez graus.
     Adrienne ps uma caixa de biscoitos no armrio e olhou por cima do ombro, para lhe responder.
     - Eu sei. Tive de ligar o aquecimento. Mas esta casa no  das que faz um uso mais eficiente da energia. Na verdade, estou a sentir o vento que entra pelas 
frinchas das janelas.  pena que no esteja um tempo mais ameno.
     Paul esfregou os braos.
     - O tempo  assim mesmo. Ainda h por a caf? Acho que uma chvena vinha a calhar para me aquecer
     -  provvel que j no esteja grande coisa. Vou pr a cafeteira ao lume. Demora apenas uns minutos.
     52
     53
     
     - No se importa?
     - Nada. Talvez tambm beba uma chvena.
     - Obrigado. Vou s pr o casaco no quarto e lavar-me; deso logo a seguir.
     Brindou-a com um sorriso antes de sair da cozinha e Adrienne sentiu que expirava violentamente o ar, pois no se apercebera de que tinha sustido a respirao. 
Durante a ausncia dele, moeu uma mo-cheia de gros, mudou o filtro e comeou a fazer o caf. Pegou no bule de prata, despejou o contedo pelo cano do lava-loua 
e lavou tudo. Enquanto trabalhava, nunca deixou de o ouvir a mexer-se no andar de cima.
     Embora soubesse com antecedncia que Paul ia ser o nico hspede durante o fim-de-semana, no se tinha apercebido de quanto parecia estranho estar naquela casa 
com ele. Ou sozinha, ponto final.  certo que os midos tinham as suas actividades prprias, que ela tinha alguns momentos livres de vez em quando, mas nunca por 
muito tempo, pois eles podiam aparecer a qualquer momento. Alm disso, eram da famlia. No era bem a mesma situao em que se via naquele momento, nem conseguia 
escapar  sensao de que estava a viver a vida de uma outra pessoa, uma vida cujas normas no dominava inteiramente.
     Serviu-se de uma chvena de caf e despejou o restante no bule de prata. Estava a levar a bandeja com o bule para a sala quando o ouviu a descer a escada.
     - Mesmo na hora - exclamou. - O caf est pronto. Quer que acenda a lareira?
     Chegou-lhe o cheiro da gua-de-colnia logo que ele entrou na sala. Encheu-lhe a chvena.
     - No, no  necessrio. Sinto-me confortvel. Talvez mais tarde. Ela assentiu e deu um ligeiro passo atrs. - Bem, se precisar de alguma coisa, eu estarei 
na cozinha.
     - Pensei ouvi-la dizer que tambm lhe apetecia uma chvena. -j me servi. Deixei-a em cima da bancada. Paul levantou os olhos para ela.
     - No me faz companhia?
     Havia um certo ar de expectativa na forma como fez a pergunta, como se efectivamente quisesse que ela ficasse.
     Adrienne hesitou. Jean era especialista em conversas de salo com estranhos, mas ela nunca o fora. No entanto, sentiu-se lisonjeada pela oferta, embora sem 
saber bem porqu.
     - Acho que sim - acabou por dizer. - S tenho de ir buscar a minha chvena.
     Quando ela regressou, Paul estava sentado numa das cadeiras de balouo, junto da lareira. Com fotografias a preto e branco penduradas na parede, retratando 
cenas da vida nos Outer Banks na dcada de 1920, mais uma prateleira comprida cheia de livros muito usados, esta sempre fora a sua sala preferida naquela casa.Sa 
parede do lado do oceano havia duas janelas. Junto da lareira tinham colocado uma pequena pilha de lenha e tambm uma cesta de aparas de madeira, um ambiente propcio 
a um confortvel sero em famlia.
     Paul tinha pousado a chvena em cima de uma perna, fazia a cadeira balouar e olhava o horizonte. O vento fazia revolutear a areia e o nevoeiro estava a aproximar-se, 
dando ao ambiente exterior uma atmosfera de crepsculo. Adrienne sentou-se na outra cadeira e, por momentos, ficou a olhar a cena em silncio, tentando no se mostrar 
nervosa.
     Paul voltou-se para ela.
     - Pensa que a tempestade de amanh vai levar-nos pelo ar? - perguntou.
     Adrienne passou a mo pelo cabelo.
     - Duvido. Esta casa est aqui h sessenta anos e ainda no foi levada.
     -j aqui esteve durante um borrasca vinda de nordeste? Uma das grandes, como esta de que estamos  espera?
     - No. Mas j aconteceu  Jean, pelo que no deve ser assim to mau. Contudo, h que diz-lo, ela  de c, deve estar habituada.
     Enquanto ouvia a resposta, Paul deu consigo a avali-la. Mais nova uns anos do que ele, cabelo castanho-claro cortado um pouco acima dos ombros e ligeiramente 
encaracolado. No era magra, mas tambm no era pesada; para ele, era uma mulher atraente, segundo uma perspectiva que punha de parte os padres irrealistas da televiso 
e das revistas. Tinha uma ligeira bossa no nariz, ps-de-galinha  volta dos olhos e, quanto  pele, atingira aquele
     54
     55
     
     estdio intermdio entre a juventude e a velhice, antes de a fora da gravidade comear a exigir o seu tributo.
     - Disse que ela  sua amiga? .
     - Conhecemo-nos na universidade, h muitos anos. Jean foi uma das minhas colegas de quarto e nunca perdemos o contacto. Esta casa pertenceu aos avs dela, mas 
os pais converteram-na numa estalagem. Depois de combinar a sua vinda, pediu-me que a substitusse por ter de assistir a um casamento, fora da cidade.
     - Mas no vive aqui?
     - No, vivo em Rocky Mount. J alguma vez l esteve?
     - Muitas vezes. Quando ia a Greenville, costumava passar por l.
     Ao ouvir esta resposta, Adrienne ficou novamente a magicar no significado do endereo registado no formulrio de admisso. Bebeu um gole de caf e pousou a 
chvena no regao.
     - Sei que no tenho nada com isso - comeou -, mas posso perguntar-lhe o que veio aqui fazer? S responde se quiser. Simples curiosidade minha.
     Paul mudou um pouco de posio.
     - Vim c para falar com uma pessoa.
     - Uma longa viagem, s para ter uma conversa.
     - No tinha muito por onde escolher. Ele quer falar comigo em pessoa.
     A voz dele soava dura e longnqua, por momentos pareceu perdido nos seus prprios pensamentos. No silncio que se seguiu, Adrienne at conseguia ouvir o tremular 
da bandeira iada no mastro da frente.
     Passados uns instantes, Paul pousou a chvena na mesa que estava entre ambos.
     - O que  que faz? - acabou por perguntar, com voz a voltar ao normal. - Para alm de tomar conta de estalagens pertencentes a amigas?
     - Trabalho na biblioteca pblica.
     - Ah sim?
     - Parece surpreendido.
     - Acho que estou. Esperava ouvir uma resposta muito diferente. - Tal como?
     - Para falar com franqueza, no sei muito bem. Mas essa no.
     No me parece suficientemente idosa para uma bibliotecria. Onde
     eu vivo, esto todas na casa dos sessenta.
     Ela sorriu.
     - No  um trabalho com horrio completo. Tenho trs filhos,
     o que me obriga a ter outra profisso: a de me.
     - Que idades tm os seus filhos? - Dezoito, dezassete e quinze. - Do-lhe muito trabalho?
     - No, na verdade no do. Desde que me levante s cinco da
     manh e no v para a cama antes da meia-noite, no  assim to
     mau.
     Ele riu-se  socapa e Adrienne sentiu que tambm comeava a
     sentir-se mais descontrada.
     - E voc? Tem filhos?
     - S um. Um rapaz - respondeu, baixando os olhos por mo
     mentos, para logo continuar. -  mdico, est no Equador.
     - Vive l?
     - Para j, vive. Ofereceu-se como voluntrio para trabalhar uns
     anos numa clnica perto de Esmeraldas.
     - Deve ter orgulho nele.
     - Pois tenho. - Fez uma pausa. - No entanto, para ser
     franco, acho que ele deve ter recebido esses sentimentos da minha
     mulher. Ou melhor, da minha ex-mulher. Foi educado mais por ela
     do que por mim.
     Adrienne sorriu.
     -  agradvel ouvir isso. - O qu?
     - Que ainda aprecia as boas qualidades da sua ex-mulher. Isto
     , mesmo depois de divorciados. Depois de se terem separado, no 
     vulgar que as pessoas faam apreciaes desse gnero. Habitual
     mente, ao falarem dos antigos cnjuges, as pessoas lembram-se do
     que correu mal ou dos erros que o outro cometeu.
     Paul ficou a pensar se ela estaria a falar por experincia prpria;
     pareceu-lhe que sim.
     - Fale-me dos seus midos, Adrienne. O que  que gostam de
     fazer?
     56
     57
     
     Adrienne bebeu um gole de caf, pensando como lhe parecia estranho ouvi-lo pronunciar o seu nome.
     - Os meus midos? Ora bem, vejamos... Matt comeou por ser o trs-quartos da equipa de futebol e agora joga como defesa na equipa de basquetebol. Amanda adora 
teatro, acaba de conseguir o papel principal de Maria, de West Side Story. Quanto ao Dan... bem, de momento, Dan tambm est a jogar basquetebol, mas no prximo 
ano encara a possibilidade de mudar para a luta. O treinador tem andado a pedir-lhe isso desde que o observou nos desportos de campo no Vero passado.
     Paul arregalou os olhos.
     - Impressionante.
     - O que  que eu hei-de dizer?  tudo obra da me deles - zombou Adrienne.
     - Por que ser que isso no me surpreende? Ela sorriu.
     - Como  bvio, esse  apenas o lado bom. Se lhe falasse das s"as mudanas bruscas de humor e de atitudes, ou lhe descrevesse a trapalhada que vai nos quartos 
deles, talvez acabasse por pensar que eu estava a fazer um pssimo trabalho na educao dos meus filhos.
     Paul sorriu.
     - Duvido. Pensaria apenas que estava a educar adolescentes.
     - Por outras palavras, est a dizer que o seu filho, o mdico consciencioso, tambm passou por estas fases e que, tambm eu, no devo perder a esperana?
     - Acho que tambm passou por isso.
     - Mas no tem a certeza, pois no?
     - Realmente no tenho. No o acompanhei tanto quanto devia. Tive um perodo na minha vida em que tinha por hbito trabalhar demasiado.
     Via-se que aquilo lhe custava a admitir e bem gostaria de saber a razo que o levava a falar do assunto. Antes que pudesse ponderar devidamente a questo, o 
telefone tocou, fazendo que ambos voltassem as cabeas.
     - Com licena - disse ela, ao levantar-se. - Tenho de atender esta chamada.
     Paul ficou a v-la afastar-se, voltando a notar que era uma mulher atraente. A despeito do caminho que a sua prtica mdica tinha tomado nos anos mais recentes, 
sempre se interessara menos pela aparncia do que pelas qualidades que no esto  vista: simpatia e integridade, humor e sensibilidade. Estava certo de que Adrienne 
possua todas essas qualidades, mas ficara com a sensao de que elas no tinham sido devidamente apreciadas durante muito tempo, talvez nem por ela prpria.
     Percebeu que ela se sentia nervosa da primeira vez que se sentou junto dele e viu nisso um pormenor extremamente afectuoso. Era muito frequente, especialmente 
no seu tipo de trabalho, que as pessoas tentassem impressionar as outras, que se assegurassem de que estavam a dizer o que deviam, alardeando tudo o que faziam. 
Outras, pelo contrrio, falavam sem cessar, viam a conversa como uma via de sentido nico e nada era mais aborrecido do que aturar esses enfatuados. Nenhuma daquelas 
descries parecia aplicar-se a Adrienne.
     E tinha de admitir que era agradvel poder falar com algum que no o conhecia. Durante os meses mais recentes, tinha alternado entre o isolamento e a fuga 
s perguntas sobre o modo como estava a sentir-se. Alguns colegas, por mais de uma vez, recomendaram-lhe um bom psicoterapeuta e confidenciaram-lhe que a pessoa 
em questo os tinha ajudado. Paul cansara-se de explicar que sabia o que estava a fazer e que no tinha dvidas sobre a sua deciso. E estava ainda mais cansado 
de reparar nos olhares de preocupao com que os colegas o presenteavam ao ouvirem as explicaes que ele lhes dava.
     Mas havia qualquer coisa em Adrienne que o fazia sentir que esta mulher seria capaz de compreender a situao em que ele se encontrava. No conseguiria explicar 
a razo que o levava a pensar assim, nem isso interessava. Fosse como fosse, tinha a certeza de estar a pensar acertadamente.
     58
     59 SETE
     Uns minutos depois, Paul colocou a chvena vazia na bandeja e levou-a para a cozinha.
     Quando chegou  cozinha, Adrienne estava de costas e continuava a falar ao telefone. Estava encostada  bancada, com uma perna cruzada por cima da outra, a 
retorcer uma mecha de cabelos entre os dedos. Pelo tom de voz, percebeu que estava a acabar e colocou a bandeja em cima da bancada.
     - Sim, li o teu bilhete... pois... sim, j chegou... - Fez uma longa pausa, para ouvir, e depois voltou a falar, em voz ligeiramente mais baixa. - Tm dado 
a notcia durante todo o dia... Pelo que ouvi, deve ser das grandes... Oh, est bem... debaixo da casa?... Sim, acho que serei capaz de fazer isso. Quer dizer, depende 
da violncia que atingir, no ?... no tens de qu... Diverte-te no casamento... adeus.
     Paul estava a pr a chvena no lava-loua quando ela se voltou. - No precisava de se dar  maada de fazer isso.
     - Eu sei, mas como tinha de vir para estes lados... Quis ver o
     que tnhamos para jantar.
     - Est a ficar com fome?
     Ele abriu a torneira.
     - Tenho alguma. Mas posso esperar at que lhe d jeito. - No, tambm estou a ficar com fome.
     Depois, vendo o que ele se preparava para fazer, exclamou: - No, deixe-me fazer isso. Quem  que  o hspede?
     Paul desviou-se para o lado, permitindo que A(irienne se )uniasse a ele em frente do lava-loua. Ela foi falando enquanto lavava as chvenas e o bule.
     - A ementa desta noite permite-lhe escolher entre frango, bife ou massa com molho de natas. Posso fazer o que lhe agradar mais, mas  melhor que pense que o 
que no comer hoje ter provavelmente de comer amanh. No posso garantir que encontremos qualquer loja aberta durante este fim-de-semana.
     - Qualquer dos pratos serve. A escolha  sua.
     - Frango? J est descongelado.
     - Com certeza.
     - E estava a pensar num acompanhamento de batatas e ervilhas.
     - Parece-me ptimo.
     - Adrienne secou as mos numa toalha de papel e pegou num avental que estava pendurado num dos interruptores do fogo. Vestindo-o por cima da camisola, continuou.
     - Tambm lhe agrada uma salada?
     - Se tambm quiser. Se no quiser, tambm no me faz diferena.
     Ela sorriu.
     - Caramba, no estava a brincar quando me disse que no era exigente.
     - O meu lema  o seguinte: desde que no seja eu a cozinhar, como praticamente de tudo.
     - No gosta da cozinhar?
     - Na realidade, nunca precisei de o fazer. Martha, a minha ex-mulher, estava sempre a experimentar novas receitas. Depois que se foi embora, tenho comido quase 
sempre em restaurantes.
     - Bem, no procure avaliar os meus cozinhados de acordo com os padres dos restaurantes. Sei cozinhar, mas no sou uma chefe de cozinha. Regra geral, os meus 
filhos mostram-se mais interessados na quantidade do que na originalidade.
     - Tenho a certeza de que ser um ptimo jantar. No entanto, terei muito gosto em lhe dar uma ajuda.
     Olhou para ele, surpreendida pela oferta.
     - S se quiser. Se preferir ir l para cima descansar, ou ler, eu aviso-o quando estiver tudo pronto.
     60
     61
     
     Paul abanou a cabea.
     - No trouxe nada para ler e se me deitasse agora, no conseguiria dormir durante a noite.
     Adrienne hesitou, a ponderar se deveria aceitar a oferta, enquanto se dirigia para a porta do outro lado da cozinha.
     - Bem... obrigada. Pode comear por descascar as batatas. Esto na despensa, mesmo ali em frente, na segunda prateleira e ao lado do arroz.
     Paul dirigiu-se para a despensa. Enquanto abria o frigorfico para tirar o frango, ficou a v-lo pelo canto do olho, a pensar que o facto de ele estar a ajud-la 
nos trabalhos da cozinha era simptico, mas sem deixar de ser um pouco embaraoso. O gesto revelava uma familiaridade que a deixava ligeiramente desconcertada.
     Ouviu a voz de Paul, vinda l de trs.
     - H alguma coisa que se beba? A, no frigorfico, pergunto eu?
     Adrienne teve de desviar algumas coisas, antes de poder procurar na prateleira inferior. Havia trs garrafas, mantidas no lugar por um frasco de picles.
     - Gosta de vinho?
     - De que tipo?
     Ela pousou o frango na bancada e puxou uma das garrafas. -  um Pinot Grigio. Serve?
     - Nunca provei. Costumo beber um Chardonnay. Tem algum? - No.
     Paul atravessou a cozinha com as batatas na mo. Depois de as pousar em cima da bancada, pegou na garrafa de vinho. Adrienne viu-o analisar o rtulo antes de 
olhar para ela.
     - Parece-me bem. Como  que ser, se aqui diz que tem sabor a mas e a laranjas? Sabe onde  que podemos encontrar um saca-rolhas?
     -j o vi numa destas gavetas. Deixe-me procurar.
     Abriu a gaveta por debaixo dos utenslios de cozinha, depois a seguinte, at que finalmente o descobriu.
     Ao entreg-lo, os dedos roaram pelos dele. Com uma srie de movimentos rpidos, Paul tirou a rolha e p-la de lado. Os copos estavam pendurados por debaixo 
do armrio, perto do fogo. Tirou um e hesitou.
     - Importa-se de que arranje um copo para si?
     - Por que no? - respondeu Adrienne, ainda mal refeita da
     sensao de lhe ter tocado os dedos.
     Ele encheu dois copos e passou-lhe um. Cheirou o vinho e bebeu
     um pequeno gole, levando Adrienne a imit-lo. Ainda com o sabor
     do vinho nas papilas gustativas, deu consigo a tentar perceber o
     significado de tudo o que estava a acontecer.
     - O que  que acha? - perguntou ele. -  bom.
     - Tambm penso o mesmo.
     Fez o vinho rodar dentro do copo.
     -Na realidade,  melhor do que eu pensava. Tenho de me
     lembrar do nome.
     Adrienne sentiu um desejo sbito de recuar e deu um pequeno
     passo atrs.
     - Vou pr as coisas a mexer na cozinha.
     - Acho que esse  o sinal para eu comear a trabalhar.
     Achou a travessa dos assados por baixo do fogo. Paul pousou o
     copo na bancada e foi para junto do lava-loua. Abriu a torneira,
     ensaboou as mos e esfregou-as. Ela reparou que ele esfregou a
     frente e. as costas das mos, alm de esfregar um dedo de cada vez.
     Ligou o fogo, ajustou a temperatura e sentiu o gs incendiar-se. - H por a um descascador? - perguntou Paul.
     - No consegui encontrar nenhum; por isso, acho de ter de se
     servir de uma faca. Faz-lhe diferena?
     Paul riu-se  socapa.
     - Acho que sou capaz de manejar uma coisa dessas. Sou cirur
     gio - respondeu.
     Logo que ele proferiu a palavra, tudo passou a fazer sentido: as
     rugas da cara, a intensidade do olhar, a maneira de lavar as mos.
     Por que  que no se lembrara antes? Paul colocou-se ao seu lado e
     pegou nas batatas, comeando a lav-las.
     - Exercia em Raleigh? - perguntou ela.
     - Costumava trabalhar l. Vendi a clnica no ms passado. - Reformou-se?
     - De certo modo. Efectivamente, estou de viagem para o Equa
     dor para me juntar ao meu filho.
     62
     63
     
     - No Equador?
     - Se ele tivesse pedido a minha opinio, ter-lhe-ia recomendado o Sul de Frana, mas duvido de que ele me ouvisse.
     Ela sorriu.
     - Eles alguma vez o fazem?
     - No. Mas, devo confessar, eu tambm no dei ouvidos ao meu pai. Tudo isso faz parte do processo de crescimento, penso eu.
     Por momentos, nenhum deles falou. Adrienne acrescentou diversos temperos ao frango. Paul iniciou a descasca das batatas, movendo as mos com eficincia.
     - Percebi que Jean est preocupada com a tempestade - comentou.
     Ela olhou-o de relance.
     - Como  que sabe?
     - Pela maneira como atendeu o telefone. Calculei que estivesse a dar-lhe instrues sobre o que h a fazer para preparar a casa. -  muito esperto.
     - Vai ser difcil? Isto , prestarei toda a ajuda necessria, se vier a precisar dela.
     - Tenha cuidado, ou posso aproveitar a oferta. O meu ex-marido  que era bom com um martelo nas mos, eu no. Alis, falando francamente, ele tambm no era 
l grande coisa.
     - Sempre gostei de acreditar que  uma capacidade demasiado valorizada - respondeu Paul. Colocou a primeira batata na mquina de cortar e pegou numa outra. 
- Se me permite, gostaria de lhe fazer uma pergunta: h quanto tempo  que est divorciada?
     Adrienne nem estava muito certa de querer falar no assunto mas, mesmo assim, deu consigo a responder.
     - Dois anos. Mas ele saiu de casa um ano antes.
     - Os midos vivem consigo?
     - A maior parte do tempo. De momento, como esto no perodo de frias escolares, foram visitar o pai. E o seu, foi h quanto tempo?
     - H apenas uns meses. Tudo acabou em Outubro do ano passado. Mas ela tambm tinha sado de casa um ano antes. - Foi ela quem saiu?
     Paul assentiu.
     - Pois foi, mas a culpa foi mais minha do que dela. Como
     raramente tinha o marido em casa, acabou por se fartar da situa
     o. No lugar da Martha, acho que teria procedido da mesma
     maneira.
     Adrienne ficou a cismar na resposta, pois o homem que estava
     ali a seu lado no se parecia nada com a descrio que fazia de si
     prprio.
     - Qual era a sua especialidade na cirurgia?
     A resposta f-la levantar os olhos para ele. Paul continuou, como
     se quisesse antecipar-se s perguntas.
     - Decidi-me por essa especialidade por gostar de pr a desco
     berto os resultados do meu trabalho, sentindo, ademais, uma enor
     me satisfao por saber que estava a ajudar as pessoas. De incio,
     tratava-se principalmente de trabalho de reconstruo, consequn
     cia de acidentes. Agora as pessoas vo ter com o mdico para
     fazerem cirurgias plsticas. Nos ltimos seis meses corrigi mais
     narizes do que alguma vez julgara possvel.
     - O que  que eu preciso de corrigir? - perguntou ela com ar
     brincalho.
     Ele abanou a cabea.
     - Absolutamente nada. - A srio?
     - Estou a falar a srio. No alteraria coisa alguma. - De verdade?
     Levantou dois dedos. - Palavra de escuteiro.
     - Alguma vez foi escuteiro? - No.
     Adrienne riu-se, mas no deixou de sentir as faces enrubes
     cerem.
     - Bom, tenho de lhe agradecer. - No tem de qu.
     Quando acabou de preparar o frango, Adrienne meteu-o no
     forno, marcou o tempo e lavou novamente as mos. Paul passou as
     batatas por gua e deixou-as perto do lava-loua.
     - E a seguir?
     - Os tomates e os pepinos para a salada esto no frigorfico.
     I
     64
     65
     
     Paul passou por ela, abriu a porta e encontrou ijs.:> Adrienne sentiu a gua-de-colnia que ele usava a encher o pequeno espao que havia entre eles.
     - Como  que foi o seu crescimento em Rocky Mount? - perguntou ele.
     Comeou por nem saber o que havia de responder-lhe, mas passados minutos tinha entrado num gnero de conversa despretensiosa que era simultaneamente familiar 
e agradvel. Contou histrias acerca do pai e da me, mencionou o cavalo que o pai lhe comprou quando fez doze anos, recordou as horas que ambos tinham passado a 
tratar do animal e como isso lhe tinha ensinado mais sobre a noo de responsabilidade do que qualquer outra tarefa de que se tinha encarregado at ento. Descreveu 
os anos na universidade com gosto, mencionou a forma como tinha conhecido o Jack, numa festa de confraternizao quase no final do primeiro ano. Namoraram-se dois 
anos, pelo que, quando se comprometeu no casamento, pensou que estava a tomar uma deciso para toda a vida. A partir da, tornou-se menos segura, abanou ligeiramente 
a cabea e mudou de assunto, para falar dos filhos e no ter de falar do divrcio.
     Paul deixou-a falar enquanto ia preparando a salada, que finalizou com os quadradinhos de po que ela comprara antes, s fazendo perguntas de vez em quando, 
para lhe lembrar de que ouvia com interesse o que ela estava a dizer-lhe. A animao demonstrada quando falava do pai, e depois dos filhos, fizeram-no sorrir.
     Estava a anoitecer, as sombras comeavam a alongar-se pela cozinha. Adrienne ps a mesa e Paul despejou um pouco mais de vinho nos dois copos. Quando o jantar 
ficou pronto, tomaram lugar  mesa.
     Paul encarregou-se da maior parte da conversa no decorrer do jantar. Falou-lhe da infncia na herdade, descreveu-lhe as dificuldades por que teve de passar 
na faculdade, do tempo gasto a treinar corta-mato e falou-lhe de visitas anteriores aos Outer Banks. Quando lhe falou do pai, Adrienne ainda pensou em contar-lhe 
a doena do dela, mas recuou no ltimo momento. Jack e Martha foram referidos apenas de passagem. Durante a maior parte do
     tempo a conversa ficou-se pela superfcie dos assuntos e, de momento, nenhum estava pronto para aprofundar qualquer questo.
     Na altura em que acabaram o jantar, o vento tinha amainado, era agora apenas uma brisa, e as nuvens tinham-se juntado, naquela calma que antecede a tormenta. 
Paul trouxe os pratos para o lava-loua e Adrienne guardou os restos no frigorfico. A garrafa de vinho estava vazia, a mar estava a encher e no horizonte distante 
comearam a aparecer as primeiras manchas de luz dos relmpagos, fazendo bilhar o mundo l de fora, como se algum andasse por ali a tirar fotografias, na esperana 
cde vir a recordr aquela noite para sempre.
     66
     67
     
     OITO
     Depois de ter ajudado a arrumar a cozinha, Paul fez um aceno
     de cabea na direco da porta das traseiras.
     - No gostava de me acompanhar num passeio pela praia? perguntou. - Parece que est uma noite muito agradvel. - No estar a ficar frio?
     - De certeza, mas tenho a sensao de que, por uns dias, ser a nossa ltima oportunidade de pr os ps no exterior.
     Adrienne foi  janela e olhou para fora. Podia ficar ali e acabar a limpeza da cozinha, mas essa tarefa podia esperar, no era?
     -Muito bem - concordou -, s preciso de ir buscar um casaco.
     O quarto de Adrienne ficava ao lado da cozinha, numa diviso que Jean tinha acrescentado havia uns dez anos. Era mais amplo do que os restantes quartos e tinha 
uma casa de banho, que fora concebida tendo por centro uma grande banheira com jacuzzi. Jean usava esta banheira com regularidade e, nas ocasies em que Adrienne 
lhe telefonava por se sentir deprimida, aquele era o remdio que sempre recomendava para que a amiga se sentisse melhor.
     - Do que tu precisas  de um banho prolongado, bem quente, relaxante - dizia habitualmente, esquecida do pormenor de Adrienne ter trs filhos em casa, que monopolizavam 
as casas de banho e cujos horrios nem sempre deixavam muito tempo livre para a me.
     Adrienne tirou um casaco do armrio e pegou num leno. Deu uma olhadela ao relgio enquanto punha o leno, ficando espantada
     com a velocidade com que as horas pareciam ter passado. Quando regressou  cozinha, Paul estava  espera dela, com o casaco j vestido.
     - Est pronta? - perguntou.
     Ela levantou a gola do casaco.
     - Vamos. Mas tenho de o avisar de que no aprecio de maneira especial o tempo frio. O meu sangue sulista  um pouco aguado.
     - No vamos estar l fora muito tempo. Prometo.
     Estava a sorrir quando saram e Adrienne levou a mo ao interruptor da lmpada que iluminava os degraus. A caminhar lado a lado, subiram uma duna baixa e dirigiram-se 
palra o areal compacto da praia.
     Aquele comeo de noite era de uma beleza extica; estava uma aragem fria e cortante, que levava  sua frente a humidade com sabor a sal. No horizonte, os relmpagos 
sucediam-se com regularidade, fazendo a camada de nuvens aparecer durante uns instantes. Ao olhar nessa direco, reparou que Paul estava tambm a contemplar o cu. 
Os olhos dele, pensou, pareciam registar todos os pormenores.
     -j tinha assistido a algo semelhante? A relmpagos assim? - perguntou ele.
     - Durante o Inverno, no. No Vero acontece com frequncia.
     - Resultam da deslocao simultnea de duas frentes. Comeou quando estvamos a jantar e quer parecer-me que esta tempestade vai ser maior do que estava previsto.
     - S espero que esteja enganado.
     -  possvel que esteja.
     - Mas no acredita muito nisso.
     Ele encolheu os ombros.
     - Digamos apenas que se eu soubesse o que estava para vir, certamente teria tentado alterar as datas.
     - Porqu?
     -j deixei de ser um entusiasta das grandes tormentas. Recorda-se do tufo Hazel? Em 1954?
     - Claro, embora ainda fosse muito nova. Quando todas as luzes da casa se apagaram, fiquei mais excitada do que medrosa. E Rocky Mount no foi atingida com violncia; 
o nosso bairro, pelo menos, no sofreu muito.
     68
     69
     
     - Teve sorte. Eu tinha 21 anos na altura e estava na~Universidade de Duke. Quando a tempestade foi anunciada, alguns rapazes da equipa de corta-mato pensaram 
que seria uma boa oportunidade para fortalecer o esprito de grupo e fomos para Wrightsville Beach, com a pretenso de fazermos a "festa do tufo". No queria ir, 
mas como era o capito de equipa, fui praticamente obrigado a concordar com a ideia.
     - No foi a que o mar galgou a terra?
     - No foi exactamente nesse ponto, foi bastante perto. Na altura em que l chegmos a maioria das pessoas j tinha deixado a ilha, mas ramos jovens e ignorantes, 
e continumos o nosso caminho. A princpio, aquilo teve a sua piada. Organizmos turnos que tentavam inclinar-se contra o vento, sem perder o equilbrio, sempre 
a perguntarmos a ns mesmos a razo de se dar tanta importncia a tudo aquilo. Contudo, passadas umas horas, o vento tornou-se demasiado violento e acabou com as 
brincadeiras, enquanto a chuva formava uma verdadeira cortina, pelo que decidimos voltar para trs e seguir em direco a Durham. Mas no conseguimos sair da ilha. 
As pontes tinham sido fechadas quando o vento ultrapassou os noventa quilmetros por hora; ficmos encurralados. A tempestade no deixava de piorar. Pelas duas da 
manh, parecia que estvamos numa zona de guerra. As rvores eram arrancadas, os telhados desfaziam-se, vamos coisas, que nos podiam matar, virem de todas as direces 
e a passarem rentes s janelas do carro. E o barulho era de uma intensidade que nunca teramos conseguido imaginar. O carro continuava a ser massacrado pela chuva 
e surgiu a grande onda. Era a hora da praia-mar de uma noite de lua cheia, nunca vira ondas to altas e estavam a vir na minha direco, uma atrs de outra, em cadncia 
rpida. Tivemos sorte por estarmos suficientemente afastados da praia, mas nessa noite vimos quatro casas a serem levadas na enxurrada. E ento, quando no pensvamos 
que a situao pudesse piorar, os cabos de transporte de electricidade comearam a estourar. Vimos os transformadores explodirem, um aps outro, e a ponta de um 
dos cabos atingiu o solo perto do nosso carro. Ficou a balouar ao vento durante o resto da noite. Estava to perto que vimos as fascas e houve alturas em que quase 
atingiu o automvel. Para alm de rezar, no penso que qualquer de ns
     dissesse urna s palavra durante o resto da noite. Foi a coisa mais parva que fiz em toda a minha vida.
     Adrienne no tirara os olhos dele durante o relato.
     - Foi uma sorte no ter morrido.
     - Eu sei.
     Na praia, a violncia das ondas provocava a formao de espuma que se parecia com bolas de sabo no banho de uma criana.
     - Nunca tinha contado esta histria - confessou Paul, passado algum tempo. - Quero dizer que nunca a contei a ningum.
     - Por que no?        Z        4
     - Porque, de certa maneira, aquilo no tinha nada a ver comigo. Nunca me tinha metido numa situao to arriscada, nem voltei a fazer nada de semelhante.  
como se tudo aquilo tivesse sucedido a outra pessoa. Para perceber, teria de me conhecer. Eu era o tipo de rapaz que no saa  sexta-feira para no me atrasar nos 
estudos.
     Ela riu-se.
     - No quero acreditar!
     -  verdade. No saa.
     Continuaram a caminhar pela areia endurecida e Adrienne olhou de relance para as casas que havia por detrs das dunas. Sentiu um baque, Rodanthe parecia uma 
vila fantasma, pois, para alm das da estalagem, no havia quaisquer luzes acesas.
     - Importa-se que lhe faa uma observao? - perguntou ela. -  que receio que me interprete mal.
     - No farei nada disso.
     Deram mais alguns passos, com Adrienne  procura das palavras exactas.
     - Bem... acontece que quando fala de si, para quem o ouve,  como se estivesse a falar de outra pessoa. Diz que costumava trabalhar demasiado, mas as pessoas 
assim no vendem as suas clnicas para irem para o Equador. Diz que nunca fez loucuras, mas a seguir conta-me uma aventura louca em que esteve envolvido. S estou 
a tentar perceber.
     Paul hesitou. No tinha de dar explicaes, no a ela, nem a ningum, mas, enquanto caminhava sob um cu a tremeluzir, no incio de uma noite fria de janeiro, 
percebeu subitamente que
     70
     71
     
     gostava que ela o conhecesse, que o conhecesse de verdade, em todas as suas contradies.
     -Tem razo - comeou -, porque estou a falar de duas pessoas. Costumava ser o Paul Flanner, o mido esperto e trabalhador que cresceu para ser cirurgio. O 
tipo que trabalhava sem descanso. Ou o Paul Flanner, marido e pai, dono de uma grande casa em Raleigh. Porm, actualmente, no sou nada disso. Neste momento, estou 
apenas a tentar compreender quem  o verdadeiro Paul Flanner e, para lhe ser franco, comeo a duvidar de que alguma vez venha a saber a resposta.
     - Acho que toda a gente se sente assim de vez em quando. Mas ir para o Equador por causa disso, no  soluo capaz de inspirar muitas pessoas.
     - E pensa que eu vou por essa razo?
     Deram uns passos em silncio, antes de Adrienne olhar para ele.
     - No - acabou por dizer -, penso que vai por sentir necessidade de compreender o seu filho. - Viu a surpresa estampada na cara dele. - No me foi difcil chegar 
a esta concluso - continuou. - Quase no falou dele durante toda a tarde. Contudo, se pensa que a viagem o pode ajudar, fico satisfeita por saber que vai.
     Paul sorriu.
     - Pois bem,  a primeira pessoa a ficar satisfeita. Nem o prprio Mark ficou muito entusiasmado quando lhe anunciei que ia. - Ele h-de ultrapassar essa fase.
     --Acha que sim?
     -Espero que sim.  isso que digo a mim prpria quando tenho problemas com os meus filhos.
     Ele soltou uma pequena gargalhada e apontou para o caminho percorrido.
     - Quer voltar para trs? - perguntou.
     - S esperava ouvi-lo perguntar isso. Tenho as orelhas geladas.
     Deram a volta, seguindo as prprias pegadas marcadas na areia. Embora a Lua no estivesse visvel, as nuvens acima da cabea deles brilhavam como a prata. L 
longe, ouviram ribombar o primeiro trovo.
     - Como era o seu ex-marido?
     - O Jack? - Adrienne hesitou, ponderando a hiptese de mudar da assunto, mas acabando por decidir que no tinha importncia. A quem  que ele podia ir contar 
a histria? - Ao contrrio de si - acabou por dizer -, o Jack pensa que j encontrou o seu caminho. Muito simplesmente, decidiu-se a ir viver com outra pessoa quando 
ainda ramos casados.
     - Lamento.
     - Tambm eu. Ou, pelo menos, lamentei. Agora j no me faz muita diferena. Tento no pensar no assunto.
     Paul recordou-se das lgrimas zque lhe vira horas antes.
     - E o sistema funciona?
     - No, mas continuo a tentar. Ao cabo e ao resto, que mais posso fazer?
     - Pode ir para o Equador, em qualquer altura?
     Ela fez um ar surpreendido.
     -  claro, no seria engraado? Posso chegar a casa e dizer algo assim: "Meninos tenho muita pena, mas agora esto por vossa conta. A mam vai viajar durante 
uns tempos." - Abanou a cabea. - No, por um perodo de tempo que no sei determinar, estou numa espcie de jaula. Pelo menos at estarem todos na universidade. 
De momento, carecem de toda a estabilidade que lhes puder proporcionar.
     - Parece-me que estou a falar com uma boa me.
     - Tento. Embora os meus filhos nem sempre pensem assim.
     - Veja as coisas de outra perspectiva: quando eles tiverem os seus prprios filhos, pode ter a sua vingana.
     -Decerto, conto com isso. J estou a praticar. Que me dizes a uma batatas fritas antes do jantar? No,  claro que no tens de arrumar o teu quarto. Certamente 
podes ficar a p at tarde...
     Paul voltou a sorrir, a sentir enorme prazer naquela conversa. A gostar dela. Na luz plida da tempestade que se aproximava, parecia bela, e no conseguia perceber 
como  que o marido tinha podido deix-la.
     Regressaram lentamente a casa, cada um perdido nos seus prprios pensamentos, desfrutando os sons e os relmpagos, sem sentirem necessidade de falar.
     72
     73
     
     Era uma situao confortvel, pensava Adrienne. Muitas pessoas pensam que o silncio  um vazio que tem de ser preenchido, mesmo que no tenham nada de importante 
para dizer. Tinha aturado demasiadas situaes dessas naquele circuito infindvel de festas que tinha frequentado na companhia do Jack. Nessas alturas, os seus melhores 
momentos aconteciam quando conseguia escapar-se e passar uns minutos num alpendre discreto. Por vezes, calhava encontrar l outra pessoa, algum que no conhecia, 
mas quando os dois desconhecidos se viam, esboavam um ligeiro cumprimento de cabea, como que estabelecendo um pacto secreto. "Nada de perguntas, nada de conversa 
fiada... de acordo. "
     Ali, na praia, essa sensao regressou. A noite estava fresca, o vento agitava-lhe os cabelos e afagava-lhe a pele. A sua sombra projectava-se para diante, 
movendo-se sobre a areia, sempre a mudar de feitio e a formar imagens quase irreconhecveis que podiam desaparecer logo de seguida. O oceano era um turbilho de 
negrume lquido. Sabia que Paul estava tambm a absorver todas aquelas sensaes; tambm ele parecia consciente de que as palavras poderiam de certa maneira quebrar 
o encanto.
     Caminharam imersos num silncio de cumplicidade; a cada passada, Adrienne ficava mais consciente de que desejava passar mais tempo com aquele homem. Um sentimento 
que no tinha nada de estranho, pois no? Ele estava s, ela tambm, dois caminhantes solitrios a desfrutarem de um pedao de areal deserto, numa aldeola  beira 
do mar, chamada Rodanthe.
     Depois de entrarem em casa, pararam na cozinha para se libertarem dos casacos. Adrienne pendurou o seu num cabide colocado ao lado da porta, juntamente com 
o leno; Paul pendurou o dele ao lado.
     Adrienne juntou as mos e soprou atravs delas, observando Paul a olhar o relgio, e depois dar uma volta pela cozinha, como se ponderasse a ideia de dar o 
sero por terminado.
     - Que tal uma coisa quente para bebermos? - apressou-se ela a oferecer. - Posso fazer uma cafeteira de descafenado.
     - No tem ch? - perguntou Paul.
     - Lembro-me de o ter visto por a. Vou procurar.
     Atravessou a cozinha, abriu o armrio prximo do lava-loua, afastou umas coisas para o lado, apreciando o facto de poderem estar mais algum tempo juntos. Na 
segunda prateleira havia um pacote de Earl Grey; quando se voltou para o mostrar, Paul presenteou-a com um sorriso de aprovao. Passou por ele para ir buscar a 
chaleira, encheu-a de gua, consciente de que estavam muito perto um do outro. Quando o ch ficou pronto, encheu duas chvenas e foram para a sala.
     Voltaram aos seus lugares nas cadeiras dei balouo, apesar de agora, depois do Sol posto, o ambiente da sala ser bastante diferente. Se possvel, no escuro, 
parecia ainda mais calmo e mais intimo.
     Beberam o ch e falaram de diversos assuntos durante mais uma hora; uma conversa fcil de amigos descuidados. Contudo, com o final do sero a aproximar-se, 
Adrienne deu consigo a fazer confidncias acerca do pai e dos receios com que encarava o futuro.
     Paul j vira antes muitos cenrios como aquele; como mdico, deparara com histrias daquelas regularmente mas, at ao momento, tinham sido apenas isso - histrias. 
Os seus pais tinham morrido e os da Martha estavam vivos e de boa sade, na Florida; contudo, pela expresso de Adrienne, percebeu quanto devia dar graas por no 
ter de enfrentar um dilema semelhante.
     - Haver alguma coisa que eu possa fazer? - perguntou. - Conheo uma quantidade de especialistas que poderiam rever o processo clnico do seu pai, para vermos 
se h maneira de o ajudar.
     - Obrigada pela oferta, mas no vale a pena; j fiz tudo isso. O ltimo derrame deixou-o realmente mal. Mesmo que fosse possvel proporcionar-lhe algumas melhoras, 
no penso que ele pudesse passar a viver sem assistncia a todas as horas do dia e da noite.
     - O que  que vai fazer?
     - No sei. Tenho a esperana de que o Jack mude de ideias e possa dar algum apoio adicional para suportar as despesas com o meu pai; pode ser que mude. Ele 
e o meu pai foram bastante amigos durante um tempo. Se no acontecer, acho que tenho de procurar um emprego com horrio completo para conseguir fazer face s despesas.
     74
     75
     
     - O Estado no d nenhuma ajuda?
     Logo que as palavras lhe saram da boca, soube qual ia ser a resposta.
     - Talvez lhe fosse reconhecido o direito  assistncia, mas as boas instituies tm longas listas de espera e a maioria delas esto muito longe, o que me impediria 
de o ver com regularidade. - Fez uma pausa, com o pensamento a oscilar entre o passado e o presente. - Quando se reformou... - acabou por dizer -, fizeram-lhe uma 
pequena festa de despedida na fbrica; pensei que ele ia sentir falta da obrigao de ir trabalhar todos os dias. Tinha comeado a trabalhar naquela fbrica aos 
15 anos e, naqueles anos todos de operrio, s tivera dois dias de baixa por doena. No meu clculo, feito por alto, ele tinha passado quinze anos inteiros da sua 
vida metido dentro daquela fbrica; porm, quando lhe falei do meu receio, respondeu-me que no ia sentir saudades nenhumas. Que tinha grandes planos, agora que 
estava arrumado. - A expresso de Adrienne suavizou-se. - Queria dizer que planeava fazer as coisas que desejava, em vez de fazer aquilo a que era obrigado. Passar 
tempo comigo, com os netos, com os livros ou com os amigos. Depois de tudo o que tivera de suportar, merecia alguns anos de vida mais fcil, e ento... - disse, 
ficando a meio da frase, at olhar Paul nos olhos. - Se o conhecesse, acho que gostaria dele.
     - Decerto sim. E ele, gostaria de mim?
     Adrienne sorriu.
     - O meu pai gosta de toda a gente. Aquilo de que mais gostava, antes do derrame cerebral, era ficar a ouvir as pessoas a falarem e a tentar perceber como  
que elas eram. Tinha uma pacincia infinita, o que levava sempre as pessoas a abrirem-se com ele. Mesmo os estranhos. Contavam-lhe coisas que no contariam a mais 
ningum porque sabiam que ele era de confiana. - Nova hesitao. - Quer saber a melhor recordao que tenho dele? - Paul arqueou ligeiramente as sobrancelhas. - 
Trata-se de uma frase que costumava dizer-me sempre, desde os meus tempos de criana. Por melhor ou pior que qualquer coisa me sasse, quer me sentisse triste ou 
alegre, o meu pai nunca deixava de dar-me um abrao e de dizer: "Tenho orgulho em ti." - Ficou calada por instantes. - No sei dizer o que h de especial nestas 
palavras,
     mas sempre me comoveram. Devo t-las ouvido um milho de vezes, mas de cada vez que as ouvia, tinha a certeza de que ele me amaria sempre, acontecesse o que 
acontecesse. O mais engraado  que, com o passar dos anos, a frase se tornou motivo de brincadeira entre ns. No entanto, nem isso evitava que quando eu me estava 
a preparar para o deixar, ele acabasse por dizer o mesmo, fazendo com que me sentisse toda derretida por dentro.
     Paul sorriu.
     - Parece-me um homem notvel.
     - E  - respondeu Adrienae. Endireitou*se na cadeira. - E por ele ser um homem notvel, vou fazer tudo para ele no ter de mudar de casa. Aquele  o melhor 
stio do mundo para ele estar. Est perto de mim, os cuidados so de excepcional qualidade e, ainda mais importante, o meu pai  tratado como uma pessoa, no apenas 
como um doente. Merece um lugar assim,  o mnimo que posso fazer por ele.
     - O seu pai tem a sorte de ter uma filha como voc a olhar por ele.
     - Eu tambm tenho sorte. - Olhava na direco da parede, mas os olhos pareciam no estar a focar nada em particular. Ento, abanou a cabea, apercebendo-se 
subitamente do que acabava de dizer. - Tem estado a ouvir-me falar sem descanso. Desculpe.
     - No h nada que desculpar. Ainda bem que desabafou.
     Com um ligeiro sorriso, Adrienne inclinou-se ligeiramente para diante.
     - Da vida de casado, de que  que sente mais falta?
     - Presumo que est a querer mudar de assunto.
     - Achei que era a sua altura de falar.
     - Desabafou tudo?
     - Mais ou menos. Agora que despejei o saco, chegou a sua vez.
     Paul fez um ar de resignao fingida e contemplou o tecto.
     - Ora bem, de que  que sinto a falta - comeou, juntando as mos. - Acho que  da certeza de saber que tenho algum  minha espera quando regressar do trabalho. 
No era habitual chegar a casa cedo, muitas vezes a Martha j estava na cama. Mas o conhecimento de que ela estava l dava  situao um ar de normalidade e de segurana, 
de as coisas serem como deviam ser. E voc?
     76
     77
     
     Adrienne pousou a chvena na mesa que estava entre as duas cadeiras.
     - As coisas habituais. Uma pessoa com quem falar, com quem partilhar as refeies, aqueles beijos rpidos da manh, antes de qualquer de ns ter lavado os dentes. 
Contudo, para ser franca, o problema so os midos,  a eles que o pai faz mais falta.  por causa deles que lamento j no ter o Jack em casa. Penso que as crianas 
pequenas precisam mais da me do que do pai mas, chegadas  adolescncia, precisam do pai. Especialmente as raparigas. No quero que a minha filha pense que os homens 
so uns estupores capazes de abandonar a prpria famlia, mas como  que vou meter-lhe tal coisa na cabea se foi isso que o pai dela nos fez?
     - No sei a resposta - respondeu Paul.
     Adrienne abanou a cabea.
     - Os homens pensam neste tipo de coisas?
     - Sim, os que so decentes. Como qualquer outra pessoa. - Quanto tempo  que esteve casado? - Trinta anos. E voc?
     - Dezoito.
     - S entre ns, seria de pensar que o problema estaria resolvido, no ?
     - Qual? A chave para ser feliz depois do rompimento? J deixei de pensar que haja soluo.
     - No h, acho que tem razo.
     Vindo do corredor, ouviram o som das badaladas do relgio do av da Jean. Quando o som parou, Paul massajou o pescoo contrado pelo esforo de conduo do 
carro. - Penso que estou pronto para ir deitar-me. Amanh, o meu dia comea cedo.
     - Eu sei. Estava justamente a pensar o mesmo.
     Mas no se levantaram de imediato. Em vez disso, mantiveram-se mais alguns minutos juntos, imersos no mesmo silncio que tinham partilhado na praia. De quando 
em vez, Paul lanava-lhe um olhar de lado, mas desviava os olhos antes de ela reparar.
     Com um suspiro, Adrienne levantou-se da cadeira e apontou para a chvena dele.
     - Posso levar a chvena para a cozinha. Vou para aqueles lados. Ele sorriu quando lha entregou.
     - Passei um sero agradvel.
     - Eu tambm.
     Momentos depois, antes de se voltar para comear a fechar a estalagem, Adrienne viu Paul dirigir-se para a escada.
     No quarto, depois de se ter libertado das roupas, abriu a mala para procurar um pijama. Ao faz-lo, captou a prpria imagem no espelho. Nada mal, embora, para 
ser honesta, tivesse de admitir que tinha a idade que parecia. Paul, pensou, tinha sido simptico ao dizer que o seu corpo no precisava de correces de qualquer 
gnero.
     Tinha passado muito tempo desde a ltima vez em que algum a fizera sentir-se atraente.
     Vestiu o pijama e saltou para a cama. Jean tinha uma pilha de revistas na mesa de cabeceira e esteve a passar os olhos pelos artigos, uns minutos antes de apagar 
a luz. Deitada no escuro, no conseguia esquecer-se do dia que acabara de passar. As conversas repetiam-se sem parar dentro da sua cabea; via a forma como a boca 
dele se arreganhava num sorriso travesso de cada vez que dizia algo que Paul considerava engraado. Andou durante uma hora s voltas, sem conseguir adormecer, cada 
vez mais frustrada e sem se aperceber de que num quarto do andar de cima, Paul Flanner estava exactamente na mesma situao.
     78
     79
     
     NOVE
     Apesar das venezianas fechadas e das cortinas corridas, que deveriam no deixar entrar a luz da manh, Paul acordou ao nascer do dia de sexta-feira e passou 
os dez minutos seguintes a esticar-se para atenuar as dores que sentia por todo o corpo.
     Abriu as venezianas para deixar entrar a luz da manh. Havia uma neblina espessa por cima do oceano, o cu estava da cor do chumbo. Cmulos de nuvens passavam 
apressados, rolando paralelos  linha de costa. A tempestade, calculou, deveria desabar sobre a zona ao cair da noite; mais provavelmente a meio da tarde.
     Sentou-se na beira da cama para vestir o equipamento de corrida, a que acrescentou um bluso. Tirou mais um par de pegas da gaveta da cmoda e enfiou-as nas 
mos. Depois, desceu a escada com cuidado e olhou para todos os lados. Adrienne ainda no estava levantada, o que lhe provocou uma certa desiluso por no a ver, 
antes de pensar que, afinal, no tinha nada com isso. Abriu a porta e instantes depois comeou a marchar pela areia, a aquecer para iniciar uma corrida mais regular.
     Do seu quarto, Adrienne ouviu-o fazer ranger os degraus de madeira ao descer a escada. Sentando-se na cama, afastou os cobertores e enfiou os ps nos chinelos, 
lamentando-se por no ter ao menos uma chvena de caf pronta para quando Paul acordasse. No tinha a certeza de que ele quisesse beber caf antes da corrida, mas 
no se perdia nada se tivesse feito a oferta.
     L fora, os msculos e articulaes de Paul comearam a descontrair-se, o que lhe permitiu aumentar a passada. Tinha um
     ritmo firme e.repousado, muito longe da sua velocidade aos vinte ou trinta anos.
     Para ele, a corrida nunca fora apenas um exerccio fsico. Tinha atingido um ponto em que correr j no tinha nada de difcil; oito quilmetros no pareciam 
exigir-lhe mais energia do que a leitura do jornal. Em vez disso, via aquilo como uma forma de meditao, como uma das poucas ocasies em que podia estar s.
     Estava uma manh maravilhosa para correr. Embora tivesse chovido durante a noite e ainda houvesse gotas de gua nos pra-brisas dos carros, o aguaceiro devia 
ter passado rapidamente pela zona, pois muitas das estradas j estavam secas. Pequenas nuvens de neblina brilhavam  luz da manh, movendo-se como fantasmas entre 
as casas. Gostaria de ter corrido ao longo da praia, uma oportunidade de que nem sempre dispunha, mas decidira aproveitar a corrida para descobrir onde ficava a 
casa de Robert Torrelson. Correu pela estrada, passou pelo centro da vila, voltou na primeira esquina, os olhos a registarem a paisagem.
     Na sua opinio, Rodanthe era exactamente o que parecia: uma velha aldeia de pescadores encavalitada  beira-mar, um lugar onde a vida moderna tinha entrado 
com lentido. As casas eram todas de madeira, e embora houvesse algumas que se destacavam pelo arranjo, com pequenos quintais bem tratados e pequenas vedaes de 
terra onde nasceriam flores logo que chegasse a Primavera, para qualquer lado que olhasse, eram bem evidentes as provas da dureza da vida na costa. At algumas das 
casas que no teriam mais de uma dzia de anos j apresentavam um aspecto decadente. As cercas e as caixas do correio estavam corrodas pelo mau tempo, a pintura 
a pelar, os telhados de chapa a mostrarem grandes manchas de ferrugem. Os quintais da frente das casas estavam pejados de objectos de uso comum nesta parte do mundo: 
botes a remos e motores velhos, redes de pesca usadas como decorao, cordas e correntes para manter os estranhos  distncia.
     Algumas das casas eram meras barracas, cujas paredes pareciam em equilbrio precrio, como se apenas estivessem  espera do prximo temporal forte para se deixarem 
derrubar. Em alguns casos, o alpendre da frente estava vergado e dava a impresso de
     80
     81
     
     que o dono da casa usara tudo o que tinha  mo para evitar que desabasse totalmente: blocos de beto ou pilhas de tijolos, ou barrotes que pareciam nascer 
do cho.
     Mas havia actividade neste lugar, mesmo de manh cedo, mesmo nas casas que pareciam abandonadas. Enquanto corria, viu fumo a sair das chamins e observou homens 
e mulheres que estavam a entaipar as janelas com chapas de contraplacado. O som das marteladas enchia o ar.
     Virou no quarteiro seguinte, verificou o nome da rua e continuou a correr. Minutos depois, virou para a rua onde vivia Robert Torrelson. Sabia que ele morava 
no nmero 34.
     Passou pelo nmero 18, depois pelo 20 e levantou a cabea para olhar para o fundo da rua. De olhar incrdulo, as pessoas interrompiam o trabalho para o verem 
passar a correr. Passou pela casa de Robert Torrelson momentos depois, fazendo o possvel para no se tornar notado quando a observou pelo canto do olho.
     A casa era semelhante  maioria das que havia naquela rua; no estava num estado de manuteno impecvel, mas tambm no era uma barraca. Bem vistas as coisas, 
ocupava uma posio intermdia, como se homem e natureza tivessem chegado a um impasse na sua batalha pelo domnio da casa. Era uma habitao de um s piso, com 
mais de cem anos de idade, com tecto de zinco; sem algerozes, a pintura branca tinha sido manchada de cinzento pela gua de mil temporais. No alpendre viam-se duas 
cadeiras de balouo desengonadas, inclinadas uma para a outra,  volta das janelas havia uma linha simples de luzes de Natal.
     Olhando na direco das traseiras da propriedade, via-se um pequeno anexo com as portas da frente abertas. L dentro havia duas bancadas cobertas de redes e 
canas de pesca, bas e ferramentas. Havia dois croques encostados de encontro  parede, podendo ainda ver-se um impermevel amarelo, pendurado num cabide, logo a 
seguir  porta. Da sombra do interior emergiu um homem que transportava um balde.
     O seu aparecimento apanhou Paul desprevenido e obrigou-o a voltar a cabea, antes de o homem reparar que ele estava a olhar para a casa. Ainda era demasiado 
cedo e tambm no queria fazer a visita com o fato de treino vestido. Por conseguinte, Paul levantou
     82
     o queixo para enfrentar a brisa, virou na esquina seguinte e tentou voltar ao ritmo de passada anterior.
     No foi tarefa fcil. Foi perseguido pela imagem do homem, sentindo-se mais pesado, cada passada mais difcil do que a anterior. Quando terminou, apesar do 
frio, tinha o rosto coberto de uma camada fina de transpirao.
     Deixou de correr a algumas dezenas de metros da estalagem, fazendo o resto do percurso a andar para arrefecer as pernas. Da estrada, viu que a luz da cozinha 
j estava acesa.
     Sorriu, por saber o que isso significava.
     Enquanto Paul estava ausente, os filhos de Adrienne tinham telefonado e passara uns minutos a falar com cada um deles, satisfeita por saber que estavam felizes 
na companhia do pai. Um pouco mais tarde,  hora da abertura, ligou para a casa de repouso.
     Embora o pai no estivesse em condies de atender o telefone, ela tinha arranjado as coisas de maneira a que Gail, uma das enfermeiras, respondesse por ele, 
o que aconteceu logo ao segundo toque.
     - Mesmo na hora! - exclamou Gail. - Estava precisamente a dizer ao seu pai que a chamada devia estar mesmo a chegar.
     - Como  que ele est hoje?
     - Um pouco cansado mas, tirando isso, est ptimo. Espere um momento enquanto lhe chego o telefone ao ouvido, est bem?
     Uns segundos depois, ao ouvir a respirao ofegante do pai, Adrienne fechou os olhos.
     - Ol, pap - comeou e, durante alguns minutos falou como se estivesse a visit-lo, como falaria se estivesse l, junto dele. Falou-lhe da estalagem e da praia, 
da tempestade e dos relmpagos e, mesmo sem mencionar o Paul, ficou a pensar se o pai conseguiria notar aquele tremor na sua voz, o mesmo que ela sentia quando mencionava 
o nome dele.
     83
     
     Paul caminhou para os degraus da porta da frente e mal entrou chegou-lhe ao nariz o cheiro do bacon frito, como que a dar-lhe as boas-vindas. Momentos depois, 
Adrienne passou pela porta de vaivem.
     Vestia calas de ganga e uma camisola azul-clara, que lhe acentuava a cor dos olhos. Vistos  luz da manh, pareciam quase turquesa, fazendo pensar nos cus 
cristalinos da Primavera.
     - Levantou-se cedo - saudou ela, a prender atrs da orelha uma mecha solta de cabelo.
     Achando aquele gesto estranhamente sensual, Paul limpou o suor da testa.
     - Pois foi, queria comear o que tenho a fazer durante o dia sem me preocupar com a corrida.
     - Correu tudo bem?
     - J tive dias melhores mas, de qualquer maneira, est feita. Transferiu o peso do corpo de um p para o outro. - A propsito, cheira muito bem aqui para estes 
lados.
     - Comecei a fazer o pequeno-almoo enquanto esteve fora disse apontando com a cabea para a mesa. - Quer comer j ou
     prefere esperar um pouco?
     - Se no se importa, prefiro tomar um duche antes de comer.
     - ptimo. De qualquer maneira, estava a pensar fazer papas de aveia, que levam vinte minutos a cozer. Como  que quer os ovos?
     - Mexidos?
     - Acho que consigo fazer isso - respondeu, a apreciar a franqueza do olhar dele e a tentar mant-la visvel por um instante mais. - Deixe-me ir tratar do bacon 
antes que se queime - acabou por dizer. - Vemo-nos dentro de minutos?
     - Claro.
     Depois de a ver seguir para a cozinha, Paul subiu a escada para o quarto, a abanar a cabea e a pensar que bem que ela lhe tinha parecido. Despiu-se, passou 
a camiseta por gua e pendurou-a por cima do varo da cortina, antes de abrir a torneira. Como Adrienne avisara, a gua quente levou algum tempo a aparecer.
     84
     Tomou duche, barbeou-se, vestiu umas Dockers e uma camisa,
     calou mocassins e desceu para se juntar a ela. Adrienne tinha
     posto a mesa na cozinha e estava a acomodar as duas ltimas
     travessas: uma com tostas e outra com fruta cortada aos pedaos.
     Quando Paul passou por ela, veio-lhe ao nariz um odor suave a
     jasmim, proveniente do champ que ela tinha utilizado de manh. -Espero que no se importe que volte a acompanh-lo disse ela.
     Paul afastou uma cadeira para ela se sentar.
     - De maneira nenhuma. Do facto, esperava que o fizesse. Faa
     favor - concluiu, fazendo o gesto de a convidar a sentar-se. Adrienne esperou que ele puxasse a cadeira para ela, ficando 
     espera at ele se sentar tambm. - Tentei surripiar um jornal disse -, mas a prateleira do supermercado j estava vazia quando
     l cheguei.
     - No me surpreende. Logo pela manh havia muitas pessoas
     fora de casa. Acho que est toda a gente a pensar como  que vai ser
     a tempestade de hoje.
     - O tempo no me parece pior do que ontem. - Diz isso porque no vive aqui. - Voc tambm no vive aqui.
     - No, mas j tive de suportar uma grande tempestade. Efecti
     vamente, j lhe contei o que se passou quando estava na universi
     dade e fomos a Wilmington...
     Adrienne soltou uma gargalhada.
     - E jurou que nunca tinha contado essa histria.
     - Agora, quebrado o gelo, acho que me  mais fcil cont-la.
      a minha nica histria de jeito. Todas as outras so maadoras. - Duvido. Pelo que me contou, estou a pensar que a sua vida
     foi tudo menos maadora.
     Sorriu, sem saber se aquilo era um elogio; satisfeito, mesmo assim. - O que  que Jean disse que tinha de ser feito hoje? Adrienne serviu-se de ovos mexidos 
e passou-lhe a travessa. -Bem, a moblia do alpendre tem de ser guardada no bar
     raco. As janelas tm de ser fechadas e os fechos interiores das
     venezianas tm de ser corridos. A seguir,  preciso colocar as pro
     teces contra tufes.  suposto que se encaixem numas calhas e h
     85
     
     uns ganchos para as manter no lugar; depois prendemo-las com ripas de madeira. As ripas de madeira devero estar empilhadas juntamente com as proteces contra 
tufes.
     - Espero que haja uma escada.
     - Tambm est debaixo da casa.
     - No me parece assim to difcil. No entanto, como disse ontem, no me importo de ajudar; ter  de ser para o fim da manh, depois de eu regressar.
     Adrienne olhou para ele.
     - Tem a certeza? Nada o obriga a fazer isso.
     - No tem importncia. De qualquer modo, no tenho mais nada planeado. E, para lhe ser franco, seria impossvel manter-me sentado dentro de casa, sabendo que 
voc estava l fora a fazer o trabalho todo. Mesmo sendo o hspede, acabaria por sentir-me culpado.
     - Obrigada.
     - No tem de qu.
     Acabaram de servir-se, encheram as chvenas de caf e comearam a comer. Paul ficou a v-la momentaneamente absorvida na tarefa de barrar uma tosta com manteiga. 
 luz cinzenta da manh, era bonita, ainda mais bonita do que lhe parecera no dia anterior.
     - Vai falar com aquela pessoa que mencionou ontem?
     Paul assentiu.
     - Aps o pequeno-almoo - respondeu.
     - No me parece que a ideia lhe agrade muito. - No sei como avaliar a situao.
     - Porqu?
     Aps uma ligeirssima hesitao, Paul falou-lhe de Jill e de Robert Torrelson: da operao, da autpsia e de tudo o que acontecera depois, incluindo o bilhete 
que tinha recebido pelo correio. Quando ele terminou, Adrienne pareceu analisar a situao.
     - E no faz ideia nenhuma daquilo que ele quer?
     - Presumo que tenha a ver com o processo.
     Adrienne no estava assim to segura disso, mas no disse nada. Em vez disso, pegou no bule do caf.
     - Bem, acontea o que acontecer, penso que est a agir correctamente. Tal como est a fazer em relao ao Mark.
     Paul ficou calado, mas tambm no tinha necessidade de dizer o que quer que fosse. O facto de ela ter compreendido era mais do que suficiente.
     Era tudo o que pretendia de momento e, embora a tivesse conhecido apenas na vspera, sentia que de certa forma ela j o conhecia melhor do que a maioria das 
pessoas.
     Ou, provavelmente, melhor do que ningum.
     86
     87
     
     DEZ
     Depois do pequeno-almoo, Paul entrou no carro e pescou as chaves do bolso do casaco. Adrienne acenou-lhe do alpendre, como a desejar-lhe boa sorte. Instantes 
depois, a olhar por cima do ombro, Paul comeou a recuar para percorrer a vereda e entrar na estrada.
     Em poucos minutos chegou  rua onde morava Torrelson; embora pudesse ter vindo a p, no fazia ideia da rapidez com que o tempo podia piorar e no queria ser 
apanhado pela chuva. Nem queria ficar encurralado em casa daquele homem se a reunio desse para o torto. Mesmo sem saber o que o esperava, tinha decidido contar-lhe 
tudo o que acontecera com a operao, mas no entraria em especulaes acerca da causa da morte de Jill Torrelson.
     Abrandou, arrumou de um lado da estrada e desligou o motor. Ficou sentado por momentos e depois saiu do carro para percorrer o caminho particular at  casa. 
O vizinho do lado estava em cima de uma escada a pregar uma placa de contraplacado numa janela. Olhou Paul l de cima, tentando descobrir quem seria. Paul ignorou-o, 
acercou-se da porta de Torrelson e bateu, recuando um passo para ficar com espao de manobra.
     Como ningum apareceu, tornou a bater, mas desta vez ficou  escuta de qualquer movimento no interior. Nada. Percorreu o alpendre. No viu ningum, embora as 
portas do anexo continuassem abertas. Ainda pensou em chamar alto, mas decidiu no o fazer. Tirou uma caneta e arrancou uma folha de um dos blocos com que atafulhara 
a bolsa de mdico.
     88
     Escreveu o nome e o endereo onde podia ser contactado, bem
     como uma mensagem curta a dizer que, se Robert ainda tivesse
     interesse em lhe falar, estaria na cidade e s partiria na manh de
     tera-feira. Dobrou a folha e levou-a at ao alpendre, metendo-a
     pela fresta da porta e tendo o cuidado de evitar que voasse. J
     estava de regresso ao carro, simultaneamente desgostoso e aliviado,
     quando ouviu uma voz atrs de si.
     - Deseja alguma coisa?
     Quando se virou, Paul no reconheceu o homem que estava de
     p junto da casa. Apesar de no se lembrar do specto de Torrelson
     - um rosto no meio de milhares - sabia que nunca tinha visto
     este homem. Era um jovem, de 30 anos, talvez um pouco mais,
     magro e de cabelo escuro ralo, vestido com uma camisa e calas de
     trabalho. Encarava Paul com o mesmo ar de desconfiana que ele j
     tinha notado no vizinho na altura da chegada.
     Paul pigarreou.
     - Sim - comeou. - Procuro Robert Torrelson.  aqui que
     ele mora?
             homem aquiesceu, sem mudar de expresso. - , ele vive aqui.  o meu pai. - Est em casa?
     - O senhor  do banco? Paul abanou a cabea.
     - No. Chamo-me Paul Flanner.
             homem levou algum tempo a recordar-se do nome. Semicer
     rou os olhos.
     - O mdico? Paul assentiu.
     - O seu pai escreveu-me uma carta a dizer que queria falar
     comigo.
     - Para qu? - No sei.
     - Ele no me falou de carta nenhuma.
      medida que falava, os msculos do queixo comeavam a ficar
     tensos.
     - Pode dizer-lhe que estou aqui?
             homem enfiou o polegar no cinto.
     89
     
     - No est em casa.
     Disse aquilo ao mesmo tempo que relanceava o olhar na direco da casa, levando Paul a duvidar de que ele estivesse a dizer a verdade.
     - Pode ao menos dizer-lhe que eu passei por c? Deixei-lhe um bilhete numa frincha da porta a dizer onde me pode encontrar. - Ele no quer falar consigo.
     Paul olhou para baixo, acabando por levantar os olhos de novo.
     - Ele  que deve decidir isso, no acha?
     - Quem diabo  que voc se julga? Pensa que pode vir aqui para tentar safar-se do que fez, com uma simples conversa? Como se tudo no passasse de um erro ou 
coisa parecida? - Paul ficou calado. Sentindo a hesitao do mdico, o homem deu um passo na direco dele e continuou, levantando a voz. - Ponha-se a andar daqui 
para fora! Nunca mais. ponha os ps aqui e o meu pai tambm no o quer ver!
     - ptimo... muito bem...
     O homem pegou numa p e Paul levantou os braos, recuando. - Eu vou...
     Paul rodou sobre os calcanhares e dirigiu-se para o carro.
     - E no volte - berrou o homem. - Acha que ainda no nos fez mal que chegue? A minha me morreu por sua causa!
     Paul esquivou-se da torrente de palavras, acusou o toque e entrou no carro. Ligou o motor e arrancou, sem olhar para trs.
     No viu que o vizinho tinha descido da escada para falar com o homem mais novo; no viu que este tinha atirado com a p para longe. No reparou que, dentro 
de casa, algum tinha arredado a cortina da sala e voltara a fech-la.
     Nem viu que a porta da frente se abriu, nem a mo enrugada que apanhou o bilhete cado no alpendre.
     Minutos depois, Adrienne estava a ouvir o relato que Paul lhe fazia dos acontecimentos. Encontravam-se na cozinha e Paul falava encostado  bancada, de braos 
cruzados e o olhar perdido num ponto para l da janela. Tinha uma expresso vazia, ausente; pare
     cia muito mais cansado do que no incio da manh. Quando terminou, a cara de Adrienne mostrava uma mistura de simpatia e de preocupao.
     - Tentou, pelo menos.
     - Com excelentes resultados, no foi?
     - Talvez ele no soubesse nada acerca da carta do pai.
     Paul abanou a cabea.
     - No se trata apenas disso. Tudo vai entroncar na razo que me levou a vir aqui. Pretendi saber se podia encontrar uma forma de resolver a questo ou, pelo 
menos, torn-la +compreensvel, mas no vou ter essa oportunidade.
     - Mas a culpa no  sua.
     - Ento, por que  me sinto culpado?
     No silncio que se seguiu, Adrienne at conseguiu ouvir os estalidos do aquecimento.
     - Porque se preocupa. Porque mudou.
     - Nada mudou. Continuam a pensar que eu a matei - disse, respirando fundo. - Consegue imaginar o que se sente quando algum pensa uma tal coisa de ns?
     - No - admitiu ela. - No consigo. Nunca tive de lidar com uma situao dessas.
     Paul aquiesceu; parecia exausto.
     Adrienne ficou na expectativa, a ver se a expresso dele mudava e quando no mudou, deu consigo a caminhar na direco dele e a pegar-lhe na mo. Uma mo hirta, 
que se descontraiu quando os dedos de Paul se entrecruzaram com os dela.
     - Por muito que lhe custe aceitar isso, seja o que for que algum lhe possa dizer - comeou Adrienne, cautelosamente -, tem de perceber que mesmo que falasse 
com o pai desse rapaz esta manh, o mais provvel era que no conseguisse modificar a opinio do filho. O homem est a sofrer e para ele  mais fcil culpar algum, 
como o mdico, do que aceitar o facto de o tempo de vida da me ter chegado ao fim. E, qualquer que seja a sua opinio sobre a forma como o encontro decorreu, ir 
l foi uma deciso muito importante.
     - O que  que quer dizer com isso?
     - Ouviu o que o filho tinha a dizer. Mesmo que ele esteja errado, deu-lhe a oportunidade de exprimir o que sente. Permitiu
     90
     91
     
     que ele tirasse aquele peso do peito e, afinal, provavelmente era a nica coisa que o pai dele queria. Como sabe que o caso no vai chegar a julgamento, quis 
que voc ouvisse pessoalmente a sua verso da histria. Para saber o que custa.
     Paul riu-se sem vontade.
     - Isso faz-me sentir muito melhor.
     Adrienne apertou-lhe a mo.
     - O que  que esperava? Que ouvissem o que tinha para lhes dizer e que aceitassem tudo passados uns minutos? Depois de terem contratado um advogado e prosseguido 
com o processo, mesmo sabendo que no tm hipteses de ganhar? Depois de ouvirem o que os outros mdicos todos tinham para dizer? Queriam que l fosse para ouvir, 
em pessoa, aquilo que eles tinham a dizer. No era o contrrio, no queriam ouvir mais explicaes. - Paul no disse palavra; porm, no fundo, sabia que ela tinha 
razo. Porqu, ento, no tinha percebido antes? - Sei que no lhe foi fcil ouvir - continuou Adrienne -, sei que eles esto equivocados e que no  justo que lhe 
atribuam as culpas. Contudo, hoje deu-lhes algo importante e, mais do que isso, fez aquilo que no era obrigado a fazer. Pode orgulhar-se do seu gesto.
     - Nada do que aconteceu foi uma surpresa para si, pois no?
     - Nada, efectivamente.
     -Esta manh j sabia o que ia acontecer? Quando lhe falei acerca deles pela primeira vez?
     - No tinha a certeza, mas pensei que a cena pudesse desenrolar-se dessa forma.
     Um breve sorriso perpassou pelo rosto dele. - Voc  nica, sabia?
     - E isso  bom ou  mau?
     Paul fez mais presso na mo dela, a pensar que sentia prazer ao faz-lo. Parecia-lhe um gesto natural, uma coisa que tivesse passado anos a fazer.
     -  uma grande qualidade - afirmou.
     Voltou a cara para ela, a sorrir com simpatia e, de sbito, Adrienne apercebeu-se de que ele estava a pensar beij-la. Por muito que ela o desejasse, o seu 
lado racional recordou-lhe abruptamente que era sexta-feira. Tinham-se conhecido no dia anterior e
     ele no- tardava a ir-se embora. E ela tambm. Alm do mais, no era a verdadeira Adrienne que estava ali, ou era? Esta no era a verdadeira Adrienne, me e 
filha cheia de preocupaes, ou a esposa que tinha sido trocada por outra mulher, ou a senhora que catalogava livros na biblioteca. Neste fim-de-semana era algum 
diferente, algum que mal conhecia. O tempo passado na estalagem tinha parecido um sonho e, por muito agradveis que os sonhos sejam, so apenas sonhos e nada mais.
     Deu um pequeno passo atrs. Vislumbrou o ar de desapontamento quando lhe largou a mo, que desapareceu logo que ele voltou a cabea.
     Ela sorriu, a tentar no ser trada pela voz.
     - Continua disposto a ajudar-me a preparar a casa? Enquanto o tempo o permite?
     Paul acenou que sim.
     - Claro. D-me uns minutos para mudar de roupa.
     -Tem tempo. De qualquer maneira, ainda tenho de dar um salto  loja. Esqueci-me de comprar gelo e uma geleira, para poder manter alguma comida fresca no caso 
de faltar a electricidade.
     - Est bem.
     Adrienne fez uma pausa.
     - Fica bem?
     - Fico ptimo.
     Ficou mais um pouco, como a dizer-lhe que acreditava nele, e saiu. No havia dvidas, pensou, de que agira correctamente. Fizera bem em se afastar dele, largar-lhe 
a mo fora uma deciso acertada.
     No entanto, ao sair por aquela porta, no conseguia deixar de sentir que tinha voltado as costas  possibilidade de obter aquela dose de felicidade cuja falta 
vinha a sentir desde h muitos anos.
     Paul estava no andar de cima quando ouviu o carro de Adrienne arrancar. Voltando-se para a janela, ficou a olhar o rebentamento das ondas, ao mesmo tempo que 
tentava compreender o que tinha acabado de acontecer. Uns minutos antes, quando olhara para
     92
     93
     
     Adrienne, sentira um frmito muito especial, que desapareceu com a mesma rapidez com que tinha aparecido; a expresso que vira na cara dela explicou-lhe porqu.
     Compreendia as reservas de Adrienne. Afinal, todos viviam num mundo definido por certas normas, que nem sempre admitem a espontaneidade, ou as tentativas repentinas 
de vivermos o momento que passa. Sabia que eram essas mesmas normas que permitiam a prevalncia de uma certa ordem na vida de cada pessoa, apesar de, nos ltimos 
meses, as suas aces terem representado tentativas de desafiar os limites, de rejeitar a prpria ordem que tinha adoptado durante tanto tempo.
     No era justo esperar que ela agisse da mesma maneira. Estava numa posio diferente; tinha responsabilidades e, como tornara bem claro na noite anterior, essas 
responsabilidades requeriam estabilidade e ausncia de surpresas. Ele prprio tambm tinha sido assim e embora agora estivesse em condies de viver de acordo com 
normas diferentes, a Adrienne, percebia-o agora, no estava.
     No entanto, algo tinha mudado no curto espao de tempo em que ele permanecera ali.
     No sabia exactamente o momento em que tinha acontecido. Poderia ter sido no dia anterior, quando caminhavam pela praia, ou da primeira vez em que ela lhe falou 
do pai, ou at naquela manh quando tinham tomado o pequeno-almoo juntos,  luz fraca da lmpada da cozinha. Ou talvez tivesse acontecido quando deu por ele a segurar-lhe 
na mo, no desejando mais nada que no fosse que os seus lbios aflorassem os dela.
     Tambm no interessava. S tinha a certeza de comear a estar apaixonado por uma mulher chamada Adrienne, que se tinha encarregado de tomar conta da estalagem 
de uma amiga, numa pequena cidade da Carolina do Norte.
     ONZE
     Robert Torrelson estava na sala, sentado  sua velha secretria de tampo de correr, a ouvir o filho a entaipar as janelas das traseiras da casa. Tinha na mo 
o bilhete deixado por Paul Flanner, que dobrava e desdobrava com ar ausente, ainda admirado com a vinda do mdico.
     No esperara que viesse. Apesar de ter escrito a carta, sempre julgara que Paul Flanner o deixaria sem resposta. Flanner era um mdico proeminente da cidade, 
representado por advogados que usavam gravatas de marca e cintos da moda, nenhum dos quais, passado um ano, revelara qualquer considerao em relao a ele ou  
sua famlia. Os ricaos da cidade eram assim mesmo; quanto a si, sentia-se feliz por nunca ter sido obrigado a viver junto de pessoas que ganham a vida a prejudicar 
os outros e se sentem mal se a temperatura do local de trabalho no for exactamente de 22C. Tambm no gostava de lidar com pessoas que, por terem melhores habilitaes, 
serem mais ricas ou donas de uma casa maior, se julgavam superiores a outras. Quando o tinha conhecido, aps a operao, ficara com a ideia de que Paul Flanner era 
um indivduo desse gnero. Mostrou-se rgido e distante; embora tivesse dado explicaes, a forma seca como proferiu as palavras tinha deixado Robert com a sensao 
de que aquele homem no perderia um minuto de sono por causa do que tinha acontecido.
     O que no era justo.
     A vida de Robert tinha sido pautada por valores diferentes, valores que tinham sido honrados pelo av e pelo bisav e, antes, pelos avs dos avs. Sabia que 
a sua famlia se estabelecera nos
     94
     95
     
     vuter isanxs navia quase duzentos anos e conhecia a respectiva genealogia. Os Torrelson tinham pescado nas guas de Pamlico Sound gerao aps gerao, desde 
os tempos em o que peixe era to abundante que bastava um lanamento da rede para o pescador conseguir encher o barco. No entanto, a situao tinha mudado. Agora 
havia as quotas, os regulamentos e as grandes empresas, toda a gente em busca de peixe, que cada vez aparecia em menor quantidade. Nos tempos actuais, Robert considerava-se 
feliz se, em metade das vezes em que se metia no barco, conseguisse pescar o suficiente para pagar o combustvel necessrio.
     Robert Torrelson tinha 67 anos, mas parecia dez anos mais velho. O rosto mostrava as marcas das intempries, o corpo estava lentamente a perder a batalha contra 
o tempo. Tinha uma grande cicatriz que ia do olho esquerdo at  orelha. A artrite provocava-lhe dores nas mos, o dedo anelar da mo direita faltava-lhe desde o 
dia em que ficara preso no guincho que puxava a rede.
     Mas Jill no se importava com nenhuma dessas coisas. E agora, Jill estava morta.
     Havia uma fotografia da mulher em cima da secretria e Robert continuava a olhar para ela sempre que se encontrava sozinho na sala. Tinha saudades de tudo o 
que lhe dizia respeito; sentia a falta das mos da mulher, que lhe esfregavam os ombros quando chegava a casa nas tardes frias, sentia falta das ocasies em que 
ficavam juntos no alpendre das traseiras, a ouvir msica no rdio, sentia a falta do cheiro do peito da mulher depois de ela o empoar, um odor simples, a lavado, 
fresco como o de um recm-nascido.
     Paul Flanner tinha-lhe roubado tudo. Sabia que Jill ainda estaria ali a fazer-lhe companhia, se no tivesse ido para o hospital naquele dia.
     O filho tivera uma oportunidade. Agora, chegara a sua vez de agir.
     Adrienne arrumou o carro no parque de gravilha do supermercado, aps a curta viagem desde a estalagem, deixando escapar um suspiro de alvio ao ver que o estabelecimento 
ainda estava aberto.
     Havia inaii-trs carros arrumados ao acaso, cada um revestido de uma fina camada de sal.  porta, estavam dois homens idosos, com bons de basebol, a fumar 
e a beberem caf. Ficaram a observar Adrienne a sair do carro e calaram-se, inclinando a cabea num cumprimento quando ela passou por eles a caminho da loja.
     O supermercado era um estabelecimento tpico das zonas rurais; um soalho de madeira j gasto, ventoinhas suspensas do tecto, prateleiras com milhares de artigos 
apertados uns nos outros. Perto da caixa registadora havia uma pequena barrica com picles de pepino para venda; a seguir, ouga com amendoins torrados. No fundo, 
via-se um grelhador de pequenas dimenses, que vendia hambrgueres acabados de fazer e sanduches de peixe; embora no se visse ningum atrs do balco, o odor dos 
fritos enchia o ar.
     A mquina do gelo estava no canto mais afastado da entrada, ao lado das geladeiras com garrafas de cervejas e refrigerantes. Foi para l que Adrienne se dirigiu. 
Ao pegar no puxador para abrir a geladeira deu de cara com a sua imagem reflectida no brilho da porta. Parou um instante, como se estivesse a ver-se com olhos diferentes.
     Quando tempo teria passado, perguntou a si mesma, desde a ltima vez em que algum a achara atraente? Ou que algum acabado de conhecer a tentara beijar? Se 
as perguntas lhe tivessem sido feitas antes de vir tomar conta da estalagem, teria respondido que nada disso acontecera desde o dia em que Jack tinha sado de casa. 
O que no era exactamente verdade, pois no? De qualquer modo, a situao agora era diferente. Jack tinha sido o seu marido, no era nenhum estranho e, contando 
os dois anos que durara o namoro, tinham passado quase vinte e cinco anos desde a ltima vez que passara por uma situao semelhante.
      certo que, se Jack no a tivesse deixado, viveria perfeitamente, sem pensar duas vezes no assunto; contudo, aqui e agora, considerava que tal j no era possvel. 
Tinha passado mais de metade da sua vida sem despertar o interesse de um homem atraente e, por muito que quisesse convencer-se de que as razes para lhes voltar 
as costas tinham sido produto do bom senso, tambm no podia deixar de pensar que uma falta de prtica de vinte e trs anos no deixava de ter a sua importncia.
     96
     97
     
     No podia negar o seu interesse pelo Paul. No s por ele ser bonito e interessante, ou at fascinante  sua maneira. No se tratava apenas do facto de ele 
a ter achado desejvel. No, o que achava mais interessante era o desejo dele de mudar, de ser uma pessoa melhor do que fora at ento. Tinha conhecido pessoas como 
ele, pois era frequente que mdicos e advogados fossem viciados no trabalho, mas ainda no tinha encontrado ningum que no s tomara a deciso de alterar as normas 
que governavam a sua vida, como tambm o fizera de uma forma que deixaria aterrorizada a maioria das pessoas.
     Havia, sem sombra de dvida, algo de nobre em tudo aquilo. Ele queria remediar os defeitos que reconhecia em si prprio, queria construir uma relao com o 
filho de que estava afastado, tinha vindo quela terra porque um estranho, que lhe exigia uma reparao, lhe escreveu um bilhete a pedir que viesse.
     Que tipos de pessoas  que fazem coisas destas? Que tipo de fora  preciso possuir? Ou quanta coragem? Mais do que a que tinha, pensou. Mais do que a de qualquer 
pessoa das suas relaes; alm de que, por mais que desejasse neg-lo, estava-lhe grata por ele a ter achado interessante.
     Enquanto reflectia nestas questes, pegou nos dois ltimos sacos de gelo e numa geladeira, dirigindo de seguida para a caixa. Depois de pagar, saiu e caminhou 
para o carro. Quando saiu, um dos idosos ainda estava sentado no alpendre e cumprimentou-o ao passar; a expresso de Adrienne era a de algum que, num mesmo dia, 
tivesse assistido a um casamento e a um funeral.
     Enquanto ela esteve ausente, o cu tinha-se tornado mais escuro e o vento dificultou-lhe a sada do carro. O vento tinha comeado a uivar  medida que rodopiava 
 volta da estalagem, um som fantasmagrico, como de uma flauta espectral que tocava uma s nota. As nuvens corriam e juntavam-se, mudando de forma ao passarem. 
O oceano era um campo de pontos brancos, as ondas batiam com fora, tendo j ultrapassado as marcas da mar alta do dia anterior.
     Quando:^va a pegar nos sacos de gelo, viu Paul aparecer de detrs do porto.
     - No me diga que comeou sem mim? - gritou.
     - No, nada disso. S estive a assegurar-me de que temos tudo o que  necessrio.
     Apontou para os sacos.
     - Precisa de ajuda?
     Adrienne negou com a cabea.
     -j agarrei tudo. No  pesado.
     Dirigiu-se para a porta. - Mas vou comear pelo interior. Importa-se de que entre no seu quarto para fechar as venezianas?
     - No, avance. No me importo nada.
     Depois de entrar, instalou a geleira perto do frigorfico, abriu os sacos do gelo com a faca de cortar a carne e despejou-os na geleira. Pegou num pedao de 
queijo, na fruta que tinha ficado do pequeno-almoo e no resto do frango da noite anterior, empilhando tudo em cima do gelo, a pensar que, no sendo uma refeio 
para apreciadores de boa mesa, serviria perfeitamente se no houvesse mais nada disponvel. E vendo que ainda havia espao, conseguiu l meter uma das duas garrafas 
de vinho, sentindo um frmito proibido com a ideia de mais tarde a partilhar com o Paul.
     A tentar afastar a ideia da cabea, passou os minutos seguintes a assegurar-se de que todas as janelas estavam fechadas, a prender as persianas do piso trreo 
pela parte de dentro. Subiu a escada, comeou por preparar os quartos que estavam vagos, deixando para o fim o quarto onde ele tinha dormido.
     Abriu a porta e entrou, reparando que Paul tinha feito a cama. Os sacos de viagem estavam dobrados junto da cmoda; as roupas que vestira pela manh j tinham 
sido arrumadas, os mocassins estavam no cho, junto  parede, com as biqueiras viradas para fora. Os seus filhos, pensou para si mesma, teriam muito que aprender 
com aquele homem acerca das vantagens da manuteno dos respectivos quartos bem arrumados.
     Fechou uma pequena janela da casa de banho e, ao faz-lo, espiou o creme e o pincel da barba colocados junto da mquina de barbear. Tudo junto da bacia do lavatrio, 
ao lado de um frasco de loo para depois da barba. Mesmo sem querer, veio-lhe  mente
     98
     99
     
     a imagem dele naquela manh, de p em frente do lavatrio; e ao imagin-lo ali, o instinto dizia-lhe que Paul desejara poder t-la ali, a seu lado.
     Abanou a cabea, sentindo-se como uma adolescente a espreitar para o quarto dos pais, e dirigiu-se para a janela ao lado da cama. Enquanto estava a fech-la, 
viu Paul transportar uma das cadeiras de balouo do alpendre para a guardar debaixo da casa.
     Mexia-se como se fosse vinte anos mais novo. Jack no era assim. Com a passagem dos anos e devido aos muitos coquetis, o ex-marido ficara mais grosso na parte 
mdia do corpo e a barriga entrava em trepidao logo que ele tentava qualquer tipo de actividade fsica.
     Mas Paul era diferente. Paul, tanto quanto ela sabia, era diferente de Jack em todos os aspectos; e foi ali, no quarto dele, no primeiro andar, que Adrienne 
notou pela primeira vez aquele sentimento de antecipao ansiosa, uma sensao semelhante  que o jogador deve sentir quando espera ter sorte no lanamento seguinte 
dos dados.
     Paul encontrava-se debaixo da casa, a preparar tudo.
     As proteces contra tufes eram de chapa ondulada de alumnio, de 0,75 m de largo por 1,80 m de comprido, e cada uma tinha uma marca permanente que indicava 
a janela da casa que teria de proteger. Paul comeou a tir-las da pilha e a p-las de lado, juntando-as por grupos, sempre a esboar mentalmente tudo o que tinha 
de fazer.
     Estava a acabar quando Adrienne desceu. A trovoada ainda estava longe, mas os troves pareciam ribombar logo acima do mar. Notou que a temperatura tinha comeado 
a descer.
     - Como  que isso vai? - perguntou. Aquele tom de voz, pensou, no parecia o seu, como se as palavras tivessem sido ditas por outra mulher.
     -  mais fcil do que tinha pensado - respondeu ele. - S tenho de procurar a chapa reservada a cada uma das janelas, enfi-la nas calhas e colocar estes grampos.
     - E quanto s ripas de madeira para as manter no lugar?
     - Tambm no  nada difcil. Os encaixes j l esto, de modo que s tenho de colocar as ripas nos respectivos suportes e pregar dois pregos em cada uma. Como 
a Jean disse,  trabalho para uma pessoa s.
     - Pensa que ainda dispomos de muito tempo?
     - Uma hora, talvez. Se preferir, pode esperar l dentro.
     - H alguma coisa que eu possa fazer?
     - Acho que no. Mesmo assim, se lhe agradar, pode fazer-me companhia.
     Adrienne sorriu, apreciando o tom convidativo da voz dele.
     - Acaba de arranjar uma companhia.
     Durante cerca de uma hora, Paul passou de uma janela a outra, colocando as proteces no seu lugar, com ela a seu lado. Enquanto trabalhava, sentia que Adrienne 
no tirava os olhos dele, fazendo-o sentir-se to desajeitado como se tinha sentido pela manh quando ela lhe soltara a mo.
     Dentro de minutos comeou a cair uma chuva mida, que foi crescendo de intensidade. Adrienne deslocou-se para mais perto da casa para no se molhar, mas descobriu 
que no lhe servia de muito por causa dos redemoinhos do vento. Paul no se apressou, mas tambm no abrandou o ritmo; a chuva e o vento pareciam no o afectar.
     Tapava uma janela e passava para a seguinte. Encaixar as placas, colocar os ganchos, mudar a escada. Quando as janelas ficaram prontas e Paul comeou a pregar 
as ripas, os relmpagos j estavam sobre a praia e chovia copiosamente. E Paul continuava a trabalhar. Aplicava quatro marteladas em cada prego, com regularidade, 
como se tivesse passado a vida a trabalhar em carpintaria.
     Conversavam, apesar da chuva; Adrienne reparou que ele mantinha uma conversa ligeira, no dizendo nada que pudesse ter segundas interpretaes. Falou-lhe de 
algumas das reparaes que ele e o pai costumavam fazer na herdade, referindo de passagem que talvez viesse a ter de fazer o mesmo no Equador, que era bom sentir 
novamente o gosto por aquele gnero de coisas.
     Ao ouvi-lo falar disto e daquilo, Adrienne percebia que Paul estava a dar-lhe o espao de que julgava que ela precisava, que
     100
     101
     
     julgava que ela pretendia. Porm, ao observ-lo, descobriu subitamente que manter as distncias era uma coisa com que deixara de preocupar-se.
     Tudo nele a fazia aspirar a qualquer coisa que nunca tinha conhecido: a maneira como ele tornava fcil tudo o que fazia, o volume das ancas e das pernas que 
sobressaam das calas de ganga quando subia a escada, aqueles olhos que reflectiam sempre o que ele estava a pensar e a sentir. De p, a aguentar aquele dilvio, 
sentiu a atraco da pessoa que ele era e apercebeu-se da pessoa que ela prpria queria ser.
     Quando acabou, Paul tinha a camisola e o bluso encharcados e estava lvido por causa do frio. Depois de arrumar a escada e as ferramentas por debaixo da casa, 
juntou-se a Adrienne, no alpendre. Ela tinha passado a mo pelo cabelo, afastando-o do rosto. As ondas suaves haviam desaparecido, o que tambm acontecera a qualquer 
vestgio de maquilhagem. No seu lugar ficara uma beleza natural e, a despeito do casaco grosso que ela vestia, Paul conseguia antever o corpo feminino e quente 
que estava por baixo do _tecido.
     Foi ento, ainda eles estavam protegidos pelo telhado do alpendre, que a . tempestade irrompeu com toda a sua fria. Um raio desceu aos ziguezagues, produzindo 
um risco longo que uniu cu e mar, o trovo fez um estrondo que parecia provocado pelo choque de dois carros na estrada. O vento soprou forte, dobrando rvores e 
ramos numa nica direco. A chuva vinha de todas as direces, como se tentasse desafiar as leis da gravidade.
     Deixaram-se ficar uns momentos a observar, sabendo que um minuto mais  chuva no faria qualquer diferena. At que, finalmente, resistindo ao desejo de verem 
o que poderia seguir-se, rodaram sobre os calcanhares e, sem dizerem nada, meteram-se dentro de casa.
     DOZE
     Molhados e transidos de frio, cada um foi para o seu quarto. Paul libertou-se da roupa e abriu a torneira, esperando at ver o vapor de gua aparecer por detrs 
da cortina para saltar para dentro da banheira. Passaram alguns minutos at que conseguisse sentir-se quente e, embora se demorasse mais tempo do que era normal 
no duche e se vestisse com vagar, Adrienne ainda no tinha reaparecido quando ele desceu a escada.
     Com as janelas entaipadas, a casa estava escura e Paul acendeu a luz da sala, antes de se dirigir  cozinha  procura de uma chvena de caf. A chuva martelava 
furiosamente as placas de proteco contra tufes, fazendo vibrar a prpria casa. O trovo ribombava, perto e longe simultaneamente, um som constante como o de uma 
estao movimentada de caminho-de-ferro. Paul foi para junto da lareira, pois, mesmo com a luz ligada, as janelas escurecidas davam  sala um ar nocturno.
     Abriu o registo de tiragem e colocou trs cavacos, pondo-os de forma a permitir que o ar circulasse entre eles, e juntou-lhes algumas aparas. Procurou a caixa 
de fsforos e encontrou-a em cima da cornija da lareira. O cheiro a enxofre encheu o ar quando acendeu o primeiro fsforo.
     As aparas estavam secas e acenderam com facilidade; logo de seguida, Paul ouviu um som parecido com um amarrotar de papel, sinal de que os cavacos estavam a 
comear a arder. Dentro de minutos a fogueira comeou a libertar calor e Paul aproximou mais a cadeira de balouo, esticando os ps na direco do lume.
     102
     103
     
     Sentia-se confortvel, pensou, mas no totalmente. Levantando-se da cadeira, atravessou a sala e apagou a luz. Sorriu. Melhor, pensou. Muito melhor.
     * * *
     Fechada no quarto, Adrienne procurava ganhar tempo. Depois de terem voltado a entrar em casa, resolvera seguir o conselho da Jean e comeou a encher a banheira. 
Mesmo depois de ter aberto a torneira e saltado para dentro da banheira, continuou a ouvir correr gua pelos canos, sinal de que, no andar de cima, Paul continuava 
debaixo do chuveiro. Havia algo de sensual naquela constatao e sentiu-se percorrida por uma sensao agradvel.
     Dois dias antes, nem imaginava que lhe pudesse acontecer uma coisa daquelas. Nem conseguia imaginar-se a alimentar sentimentos daqueles acerca de quem quer 
que fosse, muito menos acerca de algum que tinha acabado de conhecer. A sua vida no permitia aquele tipo de fantasias, pelo menos naquela altura. Era fcil pr 
as culpas nos midos, ou dizer a si mesma que as responsabilidades familiares no lhe permitiam aqueles devaneios, mas essa era apenas uma parte da verdade. A outra 
parte tinha mais a ver com a pessoa em que ela se tornara aps o divrcio.
     Sim, sentira-se trada pelo Jack e detestara-o; qualquer pessoa podia perceber isso. Porm, o facto de ser preterida a favor de outra tinha outras implicaes 
que, por muito que tentasse esquecer, nem sempre conseguia pr para trs das costas. Jack tinha-a rejeitado, tinha rejeitado a vida que haviam passado juntos, um 
golpe arrasador para ela, no s como esposa e me mas tambm como mulher. Mesmo que, segundo afirmara, apaixonar-se por Linda no fosse parte de nenhum plano e 
tivesse acontecido por acaso, no podia admitir-se que ele se tivesse limitado a cavalgar a onda sem tomar qualquer deciso consciente durante todo o processo. No 
pde ter deixado de pensar no que estava a fazer, teve de ter em conta todas as possibilidades, desde o momento em que comeou a passar tempo na companhia da Linda. 
Por muito que ele tentasse minimizar o que aconteceu, a rejeio equivaleu a dizer que
     Adrienne nem sequer era merecedora do tempo e esforo necessrios para corrigir qualquer anomalia existente na sua vida conjugal.
     Como  que deveria ter reagido a uma rejeio total como aquela? Para quem estava de fora, era fcil dizer que a culpa no fora dela, que Jack estava a passar 
pela crise da meia-idade; mas a situao tinha de deixar marcas na pessoa que pensava que era. Especialmente como mulher. Era difcil sentir-se sensual sem se sentir 
atraente, pelo que os trs anos seguintes, em que no teve qualquer namoro, ainda concorreram mais para agudizar a sua sensao de incapacidade.        k
     E como  que lidara com esse sentimento? Tinha dedicado a vida aos filhos, ao pai,  casa, ao emprego, s facturas a pagar. Consciente ou inconscientemente, 
tinha posto de lado todas as actividades que lhe pudessem fornecer oportunidades de pensar em si prpria. Acabaram as conversas telefnicas calmantes com as amigas, 
os passeios e a sauna, at deixou de cuidar do jardim. Tudo o que fazia tinha uma finalidade, e embora pensasse que assim mantinha a sua vida em ordem, s agora 
percebia o erro que tinha cometido.
     Afinal, no deu resultado. Mantinha-se activa desde que acordava at voltar a deitar-se e, como negando a si mesma qualquer hiptese de recompensa, tambm no 
tinha objectivos. A rotina diria no passava de uma sucesso de tarefas, em nmero suficiente para deixar qualquer pessoa esgotada. Ao desistir das pequenas coisas 
que tornam a vida desejvel, tudo o que conseguira, percebia-o agora, subitamente, fora esquecer-se da sua prpria pessoa.
     Suspeitava de que Paul j tinha percebido como ela era. E, de certa maneira, o tempo que passara junto dele tinha permitido que tambm ela percebesse o mesmo.
     Porm, este fim-de-semana no iria servir apenas para Adrienne reconhecer os erros que havia cometido no passado. Teria reflexos no futuro e na sua maneira 
de viver a partir daquele momento. O passado estava morto; no podia fazer nada para o remediar, mas o futuro estava  sua merc e ela no queria passar o resto 
da vida a alimentar sentimentos como os que tinha aguentado durante os ltimos trs anos.
     Depilou as pernas e deixou-se ficar de molho durante mais alguns minutos, o tempo suficiente para a espuma se desvanecer e
     104
     105
     
     a gua comear a arrefecer. Limpou-se e, sabendo que Jean no se importaria, pegou no frasco de loo da amiga. Aplicou algum lquido nas pernas e na barriga, 
encantada com a forma como a pele parecia voltar  vida.
     Com a toalha enrolada  sua volta, dirigiu-se  mala de viagem. A fora do hbito levou-a a pegar numa camisola e numas calas de ganga mas, depois de vestida, 
ps esta roupa de lado. "Se quero levar a srio a forma como vou viver", pensou para si prpria, "o melhor  comear desde j."
     No tinha trazido muito que vestir e muito menos roupa que se pudesse considerar elegante, mas trouxera umas calas pretas e a blusa branca que Amanda lhe oferecera 
pelo Natal. Tinha trazido as duas peas com a remota esperana de que poderia sair uma vez  noite e, mesmo que hoje no fosse a qualquer lado, pareceu-lhe que tinha 
uma excelente oportunidade de as usar.
     Secou e ondulou o cabelo com o secador. Depois a maquilhagem: mscara e um pouco de cor, o batom comprado no Belk's uns meses antes, mas raramente usado. Inclinando-se 
para o espelho, acrescentou um pouco de sombra nos olhos, como costumava fazer durante os primeiros anos de casada.
     Quando ficou pronta, enfiou a blusa nas calas at lhe ficar mesmo justa ao corpo, sorrindo com o resultado. H muito tempo que no tinha um tal aspecto.
     Deixou o quarto e atravessou a cozinha, reparando no cheiro a caf. Normalmente, seria aquela a sua bebida num dia como aquele, especialmente por ainda estar 
no incio da tarde; porm, em vez de se servir de uma chvena, pegou no saca-rolhas e em dois copos, a sentir-se mundana, como se, finalmente, resolvesse assumir 
o controlo da situao.
     Ao levar as coisas para a sala, reparou que Paul j tinha a lareira acesa, o que de certo modo alterara o ambiente, como a antecipar o estado de esprito de 
Adrienne. O rosto dele brilhava com o reflexo das chamas e, embora se mantivesse quieta, sabia que ele se apercebera da sua presena. Voltou-se para dizer qualquer 
coisa, mas ao v-la no conseguiu articular uma s palavra. Limitou-se a ficar a olhar para ela.
     - Fui longe de mais? - acabou Adrienne por perguntar.
     Paul negou com a cabea, sem nunca tirar os olhos dela. No... de forma alguma... Est... linda.
     Adrienne esboou um sorriso tmido.
     - Obrigada - disse, em voz suave, quase um sussurro, uma voz de h muito tempo. Continuaram a olhar um para o outro, at que finalmente ela levantou um pouco 
a garrafa. - No lhe apetece um copo de vinho? - perguntou. - Sei que fez caf, mas, com a tempestade, pensei que isto seria mais agradvel.
     Paul pigarreou.
     - Uma ideia excelente. Quer rque abra a grafa?
     - Ser melhor, a menos que goste de beber vinho com pedaos de cortia. Nunca consegui apanhar o jeito.
     Passou-lhe o saca-rolhas logo que ele se levantou da cadeira. Paul abriu a garrafa com uma sucesso de movimentos rpidos e Adrienne segurou os dois copos para 
ele os encher. A garrafa ficou em cima da mesa e ambos foram sentar-se nas cadeiras de balouo, cada um com o seu copo. Ela no deixou de notar que as cadeiras estavam 
mais juntas do que no dia anterior.
     Adrienne bebeu um pequeno gole de vinho e descansou a mo no regao, satisfeita com tudo: com o seu aspecto e com a maneira como se sentia, com o gosto do vinho, 
com a prpria sala. A luz bruxuleante das chamas fazia que as sombras danassem  volta deles. A chuva esmagava-se contra as paredes exteriores.
     - Isto est encantador - observou ela. - Ainda bem que acendeu a lareira.
     No ar, que estava a ficar mais quente, Paul notou o odor ligeiro do perfume que ela usava e mexeu-se na cadeira.
     - Continuava a ter frio, depois daquele trabalho no exterior - respondeu. - Segundo parece, em cada ano que passa preciso de um pouco mais de tempo para aquecer.
     -Mesmo com todo esse exerccio? E eu a pensar que voc estava a conseguir conter os estragos da idade.
     Paul riu-se baixinho.
     - Bem gostaria.
     - Parece-me que est muito bem.
     - No me v logo pela manh.
     106
     107
     
     - Mas no  essa a hora que dedica  corrida?
     - No, antes disso. Ao sair da cama mal consigo mexer-me. Coxeio como um velho. Tenho de pagar o preo de todas as corridas que tenho feito, durante muitos 
anos.
     Ao balouarem as cadeiras para diante e para trs, Paul via a
     dana do reflexo das chama nos olhos dela.
     - J falou hoje com os seus filhos? - perguntou, tentando
     olhar para Adrienne de forma menos evidente. Ela assentiu.
     - Telefonaram esta manh, enquanto esteve fora. Esto a preparar-se para irem fazer esqui mas, antes, querem passar por casa. Vo passar este fim-de-semana 
a Snowshoe, na Virgnia Ocidental. H meses que sonham com a viagem.
     - Parece que vo divertir-se.
     -Com certeza, Jack  bom nesse tipo de coisas. Quando os filhos vo visit-lo, tem sempre divertimentos programados, como se a vida no fosse mais do que uma 
grande festa. - Adrienne fez uma pausa. - Est tudo certo. Ele tambm sente a falta de inmeras coisas; no gostaria de trocar de lugar com ele. No se pode fazer 
o tempo voltar para trs.
     - Eu sei - murmurou Paul. - Pode crer que sei. Ela esboou um sorriso.
     - Desculpe. No devia ter dito aquilo... Paul abanou a cabea.
     -No faz mal. Mesmo que voc no estivesse a referir-se a mim, reconheo que perdi mais do que aquilo que posso recuperar. Contudo, de momento estou a tentar 
remediar alguns aspectos. S espero que o esforo resulte.
     - Vai resultar.
     - Pensa que sim?
     - Sei que sim. Acho que  aquele tipo de pessoa que consegue
     obter quase tudo aquilo por que se dispe a lutar. - Desta vez no est a ser assim to fcil. - Porqu?
     - De momento, eu e o Mark no temos muito boas relaes. Na realidade, no mantemos quaisquer relaes. Nos ltimos anos, trocmos um nmero muito reduzido 
de palavras.
     Adrienne ficou a olhar para ele, sem saber o que dizer.
     - No me tinha apercebido de que a frieza vinha de to longe. - Como  que poderia saber? No  nada que me orgulhe de
     admitir.
     - O que  que vai dizer-lhe? Isto , como  que pensa comear? -No fao ideia. - Olhou para ela. - O que  que me
     sugere? Parece ter bastante sensibilidade para lidar com os filhos. - Nem por isso. Acho que teria de comear por conhecer bem
     o problema.
     -  uma longa histria.
     - Se quer falar disso, temos o dia todo.
     Paul bebeu um gole, como se estivesse a pesar a deciso. Depois,
     durante a meia hora seguinte, acompanhado do som do vento e da
     chuva cada vez mais fortes, falou da assistncia que no tinha dado
     ao filho enquanto estava a crescer, da discusso no restaurante, da
     sua incapacidade para apaziguar a zanga entre os dois. Quando
     acabou, a fogueira estava quase a extinguir-se e Adrienne manteve
     -se calada por momentos.
     - No vai ser fcil - acabou por admitir. - Eu sei.
     - Mas a culpa no  toda sua, como bem sabe. Para alimentar
     uma zanga so precisas duas pessoas.
     - Um argumento bem filosfico. - Verdadeiro, apesar de tudo. - O que  que devo fazer?
     - Eu diria que no pode forar muito. Acho que talvez tenham
     de comear por se conhecerem melhor, ainda antes de tentarem
     resolver os problemas que existem entre os dois.
     Paul sorriu, a pensar nas palavras dela.
     - Sabe uma coisa, espero que os seus filhos reconheam que
     tm uma me muito esperta.
     - No reconhecem. Mas encaro o futuro com esperana.
     Ele riu-se, a pensar que na claridade baa da sala a pele dela
     parecia ter luz prpria. Um dos cavacos tombou, lanando fascas
     chamin acima. Paul despejou mais vinho nos dois copos.
     - Quanto tempo pensa permanecer no Equador? - perguntou
     Adrienne.
     108
     109
     
     Ainda no sei bem. Acho que depende do Mark e do tempo que ele queira que eu l esteja. - Rodou o vinho no copo, antes de olhar para ela. - Diria, contudo, 
que estarei l um ano, pelo menos. De qualquer modo, foi isso que disse ao director.
     - E passado esse tempo, regressa?
     Paul encolheu os ombros.
     - Quem sabe. Acho que posso ir para qualquer lado. No  absolutamente necessrio que volte a Raleigh. Para lhe ser franco, ainda no pensei no que vou fazer 
quando regressar. Talvez me dedique a tomar conta de estalagens quando os respectivos donos tiverem de sair da cidade.
     Adrienne soltou uma gargalhada.
     - Acho que ia sentir-se bastante aborrecido com esse trabalho. - Mas seria bom na iminncia de uma tempestade. -  verdade, embora tivesse de aprender a cozinhar.
     - Boa observao - admitiu Paul, com metade do rosto na
     sombra, a olhar para ela. - Nesse caso, talvez me mude para
     Rocky Mount, para depois decidir o que fazer.
     Ao ouvir aquelas palavras, Adrienne sentiu o sangue subir-lhe
     s faces. Abanou a cabea e virou-se.
     - No diga isso.
     - No digo o qu?
     - Coisas que no pretende dizer.
     - O que  que a leva a pensar que no as pretendo dizer?
     Adrienne no o encarou de frente, nem respondeu e, na calma que reinava na sala, ele pde aperceber-se do arfar do peito dela. Notou uma sombra de medo no rosto 
de Adrienne, mas no sabia que isso se devia ao desejo de que ele avanasse e ao receio de que no o fizesse, ou se no queria que ele avanasse e receasse que o 
fizesse. Estendeu o brao, colocando a mo no brao dela. Quando voltou a falar, f-lo com voz suave, como se tentasse acalmar os receios de uma criana.
     - Peo desculpa se a fao sentir-se incomodada - disse ele -, mas este fim-de-semana... tem sido um tempo cuja existncia eu desconhecia. Isto , quero dizer 
que me parece um sonho. Voc tem sido um sonho.
     O calor da mo dele parecia penetrar-lhe nos ossos.
     - Tambm tenho passado um tempo maravilhoso - respondeu Adrienne.
     - Mas os seus sentimentos so diferentes.
     Ela olhou para ele.
     - Paul... eu...
     - No, no tem de dizer seja o que for...
     No o deixou continuar.
     - Ai isso  que tenho. Procura uma resposta e eu gostaria de lha dar, est bem?
     Fez uma pausa, a arrumar os pensamentos. '_
     - Quando eu e o Jack nos separmos, no aconteceu apenas o fim de um casamento. Foi o fim de tudo o que eu esperava do futuro. E tambm representou o fim da 
pessoa que eu era. Pensei que queria continuar a viver e tentei, mas o mundo parecia j no estar nada interessado em mim. Os homens, na generalidade, no se mostravam 
interessados em mim e acho que me recolhi numa espcie de concha. Este fim-de-semana obrigou-me a tentar perceber o que se passa comigo, mas ainda no cheguei a 
concluses definitivas.
     -No tenho a certeza de perceber aquilo que est a tentar dizer-me.
     - No estou a dizer isto por a resposta ser no. Gostaria de voltar a v-lo.  um homem encantador e inteligente, os dois ltimos dias significaram mais para 
mim do que estar em condies de perceber. Mas mudar-se para Rocky Mount? Um ano  muito tempo e no temos maneira de saber o que estaremos a pensar daqui a um 
ano. Veja quanto mudmos durante os ltimos seis meses. Pode assegurar-me, com toda a franqueza, que daqui a um ano ainda ter a mesma perspectiva do que est a 
acontecer?
     - Certamente posso.
     - E como  que pode ter a certeza?
     L fora, ouvia-se o rugido contnuo do vendaval a fustigar a casa. A chuva martelava as paredes e o telhado; a velha estalagem gemia sob uma presso incessante.
     Paul pousou o copo de vinho. Ao olhar para Adrienne convenceu-se de que nunca vira nenhuma mulher to bonita.
     110
     111
     
     - Porque - disse - voc  a nica razo que me levar a querer regressar.
     - Paul... no...
     Fechou os olhos e, por momentos, Paul acreditou que ia perd-la. A ideia assustou-o mais do que julgara possvel, sentiu que as suas ltimas resistncias estavam 
a ceder. Olhou para o tecto e voltou a concentrar o olhar em Adrienne. Levantou-se e foi para junto dela. Com um dedo, obrigou-a a voltar o rosto para ele, sabendo 
que estava apaixonado por tudo o que dizia respeito quela mulher.
     - Adrienne - sussurrou, obrigando a que ela finalmente o olhasse de frente e no pudesse deixar de reconhecer a emoo espelhada nos olhos dele.
     Paul no conseguiu pronunciar as palavras, mas na torrente de sentimentos que a inundou, Adrienne imaginou que estava a ouvi-las, o que, de momento, era suficiente.
     Porque foi ento, quando ele a prendeu naquele seu olhar resoluto, que Adrienne percebeu que tambm estava apaixonada.
     Durante muito tempo, at Paul lhe pegar na mo, nenhum deles parecera consciente do que fazer. Com um suspiro, Adrienne deixou-o pegar-lhe na mo, recostando-se 
na cadeira quando sentiu o dedo polegar dele comear a acariciar-lhe a pele.
     Ele sorriu,  espera de uma resposta, mas Adrienne parecia satisfeita por poder permanecer quieta. E Paul no tinha a certeza do que devia fazer. No conseguia 
decifrar-lhe a expresso que, no entanto, parecia dar a entender que os sentimentos dele estavam a ser correspondidos; esperana e receio, confuso e aceitao, 
paixo e recato. Porm, pensando que ela precisava de tempo e de espao, soltou-lhe a mo e levantou-se.
     - Vou pr mais um cavaco na lareira - disse. - A fogueira est a esmorecer.
     Ela aquiesceu, observando-o atravs dos olhos quase fechados, vendo-o agachar-se diante da lareira, com as calas de ganga a marcarem-lhe as coxas.
     Isto no devia estar a acontecer, disse a si mesma. Por amor de Deus, o homem tinha 54 anos, no era nenhum adolescente. Ela tinha maturidade suficiente para 
perceber que uma situao da
     quelas no pertencia aos domnios da realidade. Era uma consequncia do temporal, do vinho, do facto de estarem ss. Seria uma combinao de mil coisas, disse 
para si prpria, mas no era amor.
     No entanto, ao ver Paul pr outro cavaco na fogueira e ficar a olhar calmamente para as chamas, teve a certeza de que era. O brilho dos olhos dele no mentia, 
o tremor da voz quando tinha sussurrado o nome dela... sabia que os sentimentos dele eram verdadeiros. E o mesmo, pensou, estava a suceder com os dela.
     Porm, o que  que isso significava? Para ele ou para ela? Saber-se amada, por mais maravilhosa que fosse a ideia, no era s o que estava ali em causa. Os 
olhos dele tambm tinham revelado desejo, o que a tinha aterrorizado, mais ainda por saber que ele a amava. Sempre acreditara que fazer amor era mais do que um simples 
acto, por mais agradvel, entre duas pessoas. Inclua tudo aquilo que um casal era suposto partilhar: confiana e dedicao, esperanas e sonhos, a promessa de ultrapassar 
em conjunto tudo o que o futuro pudesse trazer. Nunca entendeu as aventuras de uma noite s, nem as pessoas que mudam de cama de dois em dois meses. Isso transformava 
o acto do amor numa coisa quase sem sentido, como se fazer amor tivesse a mesma importncia de um beijo de despedida junto  porta de casa.
     Embora se amassem um ao outro, sabia que tudo podia mudar logo que se deixasse levar pelos sentimentos. Atravessaria uma fronteira que tinha erigido na sua 
prpria mente e essa era uma viagem sem regresso. Ir para a cama com o Paul significaria que os dois passariam a partilhar de um vnculo para o resto das suas vidas 
e no tinha a certeza de estar preparada para isso.
     Tambm no estava segura de saber o que devia fazer. Jack no fora apenas o nico homem com quem ela partilhara a cama; durante dezoito anos, fora o nico homem 
com quem quis partilhar a cama, pelo que a possibilidade de o fazer com outro a deixava extremamente ansiosa. Fazer amor era uma dana amvel de dar e receber, pelo 
que a ideia de o desapontar era quase suficiente para que no deixasse as coisas passarem dali.
     No entanto, no estava a conseguir dominar-se. Agora, j no. No, por ver a maneira como Paul a olhava, no com os sentimentos que alimentava em relao a 
ele.
     112
     113
     
     Ao levantar-se da cadeira sentiu a garganta seca e a tremura das pernas. Paul continuava agachado em frente da fogueira. Aproximando-se, colocou as duas mos 
nos msculos entre os ombros e o pescoo dele. Sentiu os msculos a retesarem-se momentaneamente e, depois de ele respirar profundamente, a descontrarem-se. Voltou-se, 
levantando os olhos para ela, e foi ento que Adrienne sentiu que ia desistir de lutar.
     Tudo lhe parecia bem, ele parecia-lhe bem e, ali de p, a acariciar-lhe as costas, soube que no deixaria de ir ao lugar onde era esperado que fosse.
     L fora, o cu foi riscado por um relmpago. Vento e chuva uniam esforos e martelavam as paredes. A sala comeou a aquecer quando as chamas da lareira subiram 
um pouco mais.
     Paul ps-se de p e olhou-a nos olhos. A sua expresso suavizou-se quando lhe pegou na mo. Adrienne esperou por um beijo que no veio. Em vez disso, Paul levantou-lhe 
a mo, levou-a  cara e apertou-a, ao mesmo tempo que fechou os olhos, como que a tentar recordar-se para sempre do toque da pele de Adrienne.
     Antes de a libertar, Paul beijou-lhe as costas da mo. Depois, abrindo os olhos e inclinando a cabea, aproximou-se mais, at sentir os lbios encostados  
face dela e de a cobrir de beijos delicados, antes de finalmente lhe beijar os lbios.
     Adrienne inclinou-se para Paul quando se sentiu apertada nos seus braos; sentiu os seios a esmagarem-se contra o peito dele; sentiu um ligeiro arranhar da 
barba quando foi beijada pela segunda vez.
     Paul fez deslizar as mos pelas costas dela, pelos braos e ela afastou os lbios, sentindo a humidade da lngua dele. Ele beijou-lhe o pescoo, as faces e 
deixou que a sua mo deslizasse para a barriga dela, num toque que parecia carregado de electricidade. Quando sentiu que a mo de Paul lhe deslizava para os seios, 
Adrienne sentiu-se perder o flego; e beijaram-se, uma e outra vez, com o mundo  sua volta a dissolver-se, a transformar-se em algo distante e irreal.
     O fogo da paixo acalmara, mas quando se aproximaram ainda mais, no sentiram que estavam apenas a abraar-se, sentiram que
     estavam tambm a erguer um muro para manter  distncia todas as memrias dolorosas do passado.
     Paul afundou as mos nos cabelos de Adrienne e ela apoiou a cabea contra o peito dele, sentindo um corao que batia to acelerado quanto o seu.
     E ento, quando conseguiram finalmente separar-se, Adrienne deu consigo a procurar-lhe a mo.
     Deu um pequeno passo atrs e, puxando-o com suavidade, comeou a conduzi-lo para o andar de cima, para o quarto azul.
     114
     115
     
     TREZE
     Estavam ambas na cozinha e Amanda tinha os olhos fixos na me.
     No tinha dito coisa alguma desde que a me comeara a contar a sua histria e j tinha bebidos dois copos de vinho, o segundo um pouco mais depressa do que 
o primeiro. Nenhuma delas falava, de momento, mas Adrienne sentia a expectativa ansiosa da filha, que estava suspensa do que viria a seguir.
     No entanto, Adrienne no lhe podia contar o que acontecera, nem tinha necessidade de o fazer. Amanda era uma mulher adulta, sabia o que era estar na cama com 
um homem, alm de ter vivido o suficiente para saber que, embora essa tivesse sido uma parte maravilhosa da descoberta mtua entre a me e Paul, era apenas uma parte 
do todo. Adrienne fez amor com Paul e se o acto no tivesse um profundo significado para ela, o fim-de-semana teria resultado apenas num acto de natureza fsica, 
no teria ficado nada para recordar, para alm de alguns momentos agradveis, que s a sua prolongada solido anterior teria tornado especiais. Efectivamente, o 
que os dois partilharam foram sentimentos escondidos durante tempo demasiado, sentimentos que s tinham significado para os dois. E unicamente para eles.
     Alm disso, Amanda era sua filha. Podia ser considerada antiquada, mas contar-lhe os pormenores no lhe pareceu apropriado. H mulheres que conseguem falar 
dessas coisas, mas Adrienne nunca conseguira perceber como conseguiam faz-lo. Sempre pensou que o quarto do casal era um lugar cujos segredos pertenciam s ao prprio 
casal.
     E mesmo que lhe quisesse contar tudo, sabia-se incapaz de encontrar as palavras apropriadas. Como  que poderia descrever o que sentira quando ele comeou a 
desabotoar-lhe a blusa, ou falar-lhe dos arrepios que lhe percorreram todo o corpo quando ele lhe passou um dedo pelo abdmen? Ou do calor que sentiram na pele quando 
os dois corpos se uniram? Ou da textura da boca dele quando a beijou, ou do que sentiu quando enterrou os dedos com fora na pele dele? Ou o som que ambos faziam 
a respirar e como a respirao de ambos se acelerou quando comearam a mover-se em sintonia.
     No, no iria falar desse tipo de coisas. Em vez disso, deixaria que a filha imaginasse o que aconteceu, pois Adrienne sabia que s a imaginao dela poderia, 
eventualmente, perceber os mnimos detalhes da magia que a me tinha sentido nos braos de Paul.
     Amanda acabou por sussurrar-lhe:
     - Mam?...
     - Queres saber o que aconteceu?
     A filha engoliu em seco, a sentir-se pouco  vontade.
     - Sim - foi tudo o que Adrienne conseguiu dizer.
     - Queres dizer que...
     - Sim - disse outra vez.
     Amanda bebeu um gole de vinho. A tentar ser forte, pousou o copo em cima da mesa.
     - E?...
     Adrienne inclinou-se para diante, como se quisesse evitar que mais algum ouvisse.
     - Sim - murmurou e, dito isto, olhou para o lado, retirando-se para o passado.
     Fizeram amor naquela tarde e passaram o resto do dia na cama. A tempestade rugia l fora, as folhas e os ramos arrancados fustigavam a casa, ela e Paul estavam 
agarrados um ao outro, os lbios dele junto da face dela, cada um a recordar o passado e a falar do que sonhava como futuro, ambos maravilhados pela sucesso de 
ideias e de sentimentos que os tinham levado quele momento.
     O sentimento tinha sido to novo para ela como para o Paul. Nos ltimos anos de casamento com o Jack - talvez at na maior parte do tempo que passaram casados, 
pensava agora - os seus
     116
     117
     
     actos de amor tinham sido mecnicos, com pouco sentimento e rpidos na durao, sem ternura e sem emoo. E raramente falavam aps o acto porque Jack quase 
sempre se virava para o outro lado e adormecia em poucos minutos.
     Quanto a Paul, no s a manteve abraada durante horas como lhe deu a saber que aquele abrao era to importante para ele como a intimidade fsica de que tinham 
partilhado. Beijou-lhe os cabelos e o rosto, disse-lhe que era bonita sempre que lhe tocou qualquer parte do corpo, chamou-lhe bela e disse que a adorava, tudo naquele 
tom solene e confiante que ela comeara a amar desde o incio.
     Mesmo sem terem conscincia disso por as janelas estarem entaipadas, o cu tinha-se tornado um negrume opaco e temeroso. As ondas impelidas pelo vento atingiram 
a duna e levaram-na; a gua revolveu as fundaes da estalagem. As antenas da casa foram arrancadas e atiradas para a parte oposta da ilha. A vibrao que a energia 
libertada pela tempestade provocou na porta das traseiras permitiu a entrada de areia e gua na cozinha. A electricidade foi cortada numa altura qualquer, durante 
a madrugada. Amaram-se uma segunda vez, em escurido total, guiados pelo tacto e, quando terminaram, adormeceram finalmente nos braos um do outro, enquanto o ncleo 
do furaco passava por cima de Rodanthe.
     CATORZE
     Acordaram famintos na manh de domingo. Contudo, sem electricidade e com a tempestade a diminuir progressivamente de intensidade, Paul trouxe a geleira para 
o quarto e comeram ali mesmo, no conforto da cama. Umas vezes riam, outras ficavam srios, provocando-se mutuamente ou permanecendo calados, saboreando o momento 
e a presena do outro.
     Pelo meio-dia, o vento tinha amainado o suficiente para lhes permitir sarem para o alpendre. O cu comeava a clarear, mas a praia ficara coberta de detritos: 
pneus velhos e degraus gastos de casas construdas demasiado perto da gua que tinham sido arrastados pelas ondas engrossadas pelo vento. O ar comeava a ficar mais 
quente; ainda estava demasiado frio para se estar fora de casa sem um abafo, mas Adrienne tirou as luvas para sentir a mo de Paul a agarrar a sua.
     A corrente elctrica foi restabelecida por volta das dias horas, caiu outra vez, voltando, para se manter, vinte minutos mais tarde. A comida que estava no 
frigorfico no se estragou e Adrienne cozinhou dois bifes, o que lhes permitiu uma refeio prolongada, com a ajuda da terceira garrafa de vinho. Mais tarde, tomaram 
um banho juntos. Sentou-se  frente do Paul e descansou a cabea no peito dele, enquanto Paul lhe passava a esponja pela barriga e pelos seios. Adrienne fechou os 
olhos, afundando-se nos braos dele, a sentir a gua quente a correr-lhe pelo corpo.
      noite foram  cidade. Rodanthe estava a voltar  vida aps a tormenta, condies que permitiram que passassem o sero num
     118
     119
     
     bar esqulido, a ouvir msica de uma jukebox e a danar um pouco. O bar estava cheio de pessoas da terra, todas desejosas de contarem as suas histrias da tempestade, 
pelo que Paul e Adrienne foram os nicos a arriscar uns passos de dana. Ele enlaou-a com meiguice e rodaram lentamente, de corpos unidos, esquecidos da conversa 
e dos olhares dos restantes clientes.
     Durante o domingo, Paul desmontou as proteces contra os tufes para as guardar e voltou a instalar as cadeiras de balouo no alpendre. Como o cu clareou, 
pela primeira vez depois da tempestade, caminharam at  praia, como tinham feito na primeira noite em que estiveram juntos, notando as enormes alteraes registadas 
desde ento. O oceano cavara covas enormes nas zonas em que tinha levado grandes quantidades de areia e vrias rvores tinham sido derrubadas. A uns 800 metros de 
distncia, Paul e Adrienne deram consigo a observar uma casa vtima da fora da tempestade. Metade assente nos pilares, a outra metade em cima da areia, a maior 
parte das paredes tinham sido dobradas, as janelas estavam partidas e parte do telhado tinha desaparecido. Uma mquina de lavar loua estava junto de um monte de 
ardsias partidas, que pareciam ter formado o telhado do alpendre. Um grupo de pessoas tinha-se reunido perto da estrada, a tirar fotografias para juntar s participaes 
de sinistros. Foi a primeira vez que se aperceberam da verdadeira violncia da tempestade.
     A mar estava a subir quando regressaram. Iam a caminhar devagar, com os ombros a tocarem-se ligeiramente, quando deram com o bzio. O exterior pintalgado estava 
meio enterrado na areia, rodeado por milhares de fragmentos de conchas partidas. Quando Paul lho deu, Adrienne colocou-o junto da orelha e foi ento que ele zombou 
dela acerca da ideia de se poder ouvir o oceano atravs de um bzio. Enlaou-a com os braos, a dizer que era to perfeita como o bzio que tinham acabado de encontrar. 
Mesmo sabendo que o ia conservar para sempre, no fazia a menor ideia do significado que o bzio viria a ter para ela.
     De momento, sabia apenas que estava nos braos do homem que amava, desejando que ele pudesse ficar a abra-la daquela forma, para sempre.
     Na manh de segunda-feira, Paul saltou da cama antes de ela acordar; embora se dissesse ignorante das coisas da cozinha, surpreendeu-a ao aparecer no quarto 
a transportar uma bandeja com o pequeno-almoo, animando-a com o cheiro do caf acabado de fazer. Ficou sentado a v-la comer, a v-la rir-se reclinada nas almofadas, 
a tentar, sem o conseguir, levantar o lenol at ficar com os seios tapados. A tosta estava deliciosa, o bacon ficara estaladio sem estar queimado, os ovos mexidos 
tinham  quantidade exacta de queijo gratinado.
     Embora os filhos por vezes se lembrassem do Dia da Me e lhe levassem o pequeno-almoo  cama, era a primeira vez que um homem lhe dispensava uma ateno daquelas. 
Jack nunca fora o gnero de homem capaz de um gesto assim.
     Quando ela acabou de comer, Paul foi fazer uma corrida curta, enquanto Adrienne tomava banho e se vestia. Acabada a corrida, Paul atirou com as roupas sujas 
para dentro da mquina e tambm tomou duche. Na altura em que chegou  cozinha para se juntar a ela, Adrienne estava a telefonar  Jean. Enquanto ela ia pondo a 
amiga ao corrente do sucedido, Paul enlaou-a nos braos e descansou a cabea no pescoo dela.
     Ainda ao telefone, Adrienne ouviu o som prprio da porta da frente a ser aberta e o barulho de botas sobre o soalho. Ainda informou a Jean do facto e desligou, 
deixando a cozinha para ver quem tinha entrado. A sua ausncia no chegou a um minuto mas, quando voltou, olhou para o Paul com a expresso de quem no consegue 
encontrar as palavras necessrias. Soltou um profundo suspiro.
     - Ele est c; quer falar contigo - informou.
     - Quem?
     - Robert Torrelson.
     Quando Paul entrou na sala, viu Robert Torrelson  sua espera; o homem ficara sentado, de cabea baixa, no sof. Levantou os olhos sem sorrir, mostrando um 
rosto insondvel. Antes de o ver,
     120
     121
     
     Paul no tinha a certeza de conseguir distinguir Robert Torrelson no meio de uma multido mas, quela distncia, apercebeu-se de que j tinha falado com o homem 
que estava sentado  sua frente. Para alm do cabelo, que embranquecera muito naquele ltimo ano, parecia no ter mudado desde o dia em que o vira na sala de espera 
do hospital. O olhar era duro, como Paul o tinha imaginado.
     De imediato, Robert ficou calado. Mas no deixou de o olhar enquanto Paul mudava a posio da cadeira de balouo para ficarem de frente um para o outro.
     - Voc veio - disse Torrelson, passados uns instantes. Falava com o sotaque do Sul, numa voz forte e rouca, produto de muitos anos a fumar cigarros Camel sem 
filtro.
     - Pois vim.
     - No pensei que viesse.
     - Durante algum tempo, nem eu tive a certeza de que viria. Robert resfolegou, como se j estivesse  espera daquilo. - O meu filho diz que falou consigo.
     Pois falou.
     Robert fez um sorriso amargo, sabendo perfeitamente tudo o que tinha sido dito.
     - Diz que voc nem tentou dar explicaes        continuou Robert.
     - No - respondeu Paul -, no tentei.
     - Mas continua a pensar que no cometeu erro nenhum, no ?
     Paul olhou para longe, a pensar no que Adrienne lhe tinha dito. No, pensou, eles nunca mudam de opinio. Endireitou-se.
     - Na sua carta disse que queria falar comigo e que o assunto era importante. Pois bem, estou aqui. Em que  que posso ser-lhe til, Mr. Torrelson?
     Robert levou a mo ao bolso da camisa para tirar o mao de
     cigarros e a carteira de fsforos. Acendeu um, trouxe o cinzeiro
     para mais perto de si e recostou-se no sof.
     - O que  que correu mal? - perguntou.
     - Nada. A operao correu como eu a tinha planeado. - Nesse caso, por que  que ela morreu? - Bem gostaria de saber, mas no sei.
     - Foi isso que os seus advogados lhe mandaram dizer?
     !'espondeu Paul calmamente -,  a verdade. Pensei que era a verdade que queria ouvir. Dava-lhe outra resposta, se pudesse.
     O homem levou o cigarro aos lbios e tirou uma fumaa. Quando exalou o fumo, Paul notou um ligeiro assobio, como o que produz o ar a escapar-se do fole de um 
acordeo.
     - Sabia que ela j tinha o tumor quando a conheci?
     - No - respondeu Paul. - No sabia.
     Robert chupou outra grande fumaa do cigarro. Quando voltou a falar, f-lo com uma voz menos agressiva, confio que toldada pelas recordaes.
     -  claro que nessa altura ainda no era to grande. Era do tamanho de metade de uma noz e a cor tambm era menos assustadora. Mas via-se sem qualquer dificuldade, 
como se tivesse qualquer coisa enfiada sob a pele. E sempre a incomodou, mesmo quando ainda era criana. Eu era uns anos mais velho e lembro-me de a ver ir para 
a escola; andava sempre de olhos postos no cho e no era preciso ser muito esperto para descobrir o motivo que a levava a caminhar assim. - Calou-se, a encadear 
as ideias, e Paul resolveu que era melhor no dizer nada. - Como aconteceu a muitas pessoas daquela poca, no acabou a escola porque teve de ir trabalhar para ajudar 
a famlia. Foi nessa altura que a conheci. Trabalhava no cais onde fazamos a descarga do peixe, era ela quem fazia as pesagens. Antes que me dirigisse uma s palavra, 
calculo que lhe tenha falado durante um ano inteiro mas, mesmo assim, gostei dela. Era honesta, boa trabalhadora e, mesmo que usasse os cabelos cados para manter 
aquele lado da cara tapado, uma vez por outra conseguia ver o que ela tanto tentava esconder, o que me levou a descobrir os olhos mais belos que alguma vez vira. 
Eram castanhos, escuros e doces, percebe? Continuei a querer meter conversa, mas continuou a fazer de conta que no via, at que finalmente deve ter percebido que 
eu no ia desistir. Deixou que a convidasse para sair, mas quase no olhou para mim durante todo o sero. Manteve-se de olhos postos nos sapatos. - Chegado a este 
ponto, Robert juntou as mos. - Mas convidei-a outra vez. Correu melhor da segunda vez e at descobri que a rapariga, quando queria, chegava a ter graa. Quanto 
melhor a conhecia mais gosta
     122
     123
     
     va dela e, com o tempo, comecei a pensar que talvez estivesse apaixonado por ela. Aquela coisa da cara no me ralava nada. No me preocupei na altura, nem me 
preocupei mais tarde. Mas ela preocupou-se. Sempre. - Nova pausa. - Nos vinte anos seguintes teve sete filhos e parecia-lhe que, a cada novo filho, aquilo ficava 
maior. No sei se era verdade, mas nunca deixou de me repetir a mesma coisa. Contudo, todos os meus filhos, mesmo o John, at certo ponto, acharam que tinham a melhor 
me do mundo. E era verdade. Era dura quando tinha de ser e a mulher mais amorosa durante o resto do tempo. E eu amava-a por ela ser assim, ramos felizes. A vida 
por estas paragens no  fcil, mas a minha mulher tornava a vida fcil para mim. E eu tinha orgulho nela, e tinha orgulho que me vissem com ela, e agia de maneira 
que toda a gente da terra tivesse conhecimento disso. Achei que seria suficiente mas, para ela, acho que no foi. - Paul permaneceu imvel, deixou que Robert continuasse. 
- Uma noite, viu aquele espectculo da televiso sobre uma senhora com um desses tumores e mostravam fotografias de antes e depois. Acho que ps na cabea a ideia 
de que podia ver-se livre do seu tumor, de uma vez por todas. Foi depois do espectculo que comeou a falar em submeter-se a uma operao. A operao era muito cara 
e no tnhamos seguro de sade, mas ela continuava a indagar se haveria outra forma de conseguirmos encontrar os meios para a pagar. - Robert olhou Paul nos olhos. 
- Nada do que lhe disse a fez mudar de ideias. Eu dizia-lhe que no ligava quilo mas no me dava ouvidos. Por vezes, encontrava-a no quarto a apalpar a cara, ou 
ouvia-a chorar e sabia que ela desejava mais a operao do que qualquer outra coisa que a vida lhe pudesse oferecer. Tinha vivido com aquele coisa durante toda a 
sua existncia, estava cansada de ser assim. Estava cansada de ver os estranhos a fingirem que no reparavam em nada, ou dos olhares prolongados que os midos lhe 
deitavam. Por isso, acabei por concordar. Mobilizei todas a minhas poupanas, fui ao banco e negociei uma hipoteca sobre o barco, tudo para ter com que lhe pagar. 
Estava to excitada naquela manh. Desde que a conhecera nunca a tinha visto to satisfeita com qualquer coisa, pelo que, s de olhar para ela, achei que estava 
a fazer o que devia ser feito, que a minha deciso fora acertada. Disse-lhe que ficaria 
     espera dela, que iria v-la logo que acordasse e sabe o que ela me disse? Quais foram as ltimas palavras que lhe ouvi? - Olhou para o mdico, queria certificar-se 
de ele estava atento. - Disse: "Toda a minha vida quis ser bonita para ti." E, ao ouvir isto, apenas consegui pensar que para mim ela sempre fora bonita. - Paul 
inclinou a cabea e sentiu um n na garganta, embora tentasse engolir em seco. - Mas o senhor no sabia, nenhuma destas coisas acerca dela. Para si, foi apenas mais 
um senhora que veio ser operada, ou uma senhora que morreu, ou a senhora com aquela coisa na cara, ou a senhora cuja famlia lhe moveu ume processo. No foi correcto 
da sua parte no conhecer a histria da minha mulher. Ela merecia mais do que isso. A vida que levou dava-lhe direito a mais do que isso. - Robert Torrelson fez 
cair as ltimas cinzas do cigarro no cinzeiro e esmagou a ponta do cigarro. - O senhor foi a ltima pessoa com quem ela falou, a ltima pessoa que ela viu antes 
de morrer. Era a melhor esposa do mundo e o senhor nem conhecia a pessoa que estava diante de si. - Fez uma pausa para lhe dar tempo a pensar. - Mas agora ficou 
a saber.
     Dito isto, levantou-se do sof e, momentos depois, tinha desaparecido.
     Depois de ouvir o que Robert Torrelson disse, Adrienne acari
     ciou o rosto de Paul, limpando-lhe as lgrimas com as pontas dos
     dedos.
     - Ests bem?
     - Nem sei - respondeu ele. - Sinto-me como que entor
     pecido.
     - No admira. Passaste um momento difcil. - Pois foi - admitiu Paul -, muito difcil.
     - E 'ests satisfeito por ele ter vindo? Por teres ouvido todos
     aqueles pormenores da boca dele?
     - Sim e no. Para ele, foi importante dar-me a conhecer que
     espcie de pessoa foi a sua mulher. Mas sinto-me triste. Eles ama
     vam-se tanto; e agora, ela est morta. -  verdade.
     124
     125
     
     - No me parece justo.
     Adrienne fez um sorriso de conforto.
     - No . Quando tudo acaba, a tragdia  tanto maior quanto maior foi o amor. Estes dois elementos andam sempre juntos. - Mesmo para ti e para mim?
     - Para toda a gente - respondeu ela. - O melhor que podemos esperar da vida  que a tragdia leve tempo, muito tempo, a chegar.
     Paul puxou-a para o colo. Beijou-lhe os lbios, rodeou-a com os braos, estreitando-a contra si, a deixar-se abraar por ela; e ficaram naquela posio durante 
muito tempo.
     Porm, enquanto, mais tarde, faziam amor, as palavras de Adrienne voltaram-lhe  mente. Aquela era a ltima noite deles em Rodanthe, a ltima noite que passavam 
juntos, pelo menos durante um ano. E por mais que tentasse cont-las, no conseguiu evitar as lgrimas que lhe escorriam pelas faces.
     QUINZE
     Quando Paul acordou, na manh de tera-feira, Adrienne j no estava na cama. Tinha-a sentido a chorar durante a noite mas no dissera nada, sabendo que se 
falasse, ele prprio no conseguiria evitar as lgrimas. Porm, fingir que no percebera deixou-o incapaz de dormir durante horas. Manteve-se acordado, a v-la dormir 
nos seus braos, aninhado contra ela e sem a soltar, como se tentasse compensar o ano em que no poderiam estar juntos.
     Adrienne passou-lhe a roupa a ferro, as peas que estavam na mquina de lavar; Paul separou o que precisava de vestir naquele dia e guardou o resto das coisas 
nos sacos de viagem. Depois de tomar duche e se vestir, sentou-se na borda da cama, de caneta em punho, a passar os seus pensamentos para o papel. Deixando o bilhete 
no quarto, levou as suas coisas para o andar de baixo e colocou-as junto da porta da frente. Adrienne estava na cozinha, em frente do fogo, a preparar ovos mexidos, 
com uma chvena de caf pousada a seu lado, em cima da bancada. Quando se voltou, ele notou-lhe o vermelho das plpebras.
     - Ol - arriscou.
     - Ol - disse ela, voltando-se. Recomeou a mexer os ovos com mais vigor, sem tirar os olhos da frigideira.
     - Obrigado - disse ele.
     - Como trouxe uma garrafa-termo comigo, se quiseres podes levar caf para a viagem.
     - Obrigado, mas no h necessidade. No vou precisar.
     126
     127
     
     Ela continuou a mexer os ovos.
     - Se quiseres, tambm posso preparar-te umas sanduches. Paul chegou-se a ela.
     - No tens de fazer nada disso. Posso arranjar qualquer coisa, mais tarde, no caminho. Para te ser franco, nem me parece que tenha fome.
     Adrienne no parecia estar a ouvi-lo e ele ps-lhe a mo na cintura. Sentiu-lhe a respirao entrecortada, como se ela tentasse conter as lgrimas.
     - Ento...
     E ela, num sussurro:
     - Estou bem.
     - De certeza?
     Acenou que sim e fungou ao retirar a frigideira do lume. A limpar os olhos, continuou a no olhar para ele. Ao v-la naquele estado, Paul recordou-se do seu 
primeiro encontro, no alpendre, e sentiu um n na garganta. Nem queria acreditar que esse primeiro encontro acontecera h menos de uma semana.
     - Adrienne... no...
     Adrienne levantou os olhos para ele.
     - No, o qu? No fico triste? Ests a caminho do Equador e eu tenho de voltar para Rocky Mount. Posso evitar a dor de ver que a nossa relao acabe to depressa?
     - Tambm no me agrada.
     - Esse  o motivo da minha tristeza. Sei que pensas o mesmo que eu. - Hesitou, a tentar controlar os sentimentos. - Sabes, esta manh, quando me levantei, disse 
a mim mesma que no voltaria a chorar. Disse a mim mesma que seria forte e me mostraria alegre, para que levasses uma boa recordao de mim. Porm, quando ouvi o 
chuveiro a funcionar, fui assaltada pela ideia de que, amanh, quando me levantar j no estars aqui; no consegui evitar o choro. Isto passa. Podes ter a certeza. 
Eu sou forte.
     Disse tudo como se tentasse convencer-se a si prpria. Paul pegou-lhe na mo.
     - Adrienne... na noite passada, depois de adormeceres, comecei a pensar que talvez pudesse prolongar um pouco mais a minha estada aqui. Mais um ms ou dois 
no faria grande diferena e assim podamos estar juntos...
     Ela abanou a cabea, no o deixando prosseguir.
     - No. No podes fazer isso ao Mark. No podes, depois do que aconteceu entre ambos. Alm do mais, tu precisas de fazer essa viagem. Sem ela, ests a consumir-te; 
se no partires agora, pergunto a mim mesma se alguma vez o fars. Passar mais tempo comigo no vai tornar a partida mais fcil quando chegar a altura de dizermos 
adeus, nem eu seria capaz de viver com a ideia de que era culpada por manter um pai e um filho separados. Mesmo que planessemos a tua partida para mais tarde, chegada 
a altura eu no deixaria de chorar. - Mostrou um sorriso +de coragem, antes de prosseguir. - No podes adiar. Antes de nos termos deixado envolver nesta situao, 
ambos sabamos que terias de partir. Apesar de ser uma deciso difcil, tambm sabemos, ambos, que  a melhor sada,  o que acontece quando se  pai. Muitas situaes 
exigem sacrifcios e esta  uma delas.
     Ele assentiu, de lbios cerrados. Sabia que a razo estava do lado dela, embora desejasse desesperadamente que no estivesse.
     - Prometes que esperas por mim? - perguntou finalmente, com voz rouca.
     - Decerto sim. Se pensasse que estavas a ir-te embora para sempre, estaria a chorar tanto que terias de tomar o pequeno-almoo dentro de um barco a remos.
     Encostou-se a ele e, apesar do desgosto, Paul deu consigo a rir  gargalhada. Ela beijou-o antes de se deixar abraar. Paul sentia-lhe o calor do corpo, absorvia 
o perfume que ela usava. E Adrienne sentia-se to bem nos braos dele, to perfeita.
     - No sei como nem porqu tudo aconteceu, mas sinto que os meus passos foram conduzidos para este lugar - afirmou ele. - Para te conhecer. Durante muitos anos 
senti que havia uma falha qualquer na minha vida, mas no fazia ideia do que era. Agora, porm, j no tenho dvidas.
     Adrienne fechou os olhos.
     - Eu tambm no - sussurrou.
     Paul encostou a cara aos cabelos dela e beijou-os.
     - Vais sentir a minha falta?
     Ela brindou-o com um sorriso contrafeito.
     - Em cada minuto que passar.
     128
     129
     
     Tomaram o pequeno-almoo juntos. Adrienne no tinha fome mas forou-se a comer, a tentar sorrir q"nse continuamente. Paul parecia escolher a comida, levou mais 
tempo a limpar o prato do que era habitual e, quando terminaram, levaram os pratos para o lava-loua.
     Eram quase nove horas e Paul levou-a pelo brao, passou pelo vestbulo e parou junto da porta da frente. Pegou nos sacos de viagem, um de cada vez, e pendurou-os 
nos ombros; Adrienne pegou na bolsa de pele, onde estavam os bilhetes e o passaporte, e entregou-lha.
     - Parece-me que est na hora - disse ele.
     Adrienne contraiu os lbios. Como as dela, as plpebras de Paul estavam avermelhadas, o que ele tentava esconder ao manter os olhos baixos.
     - Sabes como podes contactar comigo, na clnica. No fao ideia da qualidade do servio dos correios, mas as cartas acabaro por me chegar s mos. O Mark recebia 
sempre tudo o que a me lhe mandava.
     - Obrigada.
     Paul agitou a bolsa.
     - Tambm tenho aqui o teu endereo. Escrevo-te logo que l chegar. E tambm tenciono telefonar, logo que tiver oportunidade. - Tudo bem.
     Ele estendeu a mo para lhe tocar o rosto e Adrienne inclinou-se para a mo dele. Ambos sabiam que no havia mais nada a dizer.
     Seguiu-o quando ele saiu e desceu os degraus, ficando a v-lo acomodar os sacos de viagem no carro. Depois de fechar a porta do automvel, Paul ficou a olh-la 
por algum tempo, parecendo incapaz de a deixar, desejando uma vez mais que no tivesse de partir. Finalmente, veio at junto dela, beijou-a em ambas as faces e nos 
lbios. Envolveu-a nos braos.
     Adrienne forou-se a manter os olhos fechados. Disse para si mesma que ele no se ia embora para sempre. Tinham sido feitos um para o outro; disporiam de todo 
o tempo do mundo, quando ele regressasse. Passariam a velhice juntos. Se tinha vivido sem ele tantos anos, que diferena fazia um ano a mais ou a menos?
     No entahto, as coisas no eram assim to fceis. Se os filhos fossem mais velhos, sabia que iria atrs dele para o Equador. Se o filho dele no precisasse do 
pai, Paul teria ficado ali, com ela. Os seus caminhos divergiam devido a responsabilidades contradas para com terceiros, o que, de sbito, pareceu a Adrienne uma 
crueldade inaudita. Por que motivo  que o direito  felicidade de ambos tinha de acabar daquela maneira?
     Paul inspirou profundamente, antes de a soltar e caminhar para
             carro. Olhou para o lado por um instante; depois, a esfregar ligeiramente os olhos, voltou a encar-la de frente.
     Adrienne seguiu-o at se imobilizar do lado do condutor e ficou a v-lo entrar no carro. Com um ligeiro sorriso, ele rodou a chave de ignio e o motor voltou 
 vida. Ela afastou-se da porta aberta e Paul fechou-a para, de seguida, fazer baixar o vidro da janela.
     -Um ano - disse -, e estarei de volta. Dou-te a minha palavra.
     - Um ano - murmurou ela, em resposta.
     Presenteou-a com um sorriso triste, engatou a mudana e iniciou a manobra de recuo at  estrada. Adrienne voltou-se para o ver, sentindo uma dor interior quando 
ele lhe devolveu o olhar.
     O carro virou logo que atingiu a estrada e Paul fez-lhe um ltimo aceno de despedida. Adrienne levantou a mo, ficando a ver
             carro avanar, para longe de Rodanthe, para longe dela.
     Ficou na vereda a ver o carro ficar mais pequeno com a distncia
      a ouvir o rudo do motor que se desvanecia rapidamente. Segundos depois, o automvel tinha desaparecido, como se nunca ali tivesse estado.
     A manh estava fresca; o cu era azul com tufos brancos, um bando de gaivotas voava l no alto. As flores prpura e amarelas abriam as ptalas para receberem 
a luz do Sol. Adrienne rodou sobre os calcanhares e caminhou para a entrada da estalagem.
     O interior parecia o mesmo que encontrara no dia da chegada. Estava tudo no seu lugar. Tinha limpado a lareira no dia anterior e fizera uma pilha de cavacos 
ao lado; as cadeiras de balouo tinham sido recolocadas nos lugares onde pertenciam. O balco da entrada parecia ordenado, sem nenhuma chave fora do stio.
     130
     131
     
     Contudo, o cheiro ainda se mantinha. O cheiro do pequeno-almoo que haviam tomado juntos, o cheiro da loo que ele usava, o cheiro dele que lhe impregnava 
as mos, o rosto e a roupa.
     Aquilo foi demasiado para Adrienne, pois os rudos da estalagem de Rodanthe j no eram os mesmos. J se no ouviam ecos das conversas calmas, ou o som da gua 
a correr pelos canos, ou o ritmo das passadas dele ao atravessar o quarto. Tambm j se no ouvia o rebentar das ondas, o rugir incessante da tempestade ou os estalidos 
da lenha a arder na lareira. Em vez destes rudos, a estalagem fazia eco dos soluos de uma mulher que apenas pretendia o carinho do homem que amava, uma mulher 
que, para alm de chorar, nada mais podia fazer.
     DEZASSEIS
     Adrienne tinha acabado a sua histria e sentia a garganta seca. A despeito dos efeitos sedativos de um nico copo de vinho, sentia as costas doridas por estar 
sentada na mesma posio h demasiado tempo. Mudou de posio na cadeira e sentiu um assomo de dor, que reconheceu como um princpio de artrite. Uma vez em que mencionara 
aquela dor ao mdico, ele obrigara-a a sentar-se em cima da mesa, numa sala que cheirava a amonaco. Tinha-lhe alado os braos, mandara-a dobrar os joelhos e passou 
uma receita que ela nunca se deu ao cuidado de aviar. Disse para si mesma que a situao ainda no era grave; alm do mais, tinha uma teoria de acordo com a qual 
se comeasse a tomar comprimidos para uma dada doena, no tardariam a aparecer todos aqueles achaques que eram o tormento das pessoas da sua idade. A esses, no 
tardariam a seguir-se outros comprimidos, com todas as cores do. arco-ris, uns para tomar de manh, outros  noite, uns com a comida e outros em jejum, a exigirem 
um mapa colocado na porta do armrio dos remdios para evitar confuses. Era trabalho mal empregado.
     Amanda estava sentada  sua frente, de cabea descada para o peito. A me observava-a, sabendo que as perguntas no deixariam de surgir. Eram inevitveis, 
mas bem gostaria que no aparecessem j de seguida. Precisava de tempo para pr ordem nas ideias, de forma a poder concluir a tarefa que tinha iniciado.
     Estava satisfeita porque Amanda tinha concordado em falar com ela, ali em casa. J vivia nesta casa h mais de trinta anos e este era o seu lar, mais ainda 
do que a casa onde tinha passado a meninice.
     132
     133
     
     Havia algumas deficincias: muitas das portas careciam de afinao, a alcatifa do corredor estava a ficar muito gasta, os desenhos dos azulejos da casa de banho 
h muito que estavam fora de moda, mas havia algo de reconfortante em saber que podia encontrar o material de campismo no canto esquerdo do sto, ou que, chegando 
o Inverno, o aquecimento fazia disparar o disjuntor na primeira vez que fosse ligado. Esta casa tinha hbitos; tal como ela e supunha que, com o passar dos anos, 
os hbitos da casa e os dela se tinham misturado para lhe tornarem a vida mais estvel e estranhamente reconfortante.
     Passava-se o mesmo com a cozinha. H anos que tanto o Matt como o Dan a tentavam com ofertas de remodelaes e, na altura do seu ltimo aniversrio, tinham 
trazido um mestre-de-obras para avaliar o que era preciso fazer. Este tinha batido nas portas, enterrado a chave de parafusos nos cantos rodos dos armrios, andara 
a acender e a apagar todas luzes e at soltara um pequeno assobio quando viu o fogo antiquado em que ela continuava a cozinhar. No final, tinha recomendado a substituio 
de quase tudo, deixado uma estimativa de custos e uma lista de referncias. Embora soubesse que as intenes dos filhos tinham sido excelentes, disse-lhes que o 
melhor era pouparem o dinheiro para o gastarem em coisas de que as suas famlias precisassem.
     Alm do mais, gostava da sua velha cozinha. Depois de transformada, perderia o seu carcter e ela apreciava as recordaes que tinham sido ali forjadas. Afinal, 
fora na cozinha que tinham passado a maior parte da sua vida de famlia, antes e depois da sada do Jack. Os midos tinham feito os trabalhos de casa na mesa onde 
agora se encontravam; durante anos, o nico telefone que havia na casa estava colocado na parede da cozinha e ainda se recordava das alturas em que dava com o fio 
a passar pela greta da porta das traseiras, sempre que um dos midos fazia o que podia na tentativa de conseguir alguma privacidade para telefonar do alpendre. Num 
dos barrotes das prateleiras da despensa ainda podiam ver-se as marcas a lpis, que indicavam a altura de cada um dos filhos nas datas indicadas, e nem se imaginava 
a desfazer-se daquela preciosidade por troca com algo de novo e melhorado, por muito bonito que fosse. Ao contrrio da sala, com a televiso sempre alta, ou dos
     quartos para :onde cada um se retirava quando queria estar s, esta era a nica diviso da casa onde todos vinham para falar e para ouvir, para aprender e para 
ensinar, para rir e para chorar. Este era o lugar da casa que mais se adaptava  ideia do que deve ser um lar; este era o lugar em que Adrienne sempre se sentira 
mais alegre e mais feliz.
     E este era o lugar onde Amanda iria saber quem era realmente a sua me.
     Adrienne bebeu o resto do vinho e empurrou o copo para o lado. Tinha deixado de chover, mas as gotas de gua que tinham ficado nos vidros das janelas pareciam 
fazer inflectir a luz de uma forma que tornava o mundo exterior diferente, um lugar que ela reconhecia com dificuldade. O que no a surpreendia;  medida que envelhecia, 
descobriu que, logo que deixava o pensamento deslizar para o passado, tudo  sua volta parecia modificar-se. Esta noite, ao contar a sua histria, teve a sensao 
de que o tempo voltara para trs e, embora achasse a ideia ridcula, ficou a magicar se a filha teria notado aquela nova juventude de que se sentia possuda.
     No, decidiu, certamente no notou, mas esse era um problema da idade da Amanda. Para a filha, conceber a ideia de vir a ter 60 anos era to difcil como convencer-se 
de que podia transformar-se num homem; em certas ocasies, Adrienne punha-se a pensar se Amanda alguma vez chegaria a perceber que, na sua maior parte, as pessoas 
no so assim to diferentes umas das outras. Jovem ou idoso, masculino ou feminino, quase toda a gente que conhecia desejava as mesmas coisas: queriam sentir o 
corao em paz, queriam uma vida sem sobressaltos, queriam ser felizes. A diferena, pensava Adrienne, era que, na sua maioria, os jovens pareciam pensar que aquelas 
coisas os esperavam num ponto qualquer do futuro, enquanto boa parte dos idosos acreditava que elas faziam parte do passado.
     A ideia tambm se lhe aplicava, pelo menos em parte, mas, por mais maravilhoso que o passado pudesse ter sido, recusava deixar-se prender nos seus meandros, 
como acontecia com muitas pessoas
     134
     135
     
     suas amigas. U passado no fora apenas um jardim' inundado de luz e coberto de rosas; o passado inclua tambm uma boa dose de desgostos. Era o que sentia no 
momento em que chegara  estalagem acerca dos efeitos que os actos do Jack estavam a ter sobre a sua vida e, agora, pensava o mesmo acerca de Paul Flanner.
     Esta noite iria chorar mas, como prometeu a si mesma no dia em que ele partiu de Rodanthe, Adrienne no se deixaria abater. Era uma sobrevivente, como o pai 
tinha dito inmeras vezes e, embora saber isso lhe desse uma certa satisfao, no chegava para eliminar as dores e os desgostos.
     Nesta altura da vida tentava concentrar-se nas coisas que lhe davam prazer. Adorava observar os netos nas suas tentativas de descoberta do mundo, adorava visitar 
amigos e saber como  que eles estavam a passar, acabara at por apreciar os dias que passava a trabalhar na biblioteca.
     O trabalho no era difcil - agora estava a trabalhar na seco de referncias especiais, cujos livros no podiam ser levados para fora da biblioteca - e podia 
passar horas sem que os seus servios fossem necessrios, o que lhe dava muitas oportunidades de ficar a observar as pessoas que passavam pelo vestbulo imaculado 
do edifcio. Com o passar dos anos, observar pessoas tornara-se um divertimento. Ao ver os leitores sentados em silncio naquelas salas, no conseguia deixar de 
imaginar como seriam as suas vidas. Dava consigo a magicar se determinada pessoa era casada ou o que fazia para ganhar a vida, em que cidade vivia, quais os livros 
que lhe podiam interessar e, uma vez por outra, tinha a oportunidade de descobrir que uma sua observao estava correcta. A pessoa podia vir pedir-lhe ajuda para 
encontrar um certo livro, possibilitando o incio de uma conversa amigvel. Era frequente que as suas conjecturas andassem bastante perto da verdade, o que a deixava 
maravilhada.
     Uma vez por outra, aparecia algum interessado nela. H anos, esses homens eram quase sempre mais velhos do que ela; agora, tendiam a ser mais novos mas, mais 
velhos ou mais novos, o processo repetia-se. O homem em questo comeava por passar bastante tempo na seco de referncias especiais, fazia uma srie de perguntas, 
primeiro sobre livros, depois sobre assuntos de carcter
     mais genrica!, para, finalmente, chegar s perguntas sobre a bibliotecria. No- se importava de lhes responder e, embora nunca tentasse seduzi-los, a maioria 
acabava por convid-la a sair. Porm, mesmo que tais propostas a envaidecessem sempre, no fundo sabia que, por mais maravilhoso que o pretendente se mostrasse, por 
mais que ela pudesse apreciar a companhia dele, nunca conseguiria abrir-lhe o corao da maneira como, em tempos, fizera.
     Aqueles dias passados em Rodanthe ainda provocaram outras alteraes na sua maneira de ser. O tempo passado na companhia de Paul tinha curado as feridas deixadas 
pelos sentimentos de perda e de traio inerentes ao divrcio, substituindo-os por algo mais forte e mais digno. Saber-se digna de ser amada ajudou-a a andar de 
cabea levantada e, na medida em que a sua autoconfiana aumentou, passou a ser capaz de falar com Jack sem subterfgios nem insinuaes, sem os complexos de culpa 
e de remorso que, antes, estavam sempre presentes nas conversas entre ambos. Tudo foi acontecendo gradualmente; quando ele telefonava para saber dos midos, comearam 
a conversar durante alguns minutos antes de ela passar o telefone aos filhos. Mais tarde, comeara a fazer-lhe perguntas acerca de Linda e do trabalho, ou a contar-lhe 
o que tinha andado a fazer nos ltimos tempos. Pouco a pouco, Jack parecia compreender que ela j no era a pessoa que costumava ser. As conversas tornaram-se mais 
amigveis com a passagem dos meses e dos anos, chegando ao ponto em que telefonavam um ao outro s para conversarem um pouco. Quando o casamento com a Linda comeou 
a desmoronar-se, passavam horas ao telefone, por vezes de noite. Quando Jack e Linda se divorciaram, Adrienne esteve presente para o ajudar a ultrapassar o desgosto 
e at deixava que ele ficasse no quarto de hspedes quando vinha ver os filhos. Ironicamente, Linda deixou-o para ir viver com outro homem. Adrienne recordava-se 
de estar sentada na sala em companhia do Jack, que fazia rodar nas mos um copo de usque. J passava da meia-noite e havia horas que falavam disto e daquilo, at 
que, finalmente, Jack pareceu aperceber-se da pessoa com quem estava a falar.
     - Tambm te sentiste assim magoada? - perguntou.
     - Claro - respondeu Adrienne.
     136
     137
     
     -De quanto tempo  que precisaste para ultrapassares a questo?
     - Trs anos. Mas tive sorte.
     Jack aquiesceu. Ficou a olhar para a bebida, de lbios cerrados. - Lamento - acabou por dizer. - Sair por aquele porta foi a
     coisa mais estpida que fiz em toda a minha vida.
     Adrienne sorriu e deu-lhe uma palmadinha no joelho.
     - Eu sei. De qualquer modo, obrigada por reconheceres isso. Isto passara-se cerca de um ano antes de Jack a ter convidado a
     sair com ele. E, como costumava fazer com todos os outros, Adrien
     ne respondeu-lhe polidamente que no.
     Adrienne levantou-se, foi buscar a caixa que tinha trazido consigo do quarto e voltou a sentar-se  mesa. Chegada quele ponto, Amanda observava a me com uma 
espcie de fascnio prudente. Adrienne estendeu a mo para acariciar a da filha.
     Ao faz-lo, verificou que, num ponto qualquer da conversa que mantinham h horas, Amanda se tinha apercebido de que no conhecia a me to profundamente quanto 
julgava. Tratava-se, pensou Adrienne, de uma espcie de inverso de papis. Amanda mostrava a mesma expresso que Adrienne mostrara tantas vezes, sempre que os filhos 
se juntavam durante as frias e diziam piadas acerca de muitas das coisas que tinham feito quando eram mais novos. S h uns dois anos soubera que Matt costumava 
escapar-se do quarto para andar fora de casa, at altas horas, com os amigos, ou que Amanda tinha comeado a fumar e tinha deixado o vcio, tudo no primeiro ano, 
ou que fora o Dan o causador do incndio da garagem, sem grandes consequncias, que fora atribudo a um aparelho elctrico defeituoso. Tinha-se divertido imenso 
com eles, sem deixar de sentir-se ingnua, e imaginava que Amanda estivesse agora a sentir o mesmo.
     Na parede, o relgio produzia o seu tiquetaque regular. O aquecimento deu um estalido ao entrar em funcionamento. Amanda respirou fundo.
     - Essa fji uma grande histria - disse.
     Enquanto falava, Amanda agarrava no copo com os dedos, fazendo o vinho rodar em crculos. A luz incidia sobre o vinho, mostrando a espuma.
     - O Matt e o Dan sabem disto? Quer dizer, tambm lhes contaste?
     - No.
     - Porqu?
     - Nem decidi se devem ou no saber - respondeu Adrienne, a sorrir. - Alm do mais, no sei se compreenderiam, quaisquer que fossem as minhas explicaes. Por 
um lado, so homens e sentem-se no dever de me protegerem. No quero que pensem que Paul se limitou a abusar de uma mulher solitria. Por vezes os homens so assim: 
conhecem uma mulher e apaixonam-se, considerando que se trata de amor verdadeiro, pouco interessando a rapidez com que se apaixonaram. Porm, se outro homem se apaixona 
por uma mulher por quem se interessam, nunca deixam de duvidar das intenes do estranho. Para te ser franca, duvido de que alguma vez venha a falar-lhes do caso.
     Amanda fez um gesto de concordncia, antes de perguntar:
     - Ento, por que motivo me escolheste para confidente?
     - Porque achei que necessitavas de ouvir a histria.
     Com ar ausente, Amanda comeou a enrolar uma madeixa de cabelo entre os dedos. Adrienne ficou a matutar se aquele seria um gesto transmitido por via gentica 
ou se teria sido aprendido a observar a me.
     -Mam?
     - O que ?
     - Por que  que no nos falaste dele? No me lembro de o teres sequer mencionado.
     - No podia.
     - Por que razo?
     Adrienne recostou-se na cadeira e respirou fundo.
     -De incio, acho que tive receio de no se tratar de amor duradouro. Sabia que nos amvamos mas a distncia tem uma influncia esquisita sobre as pessoas e, 
antes de vos falar do caso, queria ter a certeza de a relao era para durar. Depois, quando
     138
     139
     
     comecei a receber cartas dele e soube que seria... nem sei... pareceu-me que passaria muito tempo antes que o pudessem conhecer e no vi interesse em...
     Interrompeu-se para escolher as palavras seguintes com todo o cuidado.
     - Tambm tens de compreender que no s a mesma pessoa que eras na altura. Tinhas 17 anos, Dan tinha apenas 15, e no podia ter a certeza de que estivessem 
preparados para ouvirem uma coisa destas. Sejamos francas, como  que te sentirias ao regressares de uma visita ao teu pai se eu te dissesse que estava apaixonada 
por algum que acabara de conhecer?
     - Teramos ultrapassado isso.
     Adrienne tinha as suas dvidas, mas resolveu no contrariar a filha. Em vez disso, encolheu os ombros.
     - Quem sabe? Talvez tenhas razo.  possvel que conseguisses aceitar uma coisa assim mas, na altura, no quis arriscar uma reprovao da tua parte. E, se tivesse 
de voltar ao princpio,  provvel que me comportasse da mesma maneira.
     Amanda mexeu-se na cadeira. Passados uns momentos enfrentou a me, olhos nos olhos.
     - Tens a certeza de que ele te amava? - perguntou. - Tenho.
     Na luz do entardecer, os olhos azuis da filha tinham reflexos esverdeados. Fez um sorriso doce, como se tentasse tocar num ponto sensvel sem magoar a me.
     Adrienne sabia o que a filha ia perguntar-lhe a seguir. Era,
     segundo pensou, a nica pergunta que fazia sentido.
     Amanda inclinou-se para diante, a olhar a me com preocupao. - Ento, onde  que ele est?
     Nos catorze anos decorridos desde que viu Paul Flanner pela ltima vez, Adrienne foi a Rodanthe cinco vezes. A primeira viagem tinha sido em junho do mesmo 
ano e, embora a areia parecesse mais branca e o oceano s se encontrasse com o cu no horizonte
     distante,' 4as visitas seguintes durante os meses de Inverno, quando a paisagem era cinzenta e fria, sabendo que assim recordaria muito melhor o passado.
     Depois de Paul ter partido, incapaz de ficar estar quieta, Adrienne errou pela casa durante toda a manh. O movimento parecia-lhe a nica maneira de no se 
deixar abater pelos sentimentos. Para o final da tarde, quando o crepsculo vestia o cu com vus de vermelho e laranja, tinha sado e ficara a apreciar o colorido, 
a tentar localizar o avio em que Paul estaria, a caminho do Equador. As possibilidades de o ver eram itifinitesimais mas, mesmo assim, ficara c fora, a arrefecer 
 medida que caa a noite. Por entre as nuvens, aparecia de vez em quando o rasto de um jacto, mas a lgica dizia-lhe que os rastos pertenciam a avies estacionados 
na base naval de Norfolk. Quando se decidiu a ir para dentro de casa, tinha as mos dormentes, de tal maneira que teve de pr a gua quente a correr no lava-loua 
para as mergulhar. Mesmo admitindo que ele tinha partido, ps a mesa para duas pessoas.
     Num recanto da mente albergava uma certa esperana de que ele regressasse. Enquanto jantava, imaginou-o a entrar pela porta da frente e a libertar-se dos sacos 
de viagem, explicando que no poderia partir sem que passassem outra noite juntos. Partiriam os dois no dia seguinte ou no outro, diria ele, e poderiam seguir pela 
estrada na direco do norte, at  curva de acesso  rua onde ela morava.
     Mas no veio. A porta da frente no foi empurrada, o telefone nunca tocou. Por mais que desejasse t-lo ali, Adrienne soube sempre que tivera razo quando o 
estimulara a partir. Um dia mais no tornaria a partida mais fcil, outra noite apenas significava que teriam de se despedir outra vez, como se no bastasse o primeiro 
adeus, to difcil. Nem queria imaginar-se a ter de proferir novamente aquelas palavras, nem podia conceber a ideia de reviver outro dia como o que estava prestes 
a acabar.
     Na manh seguinte, comeou a limpeza da estalagem, executando calmamente as rotinas necessrias. Lavou a loua e assegurou-se de que estava tudo seco e arrumado. 
Limpou as alcatifas com o aspirador, varreu a areia que tinha invadido a cozinha e a vereda da entrada, limpou o p do corrimo e do candeeiro da sala,
     140
     141
     
     acabando a trabalhar no quarto da Jean at ficar convencida de que deixava as coisas como as tinha encontrado no dia em que chegara.
     Depois, levando a mala pela escada acima, abriu a porta do quarto azul.
     No tinha l entrado desde a manh, desde a hora em que Paul partira. A luz da tarde desenhava prismas nas paredes. Ele tinha feito a cama antes de descer, 
mas no parecera aperceber-se da necessidade de a fazer bem feita. Havia pequenas bossas por debaixo do edredo nos stios onde o cobertor ficara enrugado, o lenol 
de cima estava  vista e nalguns pontos quase tocava o cho. Na casa de banho havia uma toalha pendurada no varo da cortina, alm de mais duas deixadas a monte 
junto do lavatrio.
     Ficou de p, junto da porta, a observar tudo at que respirou fundo e pousou a mala. Quando o fez, viu, em cima da escrivaninha, a carta que Paul lhe deixara. 
Pegou nela e, lentamente, sentou-se na borda da cama. Na quietude daquele quarto onde se tinham amado, leu o que ele tinha escrito na manh anterior.
     Quando acabou, Adrienne baixou a mo que segurava a carta e deixou-se ficar sentada, sem se mexer, a imagin-lo ali sentado, a escrever-lhe. Depois, dobrando 
a carta com todo o cuidado, meteu-a na mala de viagem, juntamente com o bzio. Quando Jean chegou, horas mais tarde, Adrienne estava encostada ao corrimo do alpendre 
das traseiras, a olhar para o cu.
     Jean apareceu com a exuberncia habitual; contente por ver a Adrienne, contente por estar de regresso a casa, falando sem cessar do casamento e do velho hotel 
de Savannah onde tinha ficado. Adrienne deixou-a contar as histrias sem a interromper e, depois do jantar, disse  amiga que gostava de ir dar uma volta pela praia. 
Felizmente, Jean declinou o convite para a acompanhar.
     Quando regressou, Jean estava no quarto a esvaziar a mala, e Adrienne aproveitou para preparar um ch e foi sentar-se junto da lareira. J estava h um bocado 
a descansar, quando ouviu Jean a dirigir-se  cozinha.
     - Onde  que tu ests? - chamou Jean. - Estou aqui - respondeu Adrienne. Jean entrou na sala segundos depois.
     - Terei ouvido o assobio da chaleira ou foi impresso minha?
     - Acab d preparar uma chvena.
     - Desde quando  que tu bebes ch?
     Adrienne soltou uma pequena gargalhada, mas no deu resposta.
     A amiga sentou-se na outra cadeira. L fora, a Lua subia no cu, ntida e brilhante, fazendo a areia brilhar com a cor das panelas e frigideiras antigas.
     - Esta noite pareces-me muito calada - observou Jean.
     - Desculpa - justificou-se Adrienne. - S estou um pouco cansada. Parece-me que estou mesmo pronta para regressar a casa.
     -Acredito. Comecei a contar*, os quilmetros logo que sa de Savannah, mas felizmente no apanhei muito trnsito. No estamos na poca, como sabes. - Adrienne 
aquiesceu. Jean recostou-se na cadeira. - Correu tudo bem com o Paul Flanner? Espero que a tempestade no lhe tenha arruinado a viagem.
     Ouvir o nome dele provocou um espasmo na garganta de Adrienne, mas tentou aparentar calma. - No penso que a tempestade o tenha afectado minimamente - respondeu.
     - Como  que ele ? A julgar pela voz, achei-o um bocado pedante.
     - No, de maneira nenhuma. Foi... simptico.
     - Foi esquisito, estares aqui sozinha com ele?
     - No. No, desde que me habituei  ideia.
     Jean ficou a ver se Adrienne acrescentava qualquer outro pormenor, mas a amiga no disse mais nada.
     - Bem... - continuou Jean. - E no tiveste problemas a entaipar a casa.
     - No.
     - Ainda bem. Agradeo o favor que me fizeste. Sei que estavas  espera de um fim-de-semana descansado, mas parece-me que o Destino resolveu pregar-te uma partida, 
no foi?
     -Acho que no. - Talvez fosse a maneira como falou que provocou aquele olhar da Jean, aquela curiosa expresso na cara dela. Subitamente, precisando de ar, 
Adrienne acabou de beber o ch. - Jean, odeio-me por te fazer isto - disse, a esforar-se ao mximo para a voz lhe soar natural -, mas acho que a minha noite acaba 
aqui. Estou cansada e amanh tenho um longo caminho a percorrer. Fiquei contente por saber que te divertiste nesse casamento.
     142
     143
     
     Ante a forma abrupta como a amiga deu o sero por findo, Jean arqueou ligeiramente as sobrancelhas.
     - Oh... muito bem, obrigada - respondeu. - Boa noite.
     Adrienne sentiu-se atingida pela expresso de dvida de Jean, mesmo quando j ia a subir a escada. Depois de abrir a porta do quarto azul, despiu a roupa e 
arrastou-se para a cama, nua e sozinha.
     O cheiro de Paul tinha ficado na almofada e nos lenis; quase sem dar por isso, contornou os seios com os dedos enquanto aspirava aquele cheiro e ficou assim, 
a combater o sono at no poder aguentar mais. Na manh seguinte, depois de se levantar, fez caf e foi dar outro passeio pela praia.
     Encontrou dois casais na meia hora que passou ao ar livre. Uma corrente quente fizera subir a temperatura na ilha, o que ia atrair ainda mais pessoas para a 
beira-mar.
     Paul j deveria estar na clnica e ela bem gostaria de saber como seria o local. Tinha uma imagem na cabea, algo que tinha visto num desses canais que passam 
filmes sobre o mundo natural; uma srie de construes de m qualidade, rodeadas pela floresta que ameaava engolir tudo, sulcos profundos em estradas de terra batida, 
o chilrear de aves exticas como msica de fundo, mas no fazia ideia se a viso era a mais correcta. Gostaria de saber se ele j tinha falado com Mark, como teria 
corrido o encontro e se Paul, como sucedia com ela, estava ainda a reviver mentalmente o fim-de-semana.
     A cozinha estava vazia quando regressou. Viu o aucareiro destapado e uma chvena vazia junto da mquina de caf. Ouviu sons abafados no andar de cima, algum 
que cantarolava.
     Seguiu o som e, ao atingir o primeiro andar, viu a porta do quarto azul aberta. Aproximou-se mais, abrindo a porta completamente, e viu a Jean a entalar o ltimo 
canto de um lenol lavado. Os lenis usados, os lenis que tinham envolvido o corpo dela e de Paul, tinha sido amarfanhados e atirados para o cho.
     Adrienne ficou a olhar para os lenis, sabendo que o seu desgosto era ridculo, mas apercebendo-se, de sbito, de que teria de decorrer pelo menos um ano at 
que voltasse a sentir o cheiro de Paul Flanner. Inspirou ruidosamente, a tentar conter um soluo.
     Jean foi surpreendida pelo som e voltou-se, de olhos esbugalhados.
     - Adrienne? - perguntou. - Sentes-te bem?
     Mas Adrienne no pde responder-lhe. S conseguiu levar as mos s faces, consciente de que, a partir daquele preciso momento, iria marcar no calendrio os 
dias que faltavam para o regresso de Paul.
     - Paul - respondeu Adrienne - est no Equador. Conseguiu dizer aquilo com uma voz que a surpreendeu pela
     firmeza.
     - No Equador - repetiu Amanda. Ficou a matraquear a mesa
     com os dedos e a olhar para a me. - Por que  que no voltou? - No pde.
     - Porqu?
     Em vez de responder, a me levantou a tampa da caixa que
     trouxera do quarto. Tirou de l uma folha de papel que, a Amanda,
     pareceu ter pertencido a um caderno escolar. Dobrada, tinha ama
     relecido com a idade. Amanda viu o nome da me escrito na frente. - Antes de te contar - continuou Adrienne -, quero respon
     der  outra pergunta que fizeste.
     - Que outra pergunta? A me sorriu.
     - Perguntaste-me se tinha a certeza de que o Paul me amava.
     - Dito isto, empurrou a folha de papel na direco da filha. Este  o bilhete que me deixou no dia da partida.
     Amanda hesitou antes de pegar na folha de papel, mas depois
     desdobrou-a lentamente. Com a me a observ-la do outro lado da
     mesa, comeou a ler.
     "Querida Adrienne,
     esta manh, no estavas ao meu lado quando acordei e, embora conhea o motivo de j no estares ali, desejei que estivesses. Sei que estou a ser egosta, mas 
suponho que esse  um dos traos do meu carcter de que no me libertei, a nica constante de toda a minha vida.
     Se leres este bilhete,  sinal de que parti. Quando acabar de o escrever, vou descer a escada e pedir-te para ficar junto de ti mais algum tempo, mas no alimento 
iluses quanto  resposta que vais dar-me.
     144
     145
     
     isto mio  um adeus e no quero que penses, nem porum instante, que essa  a finalidade desta carta. Em vez disso, digo-te que vou encarar este ano que temos 
pela frente como uma oportunidade de te conhecer ainda melhor J ouvi falar de pessoas que se apaixonam atravs de cartas e, embora i estejamos apaixonados, isso 
no quer dizer que o nosso amor no possa ser ainda mais profundo, pois no? Gostaria de pensar que tal  possvel e, se queres saber a verdade, essa convico  
a nica que me poder ajudar a passar este prximo ano sem a tua companhia.
     Fecho os olhos, vejo-te a caminhar pela praia no primeiro sero que passmos juntos. Com os relmpagos a iluminarem-te o rosto, estavas incrivelmente bonita 
e penso que essa foi uma das razes que me levaram a abrir-me contigo, contando-te coisas que nunca tinha contado a ningum. Porm, no fui motivado apenas pela 
tua beleza. Foi por tudo o que
      pela tua coragem e pela tua paixo, pela sabedoria cheia de bom senso com que encaras o mundo. Julgo que senti em ti estas qualidades logo da primeira vez 
em que tommos caf juntos e, se assim pode dizer-se, quanto melhor te conhecia mais sentia a falta dessas qualidades na minha prpria vida. Tu s uma preciosidade 
difcil de encontrar, Adrienne, e sinto-me um homem feliz por ter tido a oportunidade de te conhecer.
     Espero que estejas bem. Ao escrever-te esta carta, sei que no estou. Dizer-te adeus hoje  a tarefa mais difcil de toda a minha vida; quando regressar, posso 
honestamente jurar que nunca mais voltarei a faz-lo. Amo-te por tudo o que partilhmos e j te amo, por antecipao, por tudo o que ainda temos para viver. Conhecer-te 
foi a melhor coisa que alguma vez me sucedeu. J estou a sentir a tua falta mas, do fundo
             corao, penso que estars sempre comigo. Nos poucos dias que passei contigo, transformaste-te no meu sonho.
     Paul"
      ano que se seguiu  partida de Paul, no teve paralelo em nenhum dos outros anos da vida de Adrienne.  superfcie, tudo continuou na mesma. Participava activamente 
da vida dos filhos, ia ver o pai todos os dias, trabalhava na biblioteca, como fazia antes. No entanto, sentia um novo bem-estar, alimentado pelo segredo que transportava 
consigo e a sua nova maneira de encarar a vida
     no passou despercebida s pessoas que estavam  sua volta. Sorria com mais frequncia, comentavam as pessoas, e at os filhos notavam uma vez por outra que 
a me fazia passeios depois do jantar e que por vezes passava uma hora a deliciar-se na banheira, ignorando o tumulto que se desencadeava  sua volta.
     Nesses momentos pensava sempre no Paul, mas a imagem dele era mais real sempre que via a carrinha do correio a subir a rua, parando e voltando a arrancar a 
cada entrega.
     O carteiro chegava habitualmente entre as dez e as onze horas da manh; Adrienne ficava por detrs das cortinas, a ver a carrinha parar em frente da sua porta. 
Corria para a caixa do correio logo que a carrinha arrancava, fazia uma escolha rpida entre aquele molho de sobrescritos,  procura dos sinais caractersticos das 
cartas dele: os sobrescritos de correio areo de cor bege seus preferidos, selos postais que mostravam um mundo de que ela no sabia nada, o nome dele rabiscado 
no canto superior esquerdo.
     Quando chegou a primeira carta, leu-a no alpendre das traseiras. Logo que acabou a leitura, recomeou do princpio e leu-a uma segunda vez, mas mais devagar, 
com pausas frequentes para meditar sobre o que lia. Fez o mesmo com cada uma das cartas subsequentes e, como continuaram a chegar com regularidade, percebeu que 
a mensagem transmitida pelo bilhete de despedida de Paul era verdadeira. Embora no fosse to agradvel como estar a v-lo ou a sentir-se enlaada nos seus braos, 
a paixo contida nas palavras concorria, de certa forma, para encurtar a distncia entre eles.
     Adorava imaginar como seria a expresso dele ao escrever as cartas. Imaginava-o a escrever numa secretria desconjuntada, com uma nica lmpada a iluminar-lhe 
a face cansada. Gostaria de saber se ele escrevia depressa, se as palavras fluam sem interrupo, ou se tinha de parar de vez em quando, de olhos no infinito, a 
pr os pensamentos em ordem. A imagem no era sempre a mesma, umas vezes tomava uma forma, que podia ser alterada pela carta seguinte, tudo a depender do que ele 
tinha escrito. Era frequente que Adrienne interrompesse a leitura e fechasse os olhos, a tentar adivinhar o estado de esprito do Paul no momento em que escrevia 
a carta.
     146
     147
     
     Escrevia-lhe de volta, para responder a perguntas e para lhe contar o que se passava na sua vida. Nessas alturas, quase conseguia v-lo a seu lado; se a brisa 
lhe agitava o cabelo, era como se Paul lhe estivesse a acariciar as madeixas com as pontas dos dedos, se ouvia o tiquetaque de um relgio, associava-o s batidas 
do corao, que ouvia quando pousava a cabea no peito dele. Contudo, logo que pousava a caneta, o pensamento fugia-lhe sempre para os ltimos momentos que tinham 
passado juntos: abraados na vereda de acesso  estalagem, o roar suave dos lbios dele, a promessa de que a separao era apenas por um ano, que depois ficariam 
juntos para sempre.
     Paul tambm lhe telefonava com frequncia, sempre que tinha oportunidade de ir  cidade mais prxima, mas ouvir a ternura da sua voz provocava-lhe sempre um 
aperto no corao. O mesmo acontecia com o som das suas gargalhadas ou com o tom magoado quando lhe falava das saudades que tinha dela. Telefonava durante o dia, 
quando os filhos estavam na escola, e sempre que ouvia o telefone tocar, esperava um pouco antes de atender, na expectativa de que fosse ele. As conversas no eram 
longas, raramente atingiam os vinte minutos, mas, juntamente com as cartas, permitiram-lhe suportar os meses que se seguiram.
     Na biblioteca comeou a fotocopiar pginas de uma grande variedade de livros onde se falava do Equador; tudo, da geografia  histria do pas, qualquer coisa 
que lhe despertasse a ateno. Numa ocasio em que uma revista de viagens publicou um artigo sobre a cultura local, comprou a revista e ficou sentada durante horas, 
a estudar as fotografias e praticamente a decorar o texto, a tentar aprender tudo o que pudesse sobre as pessoas com quem Paul estava a trabalhar. Algumas vezes, 
mesmo sem querer, punha-se a imaginar se alguma das mulheres de l o olhava com o mesmo desejo que ela sentira, concluindo ser provvel que isso acontecesse com 
algumas.
     Tambm passava os olhos pelos microfilmes de jornais e revistas sobre Medicina,  procura de informaes sobre a vida de Paul em Raleigh. Nunca lhe falou destas 
pesquisas - nas cartas ele fazia referncia a essa parte da sua vida, afirmando que no pretendia voltar a ser aquela pessoa - mas sentia-se curiosa. Encontrou o
     artigo publicado no Wall Street Journal, com um desenho dele a seguir ao ttulo. No artigo dizia-se que tinha 38 anos e, ao analisar o desenho, viu pela primeira 
o aspecto dele quando era mais jovem. Embora tivesse reconhecido a gravura imediatamente, havia algumas diferenas notrias: o cabelo mais escuro com risco ao lado, 
o rosto sem rugas, a expresso demasiado sria, quase dura. Ficou a reflectir no que ele pensaria agora daquele artigo, ou se lhe daria qualquer importncia.
     Tambm descobriu algumas fotografias dele em nmeros antigos do Raleigh News and Observer: a encontrar-se corn o governador ou a assistir  inaugurao de uma 
nova ala no Duke Medical Center. Reparou que no aparecia a sorrir em qualquer das fotografias. Aquele era, pensou, um Paul que no conseguia sequer imaginar.
     Em Maro, sem qualquer razo especial, Paul mandou que lhe entregassem rosas em casa, uma entrega que se repetiu durante os meses seguintes. Colocava as rosas 
na sala, partindo do princpio de que os filhos acabariam por dar com elas e por lhe falarem do assunto, mas eles andavam imersos nos seus prprios mundos e nunca 
o fizeram.
     Em junho voltou a Rodanthe para passar um fim-de-semana prolongado na companhia da Jean. Quando chegou, pareceu-lhe que Jean estava impaciente, como se ainda 
tentasse descobrir o que tinha preocupado a Adrienne da ltima vez que estivera na estalagem. Contudo, uma hora de alegre conversa foi o suficiente para fazer emergir 
a Jean de sempre. Adrienne fez vrios passeios pela praia durante o fim-de-semana, sempre  procura de bzios, mas nunca encontrou um que no tivesse sido partido 
pelas ondas.
     Quando regressou a casa, encontrou uma carta do Paul, com uma fotografia que o Mark lhe tinha tirado. Ao fundo via-se a clnica e Paul, embora mais magro do 
que seis meses antes, parecia de boa sade. Apoiou a fotografia de encontro ao saleiro e ao pimenteiro e respondeu-lhe de imediato. Na carta era-lhe pedida uma fotografia; 
percorreu os lbuns de fotografias da famlia at encontrar uma que achasse digna de lhe oferecer.
     O Vero foi quente e hmido; a maior parte de julho foi passada dentro de casa, com o ar condicionado em funcionamento; em Agosto, Matt foi para a universidade, 
enquanto Amanda e Dan iniciavam
     148
     149
     
     o seu ltimo ano na escola secundria. Quando as folhas das rvores comearam a amarelecer e a luz do sol de Outono se tornou mais suave, comeou a pensar em 
coisas que ela e Paul poderiam fazer, quando ele regressasse. Pensou em ir ao Biltmore Estate, em Asheville, para observar as decoraes de Natal; ficou a imaginar 
o que os filhos pensariam dele quando o vissem aparecer para a ceia de Natal, ou o que faria a Jean quando, logo a seguir ao Ano Novo, ela marcasse um quarto na 
estalagem, em nome dos dois. No tinha dvidas, pensou, de que a Jean receberia a notcia com ar perplexo. Conhecendo a Jean, achava que, para comear, no diria 
nada, preferindo exibir a sua expresso complacente, como se sempre tivesse sabido da histria e j estivesse  espera da visita do casal.
     Agora, ali sentada em frente da filha, Adrienne recordou aqueles planos, a meditar que, no passado, houvera momentos em que quase acreditara que eles tinham 
realmente acontecido. Costumava imaginar os cenrios com todos os pormenores mais vibrantes, mas, ultimamente, tinha resolvido parar com as encenaes. O desgosto 
que sofria depois de cada uma dessas fantasias deixava-lhe uma sensao de vazio e sabia que o seu tempo teria melhor aplicao a cuidar das pessoas que a rodeavam, 
as que ainda faziam parte da sua vida. No queria mais sentir o desgosto que aqueles sonhos provocavam. Porm, havia alturas em que, por melhores que fossem as suas 
intenes, no conseguia evit-los.
     - Caramba - murmurou Amanda quando acabou de ler o bilhete e o entregou  me.
     Adrienne voltou a dobr-lo segundo os vincos originais, p-lo de lado e entregou  filha a fotografia de Paul, a que Mark lhe tirara. - Este  o Paul - informou.
     Amanda pegou na fotografia. A despeito da idade, era mais bonito que imaginara. Analisou aqueles olhos que tanto pareciam ter agradado  me. Sorriu passados 
instantes.
     -Estou a ver o motivo de teres ficado pelo beicinho. Tens mais?
     - No,  a nica.
     Amanda no disse nada, voltou a estudar a fotografia.
     - Acho que me deste uma boa descrio dele - concluiu. Ele mandou-te alguma fotografia do Mark?
     - No, mas so parecidos - respondeu a mae. - Conheceste-o?
     - Conheci. - Onde? - Aqui.
     Amanda enrugou a testa. - Aqui, em casa?
     - Esteve sentado onde tu ests agora. - E onde  que ns estvamos? - Na escola.
     Amanda abanou a cabea, como se estivesse a tentar entender
     todas aquelas informaes novas.
     - A tua histria est a ficar confusa - concluiu.
     Adrienne desviou os olhos e, lentamente, levantou-se. Ao deixar
     a cozinha, murmurou:
     - Para mim tambm foi.
     Em Outubro, o pai de Adrienne tinha recuperado um pouco dos acidentes vasculares anteriores, embora as melhoras no fossem suficientes para que pudesse deixar 
a clnica. A filha nunca deixou de lhe fazer companhia, no se poupando a esforos para o fazer sentir-se mais confortvel.
     Graas a um controlo apertado das despesas, tinha conseguido poupar o suficiente para o manter internado at Abril, mas, a partir dessa altura no sabia o que 
fazer. Era uma situao delicada e fez tudo o que pde para que o pai no se apercebesse dos seus receios.
     Na maioria dos dias, encontrava o som do televisor muito alto, como se as enfermeiras do turno da manh achassem que o barulho poderia, graas a um qualquer 
mecanismo desconhecido, clarificar a neblina da mente do pai. A primeira coisa que fazia era desligar o aparelho. Para alm das enfermeiras, ela era a nica pessoa 
que
     150
     151
     
     visitava o pai todos os dias. Embora compreendesse a' relutncia dos filhos em virem ver o av, mesmo assim gostaria que eles viessem. No apenas pelo av, 
que bem gostaria de os ver, mas para o prprio bem deles. Sempre pensara que passar tempo com a famlia  importante, tanto nas alegrias como nas tristezas.
     O pai perdera a capacidade de falar, mas Adrienne sabia que ele compreendia o que lhe diziam. Com o lado direito do rosto paralisado, fazia um sorriso torcido 
que ela considerava afectuoso. Eram necessrias maturidade e pacincia para olhar para l das aparncias e ver o homem que ele tinha sido; embora os filhos a tivessem 
por vezes surpreendido com a demonstrao de tais qualidades, quase nunca se sentiam  vontade quando a me os forava a visitarem o av. Era como se olhassem para 
o av e vissem um futuro que se recusavam a admitir, que se assustassem ante a perspectiva de tambm virem a acabar assim.
     Adrienne chegava, ajeitava-lhe as almofadas ainda antes de se sentar, pegava-lhe na mo e conversava. Passava a maior parte do tempo a p-lo ao corrente dos 
acontecimentos mais recentes, da famlia, ou de como os midos estavam a comportar-se e o pai ficava a olhar para ela, com os olhos sempre postos no rosto da filha, 
a nica forma de comunicao silenciosa que tinha ao seu alcance. Sentada junto do pai, era inevitvel que se lembrasse da infncia, do odor da Aqua-Velva na cara 
do pai, do feno no estbulo do cavalo, do arranhar da barba quando o pai lhe dava o beijo de boas-noites, das palavras ternas que ele sempre usara desde os seus 
tempos de menina pequena.
     Foi visit-lo na vspera do Dia das Bruxas, sabendo o que tinha a fazer, achando que chegara a altura de o pai ficar a par do assunto.
     - H uma coisa que tenho de dizer-lhe - comeou. Depois, nas palavras mais simples que encontrou, falou-lhe de Paul e de quanto aquele homem era importante 
para ela.
     Quando acabou, ficou a magicar no que o pai pensaria acerca do que acabara de lhe contar. O pai tinha o cabelo branco e ralo, as sobrancelhas pareciam dois 
tufos de algodo.
     Ento, sorriu-se, aquele seu sorriso de esguelha e, embora no conseguisse emitir qualquer som, ela soube o que ele estava a tentar dizer-lhe.
     Sentiu o, n na garganta, inclinou-se sobre a cama, a apoiar a cabea no peito do pai. Com movimentos incertos da mo boa, o pai acariciou-lhe as costas. Por 
baixo do rosto, Amanda sentia as costelas do pai, agora frgeis e quebradias e a batida fraca do seu corao.
     - Oh, paizinho - murmurou -, tambm tenho muito orgulho em si.
     f
     Na sala, Adrienne foi at  janela e puxou as cortinas para os lados. A rua estava vazia e as lmpadas da iluminao pblica estavam rodeadas por halos. Algures, 
l longe, um co ladrou a um intruso, verdadeiro ou imaginrio.
     Amanda continuava na cozinha, embora Adrienne soubesse que a filha acabaria por vir procur-la. Apoiou os dedos na vidraa, o sero fora longo para ambas.
     O que  que ela e Paul tinham sido um para o outro? Mesmo agora, ainda no tinha a certeza. A situao que viveram no era fcil de definir. No fora seu marido, 
nem lhe prometera casamento; chamar-lhe namorado era fazer que a situao se assemelhasse a um capricho de adolescentes; amante s cobria uma parte dos sentimentos 
que tinham vivido juntos. Paul era a nica pessoa da sua vida que desafiava qualquer definio. Quantas pessoas, perguntava a si prpria, poderiam dizer o mesmo 
acerca de algum que conhecessem?
     Acima da sua cabea, a mancha redonda da Lua estava rodeada de nuvens escuras, que rolavam para leste com a brisa. Na manh seguinte, pensou, ia chover na zona 
costeira. Adrienne sabia que tinha razes para no mostrar as restantes cartas  filha.
     Que podia Amanda aproveitar de uma leitura daquelas? Quando muito, ficaria a saber pormenores da vida da clnica e sobre a maneira como Paul passava os dias? 
Ou da relao entre pai e filho, e sobre a forma como esta evoluiu? Tudo isso estava claramente explicado nas cartas, bem como os seus pensamentos e temores, mas 
nada disso tinha interesse para o que Adrienne contava poder demonstrar  filha. Os dados que tinha seleccionado seriam suficientes.
     152
     153
     
     No entanto, sabia que, mal a filha sasse, iria reler todas aquelas cartas uma vez mais, mesmo que o fizesse apenas por causa do que se passara nesta noite. 
 luz amarelada do candeeiro da mesa de cabeceira, correria o dedo pelas palavras, a saborear cada uma delas, pensando que valiam mais do que tudo o resto que lhe 
pertencia.
     Esta noite, a despeito da presena da filha, Adrienne estava s. Estaria sempre s. Sabia isso antes, enquanto estava na cozinha a contar a sua histria. Sabia-o 
agora que estava ali na sala, a olhar a rua atravs da janela. Por vezes, punha-se a pensar na pessoa que teria sido se o Paul nunca tivesse entrado na sua vida. 
Talvez tivesse voltado a casar-se e, mesmo suspeitando de que teria sido uma boa esposa, dava por si a pensar se teria conseguido arranjar um bom marido.
     No teria sido fcil. Alguns das s"as amigas divorciadas voltaram a contrair matrimnio. A maioria dos sujeitos com quem se casaram pareciam bastante simpticos, 
mas nenhum deles tinha semelhanas com o Paul. Talvez fossem parecidos com o Jack, nunca com o Paul. Acreditava que o romance e a paixo so possveis em qualquer 
idade, mas tinha ouvido o suficiente para saber que muitas relaes acabam por criar mais problemas do que aqueles que ajudam a solucionar. Quando tinha cartas a 
recordarem-lhe o tipo de homem que tinha perdido, Adrienne no queria contentar-se com o gnero de marido que as amigas estavam dispostas a aceitar. Qual seria o 
novo marido capaz de, por exemplo, escrever as palavras que Paul lhe escreveu na terceira carta, palavras que memorizou logo no dia em que as leu pela primeira vez?
     "Quando durmo, sonho contigo e, quando acordo, desejo ter-te nos meus braos. 0 tempo que vivermos separados mais no far do que convencer-me ainda mais, se 
tal for possvel, de que quero passar as noites que me restam ao teu lado e os meus dias contigo no corao. "
     Ou estas, da carta seguinte?
     "Quando estou a escrever-te, sinto o teu hlito, e imagino que sentes o meu quando ls o que escrevo. Tambm se passa o mesmo contigo? Estas cartas so agora 
parte de ns, parte da nossa histria, uma recordao
     eterna do que fizemos com a nossa vida. Agradeo-te por me teres ajudado a sobreviver este ano mas, ainda mais importante, agradeo-te, antecipadamente, por 
todos os anos futuros. "
     Ou at estas, depois de, no final do Vero, ele e Mark terem discutido, o que, como era inevitvel, o deixou deprimido.
     "Nos dias que passam desejo muitas coisas, mas, acima de tudo. gostaria que estivesses aqui comigo.  estranho, mas j no me recordo da ltima vez em que chorei, 
anta de te conhecer. Agora, segundo parece, tenho facilidade em fazer correr as lgrimas... mas tens uma maneira de demonstrar que os meus desgostos tm a sua utilidade, 
de explicar as coisas de modo a aliviares as minhas mgoas. s um tesouro, uma ddiva e, quando voltarmos a estar juntos, espero abraar-te at os meus braos ficarem 
to fracos que tenham de te soltar. Pensar em ti , quantas vezes, a nica coisa que me d vontade de continuar. "
     Ao olhar a face distante da Lua, Adrienne sabia a resposta. No, pensou, no voltaria a encontrar um homem como o Paul; sem deixar de apoiar a testa na vidraa 
fria da janela, sentiu a presena de Amanda atrs de si. Soltou um suspiro, sabendo que tinha chegado a hora de concluir a narrativa.
     - Estava assente que ele passaria o Natal aqui - contou Adrienne, numa voz to baixa que obrigou a filha a um grande esforo para a ouvir. - Eu tinha tudo preparado, 
reservei quarto num hotel - continuou - de modo a podermos passar a primeira noite juntos. At comprei uma garrafa de Pinot Grigio. - Teve de fazer uma pausa. - 
Nessa caixa que est em cima da mesa, h uma carta do Mark que explica tudo.
     - O que  que aconteceu?
     Sem sair do escuro, Adrienne voltou-se. Metade do rosto ficou na sombra e, ao ver aquela expresso na cara da me, Amanda sentiu um arrepio sbito.
     Adrienne no respondeu logo e quando o fez, as palavras pareceram flutuar na escurido.
     - No adivinhaste? - murmurou.
     154
     155
     
     DEZASSETE
     Amanda viu que a carta fora escrita no mesmo papel de apontamentos que Paul tinha usado para escrever o seu bilhete de despedida. Ao notar que as mos lhe tremiam 
ligeiramente, apoiou-as, abertas, sobre o tampo da mesa.
     Depois, inspirando profundamente, baixou os olhos para ler.
     "Querida Adrienne,
     depois de me sentar, apercebo-me de que nem sei como comear uma carta destas. Afinal, nunca nos encontrmos, embora a conhea atravs das descries do meu 
pai, o que no  bem a mesma coisa. Bem gostaria de poder dizer-lhe tudo pessoalmente mas, devido aos ferimentos que sofri, ainda no estou em condies de sair 
deste lugar. Portanto, aqui estou,  procura das palavras e sem saber se aquilo que escrevo ter algum significado para si.
     Peo desculpa por no ter telefonado mas, na altura, no lhe seria mais fcil ouvir o que vou agora dizer-lhe por escrito. Eu prprio estou ainda a tentar perceber 
tudo o que aconteceu e essa , em parte, uma das razes que me levam a escrever-lhe.
     Sei que o meu pai lhe falou de mim, mas julgo importante que conhea a histria segundo a minha perspectiva. A minha esperana  poder desta forma contribuir 
para que conhea melhor o homem que a amou.
     Tem de compreender que no tive um pai durante os meus anos de infncia e adolescncia.  claro que ele vivia l em casa, que no deixava que faltasse coisa 
alguma, tanto  minha me como a mim,
     mas nunca estava presente, a no ser para me repreender sempre que conseguia apenas um "Bom" em qualquer disciplina. Recordo que quando era mido a escola realizava 
uma feira anual de cincias e que participei todos os anos; porm, desde o jardim infantil at ao oitavo ano, o meu pai no foi l uma nica vez. Nunca me levou 
a um jogo de basebol, nem nunca jogou  bola comigo no quintal ou me acompanhou num passeio de bicicleta. Disse-me que lhe falou de algumas destas falhas, mas pode 
acreditar que foi tudo pior do que ele provavelmente lhe fez crer. Para ser honesto, devo dizer que quando vim para o Equador esperava nunca mais ter de lhe pr 
a iWsta em cima.
     Ento, ao contrrio de tudo o que se poderia pensar, resolveu vir para aqui, para estar junto de mim. Tem de perceber que sempre existiu no meu pai um fundo 
de arrogncia, que me habituei a detestar  medida que cresci, e pensei que a sua vinda teria a ver com isso. Dei comigo a imagin-lo a tentar, assim de repente, 
agir como um pai, a debitar conselhos de que eu no precisava e tambm no tencionava pedir-lhe. Ou a reorganizar a clnica com o fim de a tornar mais eficiente, 
ou a trazer consigo ideias brilhantes para nos tornar a vida mais cmoda num lugar como este. Ou at a querer ser pago de alguns favores que foi fazendo ao longo 
dos anos e a trazer consigo uma equipa numerosa de novos mdicos voluntrios, dispostos a trabalhar na clnica, sem deixar de se assegurar que toda a comunidade 
de jornalistas l da terra soubesse quem era o verdadeiro responsvel por todas essas boas aces. 0 meu pai sempre adorara ver o seu nome em letra de imprensa e 
tinha a exacta conscincia do que uma boa publicidade podia fazer por ele e pela clnica de que era dono. Na altura em que chegou, eu estava efectivamente a fazer 
as malas para voltar para casa, pronto para o deixar aqui sozinho. Tinha uma dzia de respostas preparadas, capazes de contradizerem tudo o que pensava que ele me 
poderia dizer. Desculpas? Acordou um bocado tarde. Prazer em ver-te? Bem gostaria de poder dizer o mesmo. Julgo que devemos falar? No acho que seja uma boa ideia. 
Em vez disso, limitou-se a dizer "ol" e, ao ver a minha expresso, virou as costas e seguiu. Foi o nosso nico contacto durante a primeira semana que c passou.
     No se registaram quaisquer mudanas bruscas. Esperei, durante meses, que ele resvalasse de novo para os seus velhos mtodos, pronto a saltar sobre ele e a 
chamar-lhe a ateno para o facto. Mas tal nunca
     156
     157
     
     aconteceu. Nunca se queixou do trabalho ou das condies, dava sugestes apenas quando lhe eram pedidas directamente e, embora ele nunca o admitisse, o director 
acabou por dizer que os novos remdios e equipamentos de que carecamos desesperadamente tinham sido doados pelo meu pai, que sempre insistira na necessidade de 
manter a oferta anonima.
     Julgo que o facto que mais apreciei foi ele nunca ter fingido que ramos o que no ramos. Durante meses no fomos amigos, nem o considerei como meu pai, mas 
nunca tentou modificar a minha opinio quanto a isso. No exerceu qualquer presso e penso que foi esse o principal motivo que me levou a abandonar a atitude continuada 
de defesa.
     Julgo que estou a tentar dizer que o meu pai estava mudado e que, pouco a pouco, comecei a verificar haver algo nele que merecia uma segunda oportunidade. E 
embora saiba que j estava algo modificado antes de a conhecer, penso que a senhora foi a principal causadora de ele se ter tornado o homem que foi. Antes de a conhecer 
andava em busca de qualquer coisa. E encontrou-a, sem dvida, quando a conheceu.
     0 meu pai passava o tempo a falar de si e apenas posso fazer uma ideia vaga de quantas cartas lhe ter escrito. Amava-a, mas tenho a certeza de que sabe isso. 
0 que talvez no saiba  que, antes de a senhora aparecer, estou inteiramente convencido de que ele no sabia o que significava amar algum. 0 meu pai conseguia 
realizar uma srie de coisas, mas estou convencido de que seria capaz de as trocar todas por uma vida junto de si. No me  fcil escrever estas coisas, considerando 
que ele foi casado com a minha me, mas julguei que a Adrienne gostaria de o saber. E, em parte, estou convencido de que ficaria satisfeito ao pensar que eu tinha 
compreendido o que a senhora significava para ele.
     De qualquer forma, a senhora transformou o meu pai e, graas a si, eu no trocaria a maneira como vivi este ltimo ano por nada deste mundo. No sei como conseguiu 
um resultado destes, mas fez do meu pai um homem de quem j sinto a falta. Salvou-o e, ao faz-lo, penso que de certa maneira tambm me salvou a mim.
     Sabe, ele teve de se deslocar  clnica secundria, nas montanhas, por minha causa. 0 tempo estava terrvel naquela noite. Chovia h vrios dias e as estradas 
tinham desaparecido por debaixo de torrentes de
     lama. Quando comuniquei pela rdio que no podia regressar porque o meu jipe no pegava, alm de que estava iminente um desabamento de terras, ele resolveu 
pegar no outro jipe - apesar dos protestos veementes do director - para tentar chegar junto de mim. 0 meu pai veio salvar-me e, quando vi que era ele quem vinha 
a conduzir, julgo que foi a primeira vez em que o encarei como meu pai. At quele momento sempre fora o meu progenitor, no o meu pai, se  que me fao entender.
     Conseguimos sair de l mesmo a tempo. Passados uns minutos, ouvimos o estrondo de um dos lados da montanha a desabar, destruindo a clnica instantaneamente 
e recordo-me de termos olhado um para o outro, quase no querendo acreditar que estivssemos salvos.
     Gostaria de lhe poder contar o que depois correu mal, mas no consigo. 0 meu pai conduzia com cuidado e quase conseguimos fazer o caminho de regresso. At cheguei 
a ver as luzes da clnica, mais abaixo, no vale. Porm, ao dobrarmos uma curva apertada, o jipe comeou subitamente a deslizar e logo a seguir percebi que estvamos 
fora da estrada e aos tombos pela montanha abaixo.
     Para alm de um brao e algumas costelas partidas, no fiquei ferido com gravidade, mas apercebi-me de imediato que o mesmo no sucedera com o meu pai. Lembro-me 
de lhe pedido que se aguentasse, que ia  procura de socorro, mas agarrou-me a mo e obrigou-me a ficar quieto. Julgo que tambm soube que o fim estava prximo e 
quis ter-me junto de si.
     Nesse momento, aquele homem que me tinha salvado a vida, pediu-me perdo.
     Ele amava-a, Adrienne. Nunca se esquea disso, por favor. Apesar do pouco tempo que passou junto de si, adorava-a, e s posso lamentar profundamente a perda 
que sofreu. Quando se sentir mal, como agora estou a sentir-me, conforme-se no s com a ideia de que ele faria pela Adrienne o mesmo que fez por mim, mas tambm 
com a certeza de que, graas a si, foi-me concedido o privilgio de conhecer, e de amar, o meu pai.
     No fundo, acho que apenas estou a tentar dizer-lhe obrigado.
     Mark Manner,,
     158
     159
     
     Amanda pousou a carta sobre a mesa. Na cozinha, agora praticamente s escuras, conseguia ouvir a prpria respirao. Adrienne tinha ficado na sala, sozinha 
com os seus pensamentos, e Amanda dobrou a carta lentamente, a pensar em Paul, a pensar na me e, por estranho que lhe parecesse, a pensar em Brent.
     Com algum esforo, conseguiu recordar um Natal de h muitos anos, em que a me se mostrara muito pouco expansiva, com sorrisos que pareciam sempre um pouco 
forados e as lgrimas inexplicveis que, pensaram os filhos, teriam algo a ver com o pai deles.
     Todos aqueles anos passados e ela sem se referir ao caso.
     Apesar de a me e o Paul no terem passado juntos tantos anos como os que ela passara com Brent, Amanda descobriu, numa espcie de iluminao sbita, que a 
morte de Paul tinha atingido a me com intensidade igual  que ela prpria tinha experimentado quando se sentou pela ltima vez junto da cama de Brent. S houve 
uma diferena: A me no teve direito nem a um ltimo
     adeus.
     * * *
     Ao ouvir o som abafado dos soluos da filha, Adrienne virou as costas  janela da sala e dirigiu-se para a cozinha. Amanda olhou-a em silncio, de olhos arregalados 
por uma angstia muda.
     Adrienne ficou parada, a observar a filha, at que, finalmente, abriu os braos. Como que por instinto, Amanda levantou-se, a tentar sem o conseguir estancar 
a torrente de lgrimas, e me e filha ficaram ambas de p, a abraaram-se durante muito, muito tempo.
     DEZOITO
     O ar tinha arrefecido ligeiramente, pelo que Adrienne resolveu acender algumas velas na cozinha, tanto para iluminar como para aquecer o ambiente. Sentada  
mesa, tinha voltado a guardar a carta do Mark dentro da caixa, juntamente com o bilhete e a fotografia. Amanda observava-a calmamente, de mos abandonadas no regao.
     - Lamento muito, mam - disse em voz baixa. - Por tudo. Por perderes o Paul, por teres de arrastar sozinha com uma mgoa dessas. No consigo imaginar quanto 
te ter custado manter toda essa dor guardada dentro de ti.
     - Nem eu - respondeu a me. - Nunca o teria conseguido sem ajuda.
     Amanda abanou a cabea.
     - Mas foi isso que fizeste - murmurou Amanda.
     - No. Sobrevivi, mas no sozinha.
     A filha olhava-a, sem compreender. Adrienne mostrou um sorriso melanclico.
     - O av - acabou por dizer. - O meu pai. Foi juntamente com ele que chorei. Durante semanas, chorei todos os dias com ele. Sem ele, nem sei o que poderia ter 
acontecido.
     - Mas...
     Amanda no conseguiu concluir e a me foi em seu auxlio.
     - Mas ele no falava, no  o que ias dizer? - Adrienne fez uma pausa. - No precisou de falar. Ouviu e isso era tudo aquilo de que eu precisava. Alm disso, 
eu tinha conscincia de que ele
     160
     161
     
     no poderia dizer nada que aliviasse o meu desgosto, mesmo que conseguisse falar. - Levantou os olhos. - Sabes isso to bem como eu.
     Amanda mordeu o lbio.
     -Gostaria que me tivesses contado - disse. - H mais tempo, quero eu dizer.
     - Por causa do Brent?
     Amanda assentiu.
     - Sei que terias gostado de saber, mas s agora te julguei pronta
     para ouvires a histria. Precisavas de tempo para,  tua maneira e
     segundo os teus prprios termos, ultrapassares o desgosto. Amanda ficou calada durante muito tempo.
     - No  justo. Tu e o Paul, eu e o Brent... - murmurou. - Pois no, no .
     - Como  que conseguiste continuar depois de o perderes nessas circunstncias?
     Adrienne fez um sorriso tristonho.
     - Aceitei a vida, um dia de cada vez. No foi assim que fomos ensinadas a fazer? Sei que soa a banalidade, mas costumava acordar pela manh e dizer a mim prpria 
que s precisava de ser forte durante mais um dia. Apenas mais um dia. Fiz isso, uma e outra vez, durante muito tempo.
     - Dito assim, parece muito simples - murmurou Amanda. - No foi. Foi o pior perodo da minha vida. - Pior ainda do que quando o pai saiu de casa? - Essa tambm 
foi uma altura m, embora diferente - res
     pondeu a me, com um sorriso rpido. - Foste tu mesma que me
     disseste isso, recordas-te?
     Amanda desviou o olhar. Sim, pensou, claro que me lembro. - Gostaria de ter podido conhec-lo.
     - Terias gostado dele. Com o tempo, quero eu dizer. Na altura, talvez no. Continuavas a alimentar a esperana de que eu e o teu pai refizssemos o casamento.
     De ar melanclico, Amanda levou a mo  aliana de casamento que continuava a usar e f-la rodar  volta do dedo. - Sofreste duras perdas na tua vida.
     -  verdade.
     -,        o, agora pareces to feliz.
     - Sou feliz.
     - Como  que consegues?
     Adrienne juntou as mos.
     - Quando penso na morte do Paul e nos anos que poderamos ter vivido juntos, decerto me sinto infeliz. Senti a perda, na altura, e continuo a senti-la. H, 
porm, uma outra coisa que tens de compreender: por mais difcil que tivesse sido, por mais terrvel e injusta que a vida me parecesse, nunca trocaria os poucos 
dias que passei com ele por nada deste imundo. - Fez uma pausa, dando tempo a que a filha entendesse o que lhe estava a dizer. - Na carta do Mark est escrito que 
eu salvei o Paul dele prprio. No entanto, se o Mark tivesse pedido a minha opinio, ter-lhe-ia dito que nos salvmos um ao outro, ou que o Paul me salvou de mim 
mesma. Se no o tivesse conhecido, duvido de que alguma vez conseguisse perdoar ao Jack e nunca teria sido a me e a av que sou hoje. Graas a ele, voltei a Rocky 
Mount sabendo que tudo ia correr bem, que os problemas se iam resolver e que, fosse como fosse, esta tua me ia sobreviver. E o ano que passmos a trocar cartas 
deu-me a fora necessria para enfrentar a situao quando soube o que lhe tinha acontecido. Sim, fiquei devastada por t-lo perdido mas, se de qualquer modo pudesse 
recuar no tempo e ficar a saber antecipadamente o que iria acontecer, mesmo assim, gostaria que ele tivesse ido ao Equador, por causa do filho. Ele precisava de 
esclarecer a situao com o Mark. O filho precisava dele. E ainda estavam a tempo de comporem as coisas.
     Amanda desviou os olhos, sabendo que ela estava tambm a falar de Max e de Greg.
     - Foi por isso que quis contar-te a histria desde o incio - continuou a me. - No s por ter vivido o perodo difcil que ests a viver agora, mas tambm 
porque quis que percebesses quanto a relao com o filho era importante para o Paul. E aquilo que essa relao significa ainda hoje para o Mark. So feridas difceis 
de curar e no quero provocar-te mais feridas do que as que j tens.
     Estendeu o brao por cima da mesa e pegou na mo da filha.
     162
     163
     
     - Sei que ainda sofres por teres perdido o Brent e no posso fazer nada para te ajudar nesse transe. Porm, se Brent aqui estivesse, dir-te-ia para te concentrares 
nos teus filhos, no no luto pela morte dele. Gostaria que recordasses os bons momentos, no os maus. E, acima de tudo, gostaria de saber que tambm vais ser feliz.
     - Sei isso tudo...
     Com uma ligeira presso dos dedos, Adrienne no a deixou continuar.
     - s mais forte do que pensas - continuou -, mas s na medida em que tiveres vontade de o seres. - No  assim to fcil.
     - Pois, decerto no , mas tens de compreender que no estou a falar dos teus sentimentos. No os conseguirs controlar. Vais continuar a chorar, vais ainda 
ter momentos em que no te achas capaz de prosseguir. Mas tens de agir como se tivesses tudo controlado. Numa altura destas, os teus actos so praticamente as nicas 
coisas que podes controlar. - Nova pausa. - Amanda, os teus filhos precisam de ti. No julgo que tenha havido uma altura em que precisassem mais de ti. Todavia, 
nos ltimos tempos no tens tido disponibilidade para eles. Sei que ests a sofrer, e sofro contigo, mas s me e no podes continuar a agir dessa forma. Brent no 
quereria tal coisa, mas os teus filhos esto a pagar um preo elevado.
     Quando a me terminou, Amanda pareceu interessada em analisar a mesa. Mas, ento, como num filme em cmara lenta, levantou a cabea e olhou para cima.
     Por muito que desejasse saber, Adrienne ficou sem fazer ideia do que estava a passar-se na cabea da filha.
     Quando Amanda chegou a casa, Dan estava a dobrar a ltima das toalhas que havia no cesto, enquanto deitava um olho para o televisor. As roupas tinham sido arrumadas 
em pilhas separadas, em cima da mesa do caf. Num gesto automtico, Dan levou a mo ao comando remoto para fazer baixar o volume de som.
     - J estava a pensar que tinhas decidido no voltar para casa - disse.
     - Ol., x~ --- cumprimentou Amanda, a olhar  volta. Onde  que esto os rapazes?
     Dan apontou com a cabea e acrescentou uma toalha verde 
     respectiva pilha.
     - Foram para a cama h apenas uns minutos. Se queres dar
     -lhes as boas-noites,  provvel que ainda os encontres acordados. - E os teus midos, esto onde?
     - Passei por casa e deixei-os, juntamente com a Kira. S para
     saberes, o Max deixou cair um bocado de piza na T-shirt do Scooby
     Doo. Acho que  uma das preferidas dele, 'porque ficou muito
     aborrecido. J a pus de molho, no lavatrio, mas no consegui
     encontrar o tira-ndoas.
     Amanda aquiesceu.
     - Este fim-de-semana, vou compr-lo. De qualquer forma, j
     tencionava ir s compras. Preciso de mais umas coisas.
     Dan olhou para a irm.
     - Se fizeres uma lista, a Kira pode trazer-te tudo aquilo de que
     precisas. Sei que ela tenciona ir ao supermercado.
     - Agradeo a oferta, mas  tempo de eu voltar a fazer esse tipo
     de coisas.
     - Ora bem...
     Mostrou um sorriso contrafeito. Por momentos, tanto ele como
     a irm ficaram calados.
     - Obrigada por teres levado os midos contigo - acabou
     Amanda por dizer.
     Dan encolheu os ombros.
     - Que grande coisa! Ns amos, de qualquer maneira, e pensei
     que eles gostariam de ir tambm.
     Amanda respondeu com sinceridade.
     - No. Quero agradecer-te por todas as vezes que fizeste o
     mesmo, desde h bastante tempo. No  s por hoje. Tanto tu
     como o Matt tm sido fantsticos desde... desde que perdi o Brent
     e nem sei se vos tenho demonstrado o quanto vos estou agradecida. Ao ouvir o nome de Brent, Dan desviou o olhar. Pegou no cesto
     da roupa, agora vazio.
     -  para isso que servem os tios, ou no? - Mudou o p de
     apoio, s para disfarar o embarao, mantendo o cesto  altura da
     164
     165
     
     barriga. - Queres que passe por c amanh e torne a levar os rapazes? Estou a pensar num passeio de bicicleta com os midos. Amanda abanou a cabea.
     - Obrigada, mas penso que chegou a minha vez. - O irmo encarou-a com ar de dvida, mas Amanda no pareceu reparar. Despiu o casaco e deixou-o em cima de uma 
cadeira, juntamente com a malinha de mo. - Esta noite tive uma longa conversa com a mam.
     - H sim? Como  que correu?
     - Se te contasse, no ias acreditar nem em metade. - O que  que ela disse?
     - Tinhas de ter assistido, s ouvindo. Contudo, hoje soube uma coisa acerca dela. - Dan alou uma sobrancelha,  espera de ouvir mais.
     -  mais forte do que parece - disse Amanda. O irmo soltou uma gargalhada.
     - Pois... decerto  forte. Chora sempre que morre um dos peixinhos dourados.
     - Talvez isso seja verdade, mas em muitos aspectos tomara eu ser to forte como ela.
     - Quero crer que sim.
     Ao ver a expresso sria da irm, Dan percebeu, com espanto, que Amanda no estava a tentar fazer esprito. Enrugou a testa. - Espera l - exclamou -, ests 
a falar da nossa me?
     Dan saiu minutos depois, sem ter conseguido, apesar dos seus esforos, que a irm lhe desse qualquer pormenor da conversa que tivera com a me. Amanda compreendia 
os motivos do silncio da me, tanto no passado como nos anos mais recentes, e sabia que a me no hesitaria em d-los a conhecer ao Dan se entendesse dever faz-lo.
     Amanda fechou a porta depois de o irmo ter sado e ficou a olhar para a sala. Para alm de ter dobrado a roupa, Dan tinha arrumado a casa; recordou que quando 
saiu, havia cassetes de vdeo espalhadas junto do televisor, uma pilha de chvenas vazias
     em cima da mesa, revistas de um ano inteiro empilhadas em equilbrio precrio na mesa junto da porta.
     Dan tinha cuidado de tudo. Uma vez mais.
     Apagou as luzes, a pensar em Brent, a reflectir sobre os ltimos oito meses, a pensar nos filhos. Greg e Max partilhavam um quarto no fundo do corredor; o quarto 
de casal ficava do lado oposto. Nos ltimos tempos aquela distncia estava a revelar-se demasiada para ser percorrida no final do dia. Antes de Brent ter morrido, 
antes de lhes puxar a roupa at aos queixos, costumava acompanhar os rapazes nas preces nocturnas e lia-lhes histrias de livros infantis com gravuras coloridas.
     Esta noite, o irmo tinha-se encarregado dessa parte. Na noite anterior, ningum o fizera.
     Dirigiu-se para a escada. A casa estava s escuras; o corredor do andar de cima estava sombreado de preto. Ao chegar ao cimo da escada, ouviu os murmrios abafados 
dos dois filhos. Percorreu o corredor e parou  porta do quarto deles,  escuta.
     Dormiam em camas iguais, com edredes decorados com dinossauros e carros de corrida; havia brinquedos espalhados entre as camas. A luz da noite brilhava num 
candeeiro colocado perto do armrio e, no silncio, tornou a pensar como os dois rapazes se pareciam com o pai.
     Os midos ficaram quietos. Sabendo-se observados, fingiram que estavam a dormir, como se se sentissem seguros ao esconderem-se da me.
     O soalho rangeu com o peso dela. Max parecia conter a respirao. Greg espreitou-a pelo canto do olho e cerrou as plpebras logo que Amanda se sentou junto 
dele. Inclinando-se, a me beijou-o na face e passou-lhe uma mo carinhosa pelos cabelos.
     - Ol - sussurrou. - Ests a dormir?
     - Estou - respondeu o petiz.
     Amanda sorriu.
     - Queres dormir esta noite com a mam? Na cama grande? - murmurou.
     Greg pareceu necessitar de algum tempo para perceber o que a me lhe disse.
     - Contigo?
     166
     167
     
     - Sim.
     - Quero - respondeu e a me ficou a v-lo sentar-se na cama e deu-lhe outro beijo. Chegou-se  cama do Max. A luz vinda da janela dava reflexos dourados, como 
os das luzes de Natal, ao cabelo do filho.
     - Ol, doura.
     Max engoliu em seco mas continuou de olhos fechados. - Tambm posso ir?
     - Se quiseres.
     - Eu quero - foi a resposta.
     A me sorriu ao v-los saltar da cama mas, quando ambos j estavam a caminho da porta, puxou-os para trs e abraou-os. Exalavam o cheiro tpico dos rapazes 
pequenos, a p, a erva,  prpria inocncia.
     - E se amanh fssemos at ao parque para, mais tarde, comermos uns gelados?
     - Podemos pr os papagaios a voar? - perguntou Max. Amanda apertou-o um pouco mais, enquanto fechava os olhos. - Durante todo o dia. E no dia seguinte tambm, 
se quiseres.
     DEZANOVE
     J passava da meia-noite. Adrienne estava sentada na cama, a segurar o bzio com as duas mos. Dan tinha telefonado uma hora antes, com grandes novidades acerca 
da irm.
     - Disse-me que amanh ia passear com os rapazes, s os trs. Acrescentou que os midos precisavam de estar com a me - comentou, antes de fazer uma pausa. - 
No sei o que lhe disseste mas, fosse o que fosse, resultou.
     - Fico contente.
     - Ento, o que  que lhe disseste? Ela mostrou-se, como hei-de dizer, algo circunspecta acerca do assunto.
     - Disse-lhe o mesmo que tenho vindo a dizer-lhe desde o incio. O mesmo que tu e o Matt tambm lhe tm andado a dizer.
     - Ento, por que  que desta vez ela ouviu?
     -Julgo - comeou Adrienne, a escolher bem as palavras - que finalmente quis ouvir.
     Mais tarde, depois de desligar o telefone, voltou as ler as cartas do Paul, como sabia que teria de fazer. Embora as lgrimas tornassem difcil a leitura do 
que Paul escrevera, as suas prprias cartas eram ainda mais difceis de ler. Leu tambm, como fizera vezes sem conta, aquelas palavras que escrevera ao Paul durante 
o ano em que estiveram separados. As cartas dela estavam no segundo mao; no mao que Mark Flanner trouxera consigo quando a visitara, ali em casa, dois meses depois 
de Paul ter sido enterrado no Equador.
     Amanda saiu antes de se lembrar de fazer perguntas acerca da visita de Mark e a me tambm no a encorajara a perguntar.
     168
     169
     
     A filha voltaria decerto a falar do assunto mas, mesmo agora, Adrienne no sabia muito bem o que deveria responder-lhe. Essa era a parte da histria que tinha 
guardado exclusivamente para si durante todos aqueles anos, que tinha mantido to fechada como as prprias cartas. Nem o pai sabia o que Paul tinha feito.
     Levantou-se da cama e, aproveitando a luz plida da rua que a janela deixava entrar, foi ao armrio buscar um casaco e um leno, desceu a escada e saiu para 
o exterior pela porta das traseiras.
     As estrelas brilhavam como as pequenas lantejoulas de uma capa de ilusionista e o ar estava frio e hmido. No jardim, havia poas de gua escura que reflectiam 
as cintilaes vindas do cu. As janelas das casas dos vizinhos estavam iluminadas e, por muito que soubesse que se tratava apenas de imaginao sua, quase podia 
sentir o cheiro da maresia no ar, como se a neblina do mar j estivesse por cima dos jardins da vizinhana.
     Mark tinha-a visitado numa manh de Fevereiro; continuava de brao engessado num aparelho, mas ela mal notara esses pormenores. Em vez disso, deu consigo a 
encar-lo de frente, sem conseguir desviar os olhos do rosto dele. Parecia, pensou, a cpia exacta do pai. Depois de lhe abrir a porta e de ser presenteada com o 
mais triste dos sorrisos, Adrienne teve de dar um pequeno passo atrs, numa tentativa desesperada de conter as lgrimas.
     Sentaram-se  mesa, com duas chvenas de caf entre eles, e Mark tirou o mao de cartas da pasta que trazia consigo.
     - Ele guardou-as - informou. - No sabia o que fazer com elas, excepto devolv-las  autora.
     Adrienne mostrou satisfao ao receb-las.
     - Obrigada pela sua carta - disse ela. - Adivinho quanto lhe deve ter custado a escrever.
     - No tem de qu.
     Mark ficou em silncio durante uns instantes. Depois, informou-a do motivo da visita.
     Agora, no alpendre, Adrienne sorria ao pensar no que Paul tinha feito por ela. Recordou-se de que, logo que Mark saiu, foi visitar o pai  clnica de recuperao, 
um lugar de onde o pai jamais teria necessidade de sair. Como Mark explicou enquanto esteve sentado  frente dela, na cozinha, Paul tinha tratado de tudo para que 
o pai
     pudesse permanecer na casa de repouso at ao fim dos seus dias uma surpresa que se preparava para lhe anunciar pelo Natal. Quando ela esboou um protesto, Mark 
esclareceu que Paul teria ficado muito desconsolado se soubesse que ela no queria aceitar a oferta.
     - Por favor        acabou por implorar -, era o que o meu pai queria.
     Nos anos que se seguiram, nunca mais deixou de apreciar aquele gesto final do Paul, tal como apreciava todas as recordaes dos poucos dias que passaram juntos. 
Paul continuava a significar tudo para ela, sempre significaria tudo para ela e, naquele ar frio do final da tarde, Adrienne sentiu que nunca deixaria de pensar 
assim.
     Sabia que j vivera mais anos do que os tinha para viver, embora sem a conscincia de ter tido uma vida longa. Houve anos inteiros que se lhe varreram da memria, 
como se fossem pegadas deixadas na areia,  beira-mar, quando a mar est a encher. Por vezes pensava que, com excepo dos dias vividos com Paul Flanner, tinha 
passado pela vida como uma criana que  levada numa longa viagem de automvel, que nada mais faz do que olhar pela janela, a ver as constantes alteraes da paisagem.
     Tinha-se apaixonado por um estranho no decurso de um fim-de-semana e nunca mais voltaria a apaixonar-se. O desejo de voltar a amar tinha acabado numa vereda 
de montanha do Equador. Paul tinha morrido para salvar o filho e, nesse momento, uma parte dela morreu tambm.
     Todavia, no sentia amargura. Numa situao semelhante, sabia que tambm tentaria salvar os seus prprios filhos. Sim, Paul tinha morrido, mas tinha-lhe deixado 
tantas coisas. Com ele encontrou o amor e a alegria, alm de uma fora de que nunca se julgara possuidora, riquezas de que jamais poderia ser despojada.
     Todavia, agora estava tudo acabado; tudo menos as recordaes e essas eram mantidas com carinhos infinitos. Eram to reais como a cena que agora tinha diante 
dos olhos e, contendo as lgrimas que tinham comeado a rolar na escurido do seu quarto, levantou o queixo. Olhou o cu e inspirou profundamente, a ouvir um eco 
distante de ondas imaginrias,  medida que iam rebentando numa praia da ilha de Rodanthe, numa noite de tempestade.
     170
     
